
Uma cunha vermelha num espaço negro, Lissitsky
Diz a lenda que Arquimedes garantiu que se lhe dessem uma alavanca e um ponto de apoio ele deslocaria a terra. Muitos anos depois, sob os risos dos deputados da maioria governamental russa, Lenine respondeu ao repto de um orador que garantia que nenhum partido tinha a capacidade de mandar na Rússia, dizendo que os bolcheviques tinham o desejo e a vontade de querer o poder. Os dez dias que abalaram o mundo provaram que os galhofeiros se tinham enganado. Pela primeira vez na história do planeta, um partido que se reivindicava dos explorados da história assaltava um Palácio do Inverno. O resto é história. E a violência é parteira da história. A guerra civil e a invasão de cinco exércitos estrangeiros cercaram a revolução. A violência branca exigia uma violência revolucionária, sem hesitações. A revolução sobreviveu ao banho de sangue, mas o sangue não deixou a revolução. ‘Escorre o sangue nas vértebras de duas épocas’, escreveu Ossip Mandelstam.
Todos os dias, milhões sofrem e morrem neste mundo em que manda o capitalismo. A violência de todos os dias passa, como se fosse algo de normal. Todos os mortos são iguais, mas há alguns que são mais iguais do que os outros. Há uma esquerda envergonhada que disse apressadamente o adeus a Lenine. Talvez não seja tarde para lhes lembrar que embora possam estar a cantar o hare krishna no centro comercial, o mundo continua a ser um lugar de violência e exploração. E, sobretudo, que mais vale uma violência que nos liberta do que uma que nos prende nas engrenagens da violência normal de todos os dias. Como dizia Brecht, ‘pior do que assaltar um banco é fundar um”.
O valor de Lenine reside nessa urgência do momento, nesta capacidade de esboçar o gesto da transformação. Neste discurso da vontade que acredita que o mundo e a vida pode ser mudada. E que não se contenta com a impotência do que há.
O homem que defendia que não há liberdade com Estado nem Estado com Liberdade, o militante que escrevia que o objectivo de um revolucionário é que o Estado fosse extinto e as suas funções fossem democratizadas de tal forma que uma simples empregada doméstica poderia dirigir o país, nasceu há 140 anos.




Pingback: Tweets that mention cinco dias » O homem do gesto -- Topsy.com
É bonito ler isto num dia em que um documentário televisivo mostra (não revela, aponta factos conhecidos mas esquecidos) que antes de Hitler mandar matar 6 milhões já Estaline, como suspeitava e denunciou Trotsky ao ponto de pagar por isso, matara 10 milhões à fome na Ucrânia, tirando as colheitas aos agricultores e proibindo-os de irem à cidade pedi-los. Fora o resto.
Num dia, e num documentário, aliás, em que a repisar a invasão da Polónia pela Alemanha a 1/9/1939, se evocou que não tardou que “pelo outro lado” a URSS abocanhasse a sua parte da Polónia e os Estados Bálticos pelo acordo Molotov-Ribbentrop. E que não tardariam 2 meses até a Finlândia ser atacada pelos soviéticos.
Mas é sempre bonito considerar-se que uma empregada doméstica podia governar o país. Não chegaram a isso, mandaram uma operária para o espaço…
Para evocar, ainda, que a prática política de Hitler, no preconceito racial, foi inspirada na de Lenine, sob o pretexto da luta de classes em que, fatalmente, pelo menos uma teria de ser eliminada.
Num caso é fascismo, noutro socialismo.
A vantagem é que conhecemos ambos e deles nos fartamos.
Há ainda, porém, gente que acha importante invocar o Lenine, inspirado em Marx e Engels que protagonizaram os primeiros pedidosd de profilaxia social com a inerente violência e morte aos próprios concidadãos.
Coisas da História, portanto.
Caro NR de Almeida: Lénine foi um revolucionário excepcional como o foram Trotsky, Ivan Smirnov, um pouco Zinoviev e Boukharine. Assim como jamais poderemos esquecer a tríade exemplar: Makhno, Voline e Archinov. D´ac? Niet
De acordo, Niet.
