
Num outro post, citando Lénine, sublinhei algo que creio de grande importância e interesse: o anticlericalismo complexado sobe de tom à medida em que baixa (ou desaparece) o fulgor da crítica rigorosa e severa ao capitalismo e a este regime de bandidagem especulativa mercantil. Numa linha de crítica materialista sabemos que uma análise do fenómeno religioso, nomeadamente do cristianismo, deve partir do estudo das condições objectivas e determinadas da história. Ou seja, no contexto da alienação – se quisermos pôr as coisas desta forma – não é a religião que inventa o capitalismo, mas este que daquela se serve (“é da terra ao céu que se sobe”, dirá Marx). Ou seja, quem invectiva Ratzinger é bom que pense melhor por onde deve começar (e não Luis Rainha, não se começa por invectivar Fidel Castro e Cuba, certamente que não; e, hoje, até o neo-con Miguel Serras Pereira aqui veio botar sentença).
Para o perceber basta andar pelos cantos mentecaptos do “Jugular” ou “Da Literatura”, etc., ou seja, pelos blogues do governo, a que podemos somar o “arrastão”. São estes os que se excitam com Ratzinger. Nas caixas dos posts (aqui e aqui) do Luis Rainha o comentador Abílio Rosa, agudo e atento, chamou a atenção para o facto, duas vezes se não me engano (não incluo nesta minha crítica, obviamente, o Renato que, sobre o tema “capitalismo”, nunca deixou de ser um firme aliado de prosa e acção bloguística “5diasiana”: ou seja, o seu anticlericalismo, suponho poder utilizar a palavra, está totalmente contextualizado; além do mais subscrevo o conteúdo do post sobre o preservativo). Entretanto, como por aqui não se escreveu sobre o teólogo Ratzinger nada que valesse o nome de “texto”, penso poder “importar” um texto de Eduardo Lourenço do “Público”. Não é que seja o texto que eu escreveria, mas é, certamente, um “texto”.
Por fim, para melhor meditar a relação entre cristianismo e suas metáforas e comunismo, aqui deixo uma muito seleccionada bibliografia, diria mesmo APENAS O MELHOR DO MELHOR da filosofia contemporânea, apenas por autores comunistas e pensadores do comunismo:
Vai assim, sintetizada, para não ocupar muito espaço:
De JEAN-LUC NANCY: “Corpus”, 1992; “Noli me tangere: Essai sur la Levée do Corps”, 2003; “La Déclosion: Déconstruction du Christianisme, 1″, 2005; “Dieu, La Justice, L’Amour, La Beauté”, 2009.
De SLAVOJ ZIZEK: “The Fragile Absolute: Or, why is the christian legacy worth foghting for?”, 2000; “On Belief”, 2001; “The Puppet and the Dwarf: The Perverse Core of Christianity”, 2003; “The Monstrosity of Christ: Paradox or Dialectic?” (com John Milbank), 2009.
De ALAIN BADIOU, o famosíssimo: “Saint Paul: La Fondation de l’Universalisme”, 1997. Sobre BADIOU: Frederiek Depoortere, “Badiou and Theology”, 2009. Poderia ainda acrescentar Eagleton, Agamben ou Derrida, mas fiquemos por aqui.
Para a construção de uma teologia ateísta.




1.1 A Igreja Católica: Construtora da Civilização – Introdução
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Antecipando comentários, é simples: não basta ser-se anticlerical para se ser de esquerda.
Aqui está um “revolucionário” com uma grande pedrada de “ópio do povo”. Não vale citar o Zizek ou o Badiou (o outro não li), já que, manifestamente, não percebeu nada. Se não consegue distinguir o que é a “doutrina social da igreja”, num contexto de crítica a (um certo modo de) capitalismo, do clericalismo exacerbado e (digamo-lo sem receio) radical do Ratzinger, amigo de primeira hora das ditaduras de direita (por exemplo das latino-americanas)…
Engraçado… eu não preciso de intelectuais franceses chatérrimos só para dizer não me aborreçam com as vossas fézadas, e não sinto necessidade de grandes construções ou justificações teóricas para dixer isto.
O defeito deve ser meu, pelo visto só se deve conseguir ser ‘legalmente ateu/incréu’ se se conseguir escrever uma tese auto-justificante sobre o assunto…
Bom, uma vez que a perspicácia sempre vermelha do vigilante inspector que assina o post acaba de revelar publicamente a minha adesão ao neo-conservadorismo e de dar a voz de fogo correspondente, aqui vai o excerto da minha contribuição para o PEC e para a consolidação das políticas de Sócrates & Passos, que já enviei ao Luís Rainha (mais vale confessar tudo) tentando aliciá-lo para as hostes da contra-revolução e para as campanhas da Rádio Miami.
