E agora, vamos ao que interessa: porque se tem que suportar “democraticamente” esta política económica?

A banca em Portugal é responsável pela falta de qualidade do investimento e, consequentemente, também pela estagnação do País, pela gravidade da crise e pelo aumento das desigualdades regionais . (…)

E segundo o Banco de Portugal (…), em Janeiro de 2010, o crédito concedido à agricultura representava apenas 0,8% do credito total; à pesca somente 0,1%; às industrias extractivas 0,2%, à Industria Transformadora 6,2%; em suma, estes 4 sectores produtivos fundamentais para o crescimento económico e aumento da competitividade do País receberam apenas 7,3% de todo o crédito concedido pela banca em Portugal. E entre 2000 e 2010, o crédito concedido a estes 4 sectores baixou de 11,3% para 7,3% do credito total concedido pela banca, ou seja, sofreu uma redução de 35,4%. Enquanto sucedeu isto em relação às actividades produtivas essenciais para o desenvolvimento do País, entre 2000 e 2010, o crédito concedido pela banca às empresas de construção cresceu de 8,4% para 9,3% do total; às actividades imobiliárias de 11,2% para 17,2%; e à habitação, que permitiu a especulação nas duas actividades anteriores, subiu de 42,7% para 45,2% do crédito total concedido pela banca; em resumo, estas três actividades – construção, imobiliário e habitação – absorveram, em 2000, 62,3% de todo o crédito concedido pela banca em Portugal e, em 2010, 71,7% do crédito total. Se adicionarmos o crédito ao consumo (6,5% do total em 2000 e 6,4% em 2010) a desigualdade de tratamento ainda se torna mais grave. (…)

[Eugénio Rosa]

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7 Responses to E agora, vamos ao que interessa: porque se tem que suportar “democraticamente” esta política económica?

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  2. Renato Teixeira diz:

    Caro Carlos, o primeiro problema da coisa económica é que ela tem grandes aliados na coisa democrática. Se o que falta então à política é a defesa da coisa violenta, para quando uma teologia da coisa?

    Saudemos os gregos, pois claro, e diga-se a quem não vê que a melhor ajuda que podemos dar à Grécia é gritar bem alto: “Não nos devem nada! Deixem a dívida por pagar que quem cobra o juro em nosso nome é o usuário.”

    E já agora, como chegam os tugas ao parthenon?

  3. Carlos Vidal diz:

    Creio que a teologia da revolta já existe.
    Como sabes, quando o Zizek se filia em Lacan e na sua leitura de S. Paulo, ou quando com Badiou ambos vêem em S. Paulo um precursor de Lénine, estão a pensar numa energia transgressiva da Lei, transgressão que Paulo chama “amor”, Lacan subscreve, e Badiou diz tal ser da natureza de uma subjectividade pura e sem cálculo.

    Também Derrida diz ser a justiça “incalculável”, ou seja, injustificável. Contra isto, existe o Direito, que é cálculo e lei. No “The Fragile Absolute”, Zizek diz ser necessário quebrar o ciclo do Direito, o seu enovelamento; nele, de novo com Lacan, o Direito é uma espécie de superego castrador. Numa argumentação passível de ser chamada de “teologia libertadora” esta pode ser uma via de teorização.

    Mas, independentemente das teorizações, de Spartacus a Sartre, de Badiou a Zizek, a justiça contra o Direito e o comunismo é (são) uma invariante: irrompe inesperadamente, não se faz avisar, nada na realidade faz perceber que tal irrupção vai dar-se. Se assim não fosse, nada de transformações ou revoluções. O poder evitava-as sempre.
    Mas, atenção que esta “teologia” tem os seus riscos: pode fazer-nos ficar à espera da inevitabilidade da “revolução”.
    Seja como for, ela (esta dita “teologia”) acerta quando nos diz ser a irrupção revolucionária de facto uma evidência, como tem sido de forma mais ou menos cíclica: de Spartacus ao exército de camponeses do bispo Muntzer (que, creio, Engels muito admirava), deste a Saint-Just, depois em 1848, 1871, 1917, 1968 até à Revolução Cultural.

    O termo “teologia” aparece aqui porque alguém acusou a revolução em Badiou de ser uma espécie de secularização da “graça”. Claro que Badiou não aceita esta classificação. Mas, com efeito, a sua caracterização de revolução é exacta: trata-se da irrupção de uma inevitabilidade sem cálculo. O inédito imprevisível.
    O essencial é essa irrupção: se é violenta ou não pouco importa. O problema dos sociais-democratas, como sabes, é que condenam essa violência. Os comunistas não o devem fazer.

