Some like it hot

Ricardo Rodrigues, o pilha-gravadores, voltou à Assembleia da República sob as palmas dos deputados do Partido Socialista, e o chefe do seu grupo parlamentar, Francisco Assis, justificou porquê: o autor do furto (ou terá sido roubo?, os penalistas que esclareçam) é, como se sabe, uma pessoa de grande “rigor” e, de resto, Assis entende que ” …ninguém pode ser avaliado por uma reacção quente num determinado momento“. A lógica impecável de Francisco Assis (o santo dos pobrezinhos, não o esqueçamos nunca) tem precedentes ilustres no direito português: no Código Penal de 1852, o marido que matasse “a quente” a mulher adúltera, ou o respectivo amante, ou ambos, preenchia o tipo do chamado “crime passional” e, em vez de temer a forca ou a prisão, estava prevista para ele a suave pena de desterro para fora da comarca pelo período de seis meses. Foi mais ou menos o que se passou com Ricardo Rodrigues, e é o que se pode passar com qualquer um de nós: eu, por exemplo, provocado pelas palavras de Francisco Assis, reajo “a quente” e digo que o homem é uma besta, e que aqueles que bateram palmas a Ricardo Rodrigues outras bestas são: pois ninguém me poderá levar a mal, lamento imenso mas foi a quente, e se não gostam mudem-me de comarca (ou então batam-me palmas).

(Publicado também no Albergue Espanhol)

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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