A visita de Bento XVI a Portugal (lida por Lénine)

 
Richard Dawkins em terras gregas, procurando compreender a diferença entre “logos” e “razão” (conseguirá?).

1.
Desde já, uma premissa, uma clara premissa, sublinho, anterior à formulação de toda e qualquer outra:

— Nunca por nunca, é uma impossibilidade absoluta em nome da minha higiene física e mental, nunca me sentaria a uma mesma mesa, cadeira, local, nunca partilharia uma trincheira, barricada, grupo de defesa de uma causa (eu teria sempre de ter outro grupo com outra gente), nunca me cruzarei numa rua ou manifestação com um Jugular-Jugulento. Porque considero essa coisa uma das metas da decadência e do despudor político e humano, do despudor acéfalo (viu-se ontem com as invocações desse blogue ao 25 de Abril!!). E, se o 25 de Abril pertence a “todos”, como alguém dizia (é verdade), esse é o momento da revolução que me interessa menos: O que me interessa mais é aquilo que se lhe segue, se seguiu, o PREC de 1975. Aí, sim, se trabalhava e lutava para uma real e profunda transformação social, esse foi o verdadeiro evento, e esse evento – FELIZMENTE! – não pertence a todos. Nenhum Jugulento-Jugulice o partilha ou partilhará (até porque o Jugular, na pessoa de uma das suas escribas, confunde ZECA AFONSO com CEREJEIRA!).

2.
Mas este meu texto tem uma outra finalidade, que é para mim da maior importância: a questão religiosa, e ainda as diatribes jugulistas contra a instituição católica, que eu explico do seguinte modo. Quando se abandona toda e qualquer ideia, projecto, vontade, trabalho de crítica social no seu todo tentando visar e derrubar a base económica do capitalismo, a forma mais obtusa, acéfala e inútil de continuar a ser “Esquerda” (o que os Jugulentos não querem deixar de ser e não sei porquê), a forma mais primária disto reside no ataque, crítica, crítica embrulhada em esperteza saloia, à religião, ou ao catolicismo, que é aquilo que está mais à mão. O deputado hipócrita-mor do partido do governo (um tal M. Vale de Almeida) sente-se bem na bancada que votou e produziu o Código de Trabalho, não sei se alguma vez esta personagem vociferou contra o PEC, o PEC da morte social e das privatizações, aceitando ainda os casamentos homossexuais  SEM ADOPÇÃO… Não sei, mas é mais fácil apresentar “trabalhinho” ironizando ou vociferando contra a igreja. É mais fácil e cobarde. É areia para os olhos dos outros, incautos.

3.
Sobre isto, escrevia Lénine, avisado contra esta gente: “A concepção científica do mundo temos de predicá-la sempre; a luta com a inconsequência de alguns cristãos é para nós uma necessidade, mas isto não significa em absoluto que se deva colocar a questão religiosa em primeiro lugar, lugar este que de modo algum lhe corresponde, que se deva permitir a dispersão das forças da verdadeira luta económica e política em aras de opiniões ou desvarios de terceira importância (…).
A burguesia reaccionária [o Jugular?? Sim] preocupou-se em todos os lados, e começa a fazê-lo agora no nosso país, com o acender o ódio religioso a fim de distrair a atenção das massas dos problemas económicos e políticos verdadeiramente importantes e cardeais, e estes são os que resolve na prática o proletariado de toda a Rússia ao unir-se na luta revolucionária. (…)
O proletariado há-de conseguir que a religião seja totalmente um assunto privado para o Estado. E neste regime político, liberto do mofo medieval, o proletariado empreenderá uma luta vasta, aberta, pela liquidação da escravidão económica”.
Lenine, lúcido, cirúrgico, em 1905.

Portanto, se o sr. Vale de Almeida vai trabalhar a 11 ou 13 de Maio, só por isso eu aceitarei a tolerância de ponto (e até é provável que aproveite para ir em trabalho, coisas das artes, ao Vaticano e Roma: Ratzinger cá, eu lá, e assim estará bem).

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