    O termo “teologia” pode não ser o mais correcto, mas tem circulado por aqui, por estas discussões.
    Outro termo é o “messianismo”, que podemos tomar como proveniente do marxismo de Walter Benjamin. Mas também aqui não há um consenso, digamos: é o marxismo um messianismo?
    (Continua)

  4. Renato Teixeira diz:

    Pode ser, claro. Como messiânica pode ser a relação de algumas pessoas com morangos, chocolate, piri-piri ou gelado. Não consigo imaginar algo que não esteja vulnerável ao messianismo e alvo de taras inimagináveis. Até ao Maradona se dedica uma Igreja (a mais credível de todas, é certo… mas ainda assim messiânica). O marxismo é antes de mais uma ferramenta analítica. Cada um usa-a como quer. Dos corredores de Wall Street aos grupúsculos mais recônditos de marxismo militante.

    Estamos de acordo quanto ao papel da violência no processo emancipatório, por certo, e sobre as capitulações da esquerda do regime em questionar e atacar os seus pilares. A diferença, acho, é relativamente às possibilidades que nos dão os tais inéditos imprevisíveis e a centralidade do Direito na sustentação do regime.

    No primeiro problema, para lá do perigo da preguiça oriunda do amanhã que canta, que identificas, há o perigo da consolidação da espontaneidade, crença estupidamente paralisante que desacredita o potencial transformador da acção política.

    O debate que mais me interessa é então, mais do que garantir a eficácia e pureza do resultado das revoluções, entender como se pode a cada momento caminhar no sentido contrário ao que muito bem baptizas de superego castrador.

    Voltando ao concreto, como garantir que as “irrupções de uma inevitabilidade sem cálculo” (como as que referes e esta grega com que nos temos debatido), cheguem a tempo de sair vencedoras do combate político contra quem defendem o natural estado das coisas e a cada momento a ordem dominante de turno.

  5. Carlos Vidal diz:

    Walter Benjamin é um dos pensadores que marcou o século naquilo que o caracterizou distintivamente: pensador da política, da arte e da técnica. Assim, muito resumidamente. Nem neste espaço me atreveria a dizer muito mais.
    O seu messianismo é diferente do messianismo de outros que criticam o marxismo por isso mesmo, por paralisante messianismo. Quando aqui referi Lénine como “inseparável” de Marx, nas polémicas com os do “Vias”, referia-me à hipótese de Lénine romper com o ciclo do messianismo se considerado como coisa homogénea (estática).
    Mas, em Benjamin, julgo poder dizer que nele a história o que não é é coisa homogénia (sucessão de dias atrás de dias, meses atrás de meses….). Em Benjamin, se há messianismo é porque se abre na história uma possibilidade de redenção.
    Tentemos substituir o termo “redenção” por “revolução” ou “transformação”, que não será certamente errado.

    Quanto a um outro ponto que apontaste. Correcto, a crítica do espontaneísmo – já a faz Lénine no “Que Fazer?”.
    Quando Badiou se refere à imprevisibilidade da irrupção do movimento revolucionário, tal não deve, creio, ser confundido com o espontaneísmo. Precisamente, porque dessa irrupção (no sítio/momento da irrupção, sítio do “acontecimento”), não se sabe o que vai suceder.
    A força de uma revolução reside aí: em não se saber como se vai estruturar, ou seja, controlar (e, desejavelmente, não se controla o incontrolável).

  6. Renato Teixeira diz:

    Mais uns tempos de escrita colectiva e ainda me convences a ler esse “teu” Badiou. Até lá, podemos ir resolvendo a questão leninista. De acordo quanto ao substancial do pressupostos resta a grande dúvida: como semear a resposta grega pelo resto dos povos? Como dar uma ajuda à mão invisível das pulsões revolucionárias?

  7. Carlos Vidal diz:

    Uma coisa sabemos, parece uma banalidade, mas é uma “banalidade” aceite por poucos (os outros têm uma espécie de medo):
    – nenhum processo de transformação social poderá ocorrer por via democrática, eleitoral ou parlamentar. Nisto os comunistas alemães no início do século XX (entre outros) tinham razão: os sociais-democratas são a ala esquerda do totalitarismo.
    – Quer dizer, e democracia parlamentar existe para, precisamente, impedir toda e qualquer forma de emancipação ou transformação social. De resto, a violência de massas e a violência popular são legítimas, até mesmo segundo o critério das democracias parlamentares, pois, como sabemos, os governos são eleitos por minorias.

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