Tarde piaste

Durante o breve tempo em que trabalhei na Comissão (e uso o termo “trabalhar” com o sentido menos comprometedor registado nos dicionários), fiquei com a melhor impressão dos funcionários europeus, pessoas com uma admirável resistência ao tédio. Recordo com especial saudade um colega francês que era a amabilidade em figura de funcionário e me convidava sempre para os “petit-déjes” servidos ao fundo do corredor, uma ofensiva às ancas de charcutaria, croissants quentes e pãezinhos recheados. A primeira vez que me convidaram pensei que era o aniversário de alguém, mas não: era parte da rotina diária, pontualmente às 10h. Num dia surpreendentemente igual aos outros, pedi a esse meu vizinho de gabinete um agrafador emprestado, sem o qual me arriscava a empenar a elevada produtividade da instituição. Como sempre, ele saiu às 16h30, ainda eu andava às voltas com pilhas de fotocópias, e só pude devolver-lhe o agrafador no dia seguinte. “Voici votre agrafeuse, merci beaucoup!”. O bravo gaulês olhou-me horrorizado: “Oh, NON! Maintenant je vais être obligé d’agrafer!“.
Lembrei-me desta história quando há dias o responsável da empresa que me emprega interrompeu uma fascinante navegação na internet prospecção preliminar de informações para anunciar, com o entusiasmo de quem acaba de lançar uma OPA: “Já estamos no Twitter!”. O meu primeiro instinto – proteger os ouvidos com as mãos enquanto repetia “Não estou a ouvir, não quero saber, nã-nã-Nãã-nã-NÃÃÃÃÃÔ – foi cobardemente silenciado por um “Ah, sim?” que o meu chefe traduziu como manifestação de interesse. O tanas: a verdade é que consegui até agora evitar a rede social da moda, admito que sem grande heroísmo, da mesma forma que resisti às pressões da minha irmã mais nova para criar uma conta no Facebook – handicap que me deixa arredada dos seus imperdíveis quizzes, mas nunca ninguém disse que a vida era fácil. A minha twitofobia, se lhe posso chamar assim, é inofensiva q.b., e não implica um juízo de censura sobre os twitómanos deste mundo: as pessoas não se medem aos tweets, e eu não acho que o Stephen Fry se tenha tornado um “twit” só porque anda no Twitter nem que a Paris Hilton tenha deixado de ser uma “twat” desde que aderiu à rede. Não falta sequer quem defenda que o pássaro tem utilidade social, um banho de credibilidade para uma rede baptizada com uma derivação de “tonto”. Mas a coisa lembra-me a divisa “il faut être absolument moderne”, que me deixou cansada à partida de Rimbaud e me faz esmorecer ante a empreitada de contar ao mundo o que estou a fazer em cada momento (ie, rigorosamente nada). Podia citar Debord em minha defesa, dizer que me recuso a engrossar a “representação ilusória do não vivido”, e assim, mas com cadastro no IRC & nisto dos blogues (como consumidora; a escrever mantenho uma frugalidade admirável), mais uma emailomania galopante, vir agora desdenhar do Twitter por essa razão seria como edulcorar o café depois de comer o bolo de chocolate – boa consciência sem resultados na linha. Mais j’y tiens, pas de Twittérre pour moi.
Pois agora a empresa que me emprega quer que eu, além da prospecção preliminar de informação que me mantém constantemente ocupada, crie uma conta no Twitter. Já se passou uma semana desde o anúncio do meu chefe, e eu consegui até agora, com o ardil e a má-fé dos procrastinadores, arranjar desculpas para não criar a tal conta que me permitiria seguir tudo o que a empresa que me emprega tem para anunciar ao mundo em 140 caracteres; mas sei que a minha sorte não vai durar sempre e que mais cedo ou mais tarde vou ser obrigada a piar.

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4 Responses to Tarde piaste

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