As provas apresentadas a seguir provêm de um texto publicado no Vias de Facto, mas no qual vários links remetem para o 5dias (http://viasfacto.blogspot.com/2010/05/mais-cest-une-revolte-non-sire-cest-une.html):
‹Nesta perspectiva, a democracia e a revolução exigem-se mutuamente. A revolução visa a democracia porque, como escreveu o Pedro Viana há tempos, no 5dias: A democracia na sua forma mais radical … implica a extensão do princípio igualitário a todas as áreas da vida em sociedade: eu só tenho liberdade para votar e decidir como igual, se fôr igual, se tiver igual poder. E a democracia visa a revolução, ou não pode deixar de ser revolucionária, porque a extensão do princípio igualitário, que implica a extensão simultânea das capacidades políticas da liberdade, exige uma transformação institucional radical, uma outra divisão política do trabalho e uma outra divisão do trabalho político.
‹Deste modo, como também no blogue já citado, e na caixa de comentários de um post do Ricardo Noronha, escrevi eu próprio:
‹A revolução é democracia radical, autonomia, república de conselhos ou assembleias igualitariamente abertas à participação de todos os cidadãos que não se auto-excluam, conspirando em vista de reservar a decisão política suprema a um grupo, classe, organização ou corpo profissional particular. Sem dúvida que o poder político revolucionário não pode, sob pena de assinar antecipadamente todas as capitulações, pôr de lado a força – em última análise armada – que garanta a cidadania governante, o exercício do poder pelos cidadãos organizados, contra acções que visem expropriá-los desse poder. … Assim, num vocabulário grato ao Zé Neves, a revolução é o movimento e o encadeamento das acções através das quais a “multidão” institui os seus membros como cidadãos governantes, detentores do poder político “legítimo” e do controle dos “meios de violência” correspondentes. Não é a substituição de governantes mais esclarecidos, mais “desinteressados”, mais “representativos do bem comum ou da classe explorada”, mais “meritórios” ou “competentes”, aos que anteriormente ocupavam os postos governamentais.
‹Do mesmo modo, no plano da actividade económica, a revolução não é a substituição dos proprietários ou companhias privadas pelo Estado e seus especialistas, técnicos ou capatazes de serviço, mas a sua gestão cooperativa e democrática pelo conjunto organizado dos interessados. E é, antes e depois desta transformação radical, a subordinação dos valores económicos e a destruição do primado da economia através do exercício político do poder pela cidadania governante [assegurando] a desmercantilização ou “deseconomização” correspondente da força de trabalho … . A subordinação da economia radicalmente democratizada ao poder político do auto-governo dos cidadãos e a destruição do seu primado intervêm aqui como garantindo a liberdade de criação de novos valores, usos e costumes, na dimensão informal da existência colectiva da “multidão”, bem como nas condições de existência de cada um dos seus membros›.
Uma última nota: é evidente que, embora agradecendo-a, os responsáveis pela elaboração do PEC não levaram em conta esta contribuição minha, nem as sugestões de outros via-factuantes, achando uma e outras prematuras, e optando por um neo-conservadorismo menos extremista.
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Sr. Carapinha,
Se há autor ou pensador que eu não percebo mesmo nada e em nada é Alain Badiou.
Fará o meu caro Carapinha o obséquio de mo explicar, assim em traços gerais, sintéticos, simples, considerando limitações minhas ?
É que, como está muito na moda esse senhor, não o entender é, para mim, chato.
Espero pela sua curta aula, a seguir. Se a tal se dignar.
Já lhe expliquei o que não entendeu no comentário anterior. Não entendeu?
Sr. Carapinha,
Vou encerrar o meu “diálogo” consigo.
O que escreve não tem nada a ver com o que escrevi.
Divirta-se. Está um belo dia.
(E, já agora, estou-me nas tintas para a sua “doutrina social da igreja”).
Tenho de concordar, também nunca ma pareceu pessoa capaz de dialogar com quem quer que seja.
Caro André Carapinha,
é assim, o autor deste post está-se nas tintas para tudo que não sejam os seus números de circo (que ele julga sacerdotais e de templo), acompanhados, quando muito, do Badiou badioulado à sua maneira. Em matéria de religião, nós, espíritos chãos, laicos, plebeus, fiquemo-nos por entoar esta canção de Brel, que hoje e amanhã poderá ser particularmente desanuviadora:
Et quand viendra l’heure imbécile et fatale
Où il paraît que quelqu’un nous appelle
J’insulterai le flic sacerdotal
Penché vers moi comme un larbin du ciel
Et je mourirai cerné de rigolos
En me disant qu’il était chouette Voltaire
Et qu’si en a des qui ont une plume au chapeau
Y en a des qui ont une plume dans l’ derrière
(Para fazer download a canção: http://www.lyricsmania.com/la,_la,_la_lyrics_jacques_brel.html )
Saudações republicanas
msp
http://ruadopatrocinio.wordpress.com/2009/07/09/soliloquio/
ora cá está o grande Savonarola enredado nos paradigmas do culto e da cultura, teor da literatura, que é um valor religioso.
Segue o inventário ” Colloyrium Fidei Adversus Haeresis”.