Bom gesto ao homem. Aqui deixo outros dois tributos: http://www.youtube.com/watch?v=sLt5-_vM2ls&feature=related
e um mais animado:
Aqui um ainda melhor: http://www.youtube.com/watch?v=MfuzTJPH3VI&feature=related
Caro C. Vidal: Registo o seu acordo histórico com a ” minha ” selecção. Ainda não surgiu à face da terra uma plêiade tão vasta, tão corajosa, tão culta de transformadores do Mundo. Guten Tag. Niet
Boa Nuno!
Entre o desconhecimento e a imaginação, entre o conhecimento e a realidade, a história é uma ciência tão manipulável como as claras do ovo.
Acrescentar mortos e matanças a cada vez mais antigos anos, fará algumas almas conseguirem provar reviravoltas anteriores ao tempo de Galileu… e no entanto ela move-se.
Vladimir Ilich Ulianov, seu pensamento, sua memória, suas experiências, erros e vitórias são património da humanidade e marcam a maior viragem na história social da nossa curta passagem pelo universo.
Esta dimensão mantém-no actual e profundamente capaz de inspirar a luta por um mundo mais junto, sem guerra e sem exploração.
Além disto tudo, 22 de Abril é também o aniversário da minha irmã.
Duas mulheres de armas- Esqueci-me de sinalizar o papel das mulheres na vida e militância da ” geração” Lénine, se assim lhe podemos chamar, já que a diferença de idades era apreciável. Relevante o papel assumido pela sua esposa, com quem casou em 1898, tinha ela 20 aninhos, Nadiejda Kroupskaia, e o de Alexandra Kollontai,entre outras. Niet
O zé luis é sempre a aviar com os dados da propaganda churchiliana.Duma assentada mata 10 milhões(holodomor) na Periferia,coisa que não é verdade de acordo com os censos de tal região.Só falta os 20, ou 30 ou 100 milhões de vidas abatidas pelo judeu da Geórgia.Francamente,como as balelas do ‘vem aí os comunas e vão comer as criancinhas’ vêm com ‘provas’ da carochinha.Basta! de propaganda barata e mentirosa.Todos os anos morre gente de fome e,não é em Cuba….é no paraíso do capitalismo.E,se para acabar com esta moléstia, for preciso morrer gente,que morra!A puta que te pariu!
O palhaço do 2º comentário,’esquece-se q Hitler foi/são os representantes das classes parasitas.A busca de mercados,o seu leitmotiv e a estupidez,cupidez,xicoespertice plasmada em mentirolas do mais reles
Caro Nuno Ramos de Almeida
Parabéns pelo seu post! Seguramente um dos melhores que li por estas bandas. Está lá tudo!
Zé Luís,
Acho que já ninguém defende (com a provável excepção do Robert Conquest) que a Holodomor tenha sido propositada e premeditada. Terá sido fruto de um acumular de erros criminosos, mas não de um planeamento sistemático.
Comemorando o 140º aniversário, aprender, aprender sempre!
http://www.pelosocialismo.net/
Comentário completamente marginal ao post, projectos para entre hoje e amanhã…
1. Rever isto e também isto aqui .
(Chi non a vissuto negli anni prima della Rivoluzione non puó capire che cosa sia la dolcezza di vivere.)
2. Continuar a arrepender-me de ter escolhido não comprar uma pequena tela do deste senhor para poder ter mais uns diitas a continuar a ‘flanar’ por ali…
Tanto o comunismo como o nacional socialismo são filosofias colectivistas, têm mais pontos que os aproximam, do que pontos que os separam. Só uma filosofia colectivista é que consegue encontrar facilmente justificação para matar milhões de indivíduos. O fenómeno da eugenia, também encontra facilmente maior defesa numa filosofia colectivista, visto que a sua prática é no sentido, precisamente, do “bem comum”. De apurar a espécie, e consequentemente, a sociedade.
luis teixeira,
“Todos os anos morre gente de fome e,não é em Cuba….é no paraíso do capitalismo.”
Já que fala em provas, seria interessante que as produzisse para consubstanciar esta fantástica afirmação. E de caminho, tente também oferecer uma explicação sobre porque é que nos seus dilectos regimes (Cuba, URSS, Coreia, etc) é proibido sair do país e, ainda assim, haja pessoas que arrisquem a sua vida fugindo desesperadamente do país. Calculo que os fugitivos queiram ir passar fome para o tal inferno do capitalismo. São estúpidos, não são?
Já o Luís é muito mais inteligente e iluminado e sabe que eles estariam muito melhor se continuassem escravizadamente quietos onde estavam, a produzir para alimentar o Fidel Castro e todos os outros cubanos, e a receber apenas o que o Fidel se dignasse dar-lhes. Afinal, assim não se arriscavam a ser comidos por um tubarão no mar das Caraíbas. Que burros!
E,se para acabar com esta moléstia, for preciso morrer gente,que morra!
Obrigado! O Luís e a sua atitude são o melhor argumento de todos contra os sistemas colectivistas como o comunismo e o fascismo, de cujos proponentes é um preclaro exemplo. Passando ao lado da inexistência da moléstia que aponta (já viu de facto pessoas a morrer à fome num país ocidental?), o Luís argumenta que umas quantas mortes permitem resolver o imaginado (por si) problema da fome emaciada em Portugal. Imagino que seria o Luís ou um dos seus capangas do Partido a decidir quem morre.
Não compreende que o que propõe (se é que uma execução chega a ser uma proposição) em nada difere do que Hitler, Estaline, Mao Zedong ou Pol Pot fizeram. Felizmente, essa tenebrosa mundividência do Luis serve apenas como exemplo de quão histericamente aluada é a vossa maneira de pensar. Podia ser trágico se alguém vos ouvisse, mas é apenas cómico.
A puta que te pariu!
Gostaria de tornar minhas as suas palavras, mas não o farei. Reitero que a sua precipitação, irreflexão e histeria mal-educada são o melhor argumento possível para nos afastarmos com empenho de todos aqueles que falam no bem comum. Incluindo de si.
Um minímo de violência organizada para rebentar com a violência instituída enquanto ordem natural das coisas.Sim!
“A violência só pode ser ocultada por uma mentira, e a mentira só pode ser mantida com violência. Qualquer homem que tenha proclamado uma vez a violência como o seu método é inevitavelmente forçado a tomar a mentira como o seu princípio.”
“O Homem declarou o objectivo de conquistar o mundo mas ao fazê-lo perde a sua alma.”
“Pressa e superficialidade são as doenças psíquicas do século XX.”
“Para nós na Rússia, o comunismo é um cão morto, enquanto que para muitas pessoas no Ocidente ainda é um leão vivo.”
A.Soljenitsine
João Paulo Magalhães,
O “nós” é umas abstração muito generalista. Depois do fim da URSS, os comunistas já tiveram votações perto dos 40 % nas presidênciais, sem acesso à comunicação social, nem apoios do Estado. Estas citações estão ao nível de outras citações do escritor, como o elogio ao Pinochet. Se tem nele o alfa e omega do conhecimento, pode-lhe também citar o desprezo pela democracia e a defesa da Igreja Ortodoxa e da monarquia absoluta.
Caríssimo Iskra!
“Um mínimo de violência organizada para rebentar com a violência instituída enquanto ordem natural das coisas.Sim!” Perfeito!!
Adorei essa do mínimo da violência organizada, ainda me estou a rir.
Depois quero fazer parte do petit comité que vai decidir (democráticamente… ROFLMAO !) do tal “mínimo” (ah e também da quantidade de “organização”, e oh Iskra , já sabe, se sobrarem uns baldes de água e acabarem na direcção genérica de onde está são aazres da vida, depois a gente arranja-lhe uma lápide toda compostinha…
“Depois do fim da URSS, os comunistas já tiveram votações perto dos 40 % nas presidênciais, sem acesso à comunicação social, nem apoios do Estado.”
Seguramente que são os 40% que eram recebedores líquidos até à queda do regime. Claro que querem continuar a mamar o trabalho dos outros – alguma outra coisa seria de esperar? Calculo que aos restantes não lhes agrade muito essa ideia.
E além disso, a autodestruição – a implosão – gerada inevitável e inexoravelmente pelo comunismo leva a que, por entre os escombros, a memória do edifício antigo seja apetecível. Mas o facto é que o tal edifício vinha de antes do comunismo, e foi precisamente este o culpado pela sua derrocada.
Quanto ao seu comentário às citações:
Em vez de