A crise é só para alguns


A conversa de que não há crise e que o aparelho produtivo da Europa está mais poderoso do que nunca é uma meia verdade. O “real” no sistema capitalista não é feito de aparelhos produtivos, nem de trabalhadores, nem de necessidades sociais. O “real” neste modo de produção são os mercados e esses vivem da especulação e da criação de expectativas. Conseguir um capitalismo sem especulação é tão possível como ver pássaros a voar sem asas. No caso português somos maximalistas, conseguimos o pleno da crise. Estamos mal, porque não temos modelo de desenvolvimento entre a mão de obra barata, à chinesa, e as empresas de grande intensidade de capital com mão de obra bem paga e formada, estamos em crise porque destruímos o nosso aparelho produtivo em troca de subsídios, sem o ter modernizado, estamos em crise porque gastamos mais do que produzimos, e estamos em crise porque as espectativas dos mercados sobre a nossa crise são elevadas.

Para minorar esta crise, de uma forma socialmente justa, era necessária uma outra política europeia que travasse a especulação financeira e privilegiasse os investimentos produtivos.

Para sair desta crise é necessário superar o capitalismo, pois a crise não passa de um instrumento fundamental para distribuir os lucros de uma forma favorável para os especuladores e aos operadores financeiros. A crise é cíclica e inerente ao desenvolvimento do capitalismo.

Em Portugal, há pouco campo de manobra. Mas há coisas que são elementares: em tempo de crise devem pagar todos e não só os do costume, os que trabalham.
Desse ponto de vista, a proposta do PS e PSD de cortarem 20 % ao subsídio de desemprego é um roubo. O subsídio de desemprego não é uma oferta, é dinheiro que os trabalhadores descontaram durante o tempo que trabalharam, para precaverem esse risco. Pegar nesse dinheiro, e tirar uma grande parte, quando não se tributa devidamente as mais valias da especulação e os lucros dos bancos, não é combater a crise. É voltar a distribuir, mais uma vez, o dinheiro da seguinte forma: os poderosos levam os lucros e quem trabalha paga a crise.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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