The unfashionable side of social networks

Apesar do que vai dito, mesmo a ludita que há em mim reconhece vantagens às redes sociais. O Facebook, por exemplo, tem potencialidades para fazer evoluir as relações humanas para um paradigma superior, o que nos esforçaremos por provar através de um caso da vida, pese embora alheia. Consideremos a minha amiga J., que pôs recentemente o namorado com dono e está a viver o processo de ruminação habitual no fim dos amores das nossas vidas, passando em revista os amores-anteriores-da-vida-dela. “Devia ter ficado com o Bernardo”, diz-me ela ontem. Eu consigo pensar em meia dúzia de razões para não ficar com um Bernardo sem perturbar o equilíbrio homeostático que regula os meus neurónios, mas ela está em maré nostálgica: os passeios a cavalo, as idas à Feira da Golegã, perdeu uma vida de competições hípicas e jantares intelectualmente inertes, no sentido bioquímico do termo. “E ainda por cima, o gajo era giro”. Há uns anos, ter-me-ia bastado a palavra dela, e não estaria agora a escrever este post (com grave prejuízo para a minha continuidade neste blogue, agora que o chefe me considera “uma das pessoas regulares do 5dias” e exige ritmos de postagem incompatíveis com a minha indigência). Mas hoje há o Facebook, e a J., em vez de ir buscar o velhinho álbum de fotos ao armário, saca do Mac e mostra-me o Bernardo na sua gloriosa actualidade. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas o Bernardo continua a gastar-se em concursos de salto, pese embora com menos cabelo, e tem as fotos do noivado, as fotos de férias com a prometida e as intermináveis fotos das Feiras da Golegã todas no féicebuque. Quando começamos a ler os quizzes da futura mulher do gajo e as mensagens em que ela, contra todas as regras da boa sociedade, diz publicamente bem dele, noto um abrandamento da melancolia na sala; e quando chegamos aos amigos-do-Bernardo − uma sucessão de Zézés Marmottas da Costa e Franciscos Lampreia Gentil −, o sentimento da opinião pública muda radicalmente, e as nuvens mórbidas que antes pesavam sobre as nossas cabeças são definitivamente afastadas por um ataque de riso colectivo de deixar de cara à banda o Manuel Nobre Chorão (que também é amigo do Bernardo). Razão tinha o outro: é melhor ser alegre que ser triste.

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