i-a-i-a-ô

“Tem ‘A Quinta dos Animais’?”
A empregada faz a mesma cara que Sir T. quando eu troco as preposições, mas recompõe-se e diz que vai procurar lá dentro, “do Orwell, certo?”, “errado”, penso eu mas não digo, enquanto avalio uma Relíquia em bom estado para substituir a que o meu irmão desencaminhou quando lhe ocorreu a ideia peregrina de aderir a um clube de permuta de livros, desdentando irremediavelmente as obras até aí completas da mãe. No espírito de filantropia que me caracteriza, e porque o rapaz tem idade para ser meu irmão mais novo, embora em menos giro, decido intervir. “Sabe que em português o ‘Animal Farm’ foi traduzido por ‘O Triunfo dos Porcos?'”, e aí é ele que olha para mim como se eu tivesse acabado de dizer “farmácia” com P-H: “Sim, mas há uma nova tradução, agora chama-se assim, é mais fiel ao original”. Mesmo tomando por bom o meu reaccionarismo, o que só como hipótese se admite, julgo que não serei a única a achar que o novo título não se entranha, apesar da sua inocente poesia. Temo aliás outras reedições no mesmo espírito de fidelidade – e por que não “O cerejal das cerejeiras”? Uma pessoa deixa o país à vossa guarda dez anitos e é isto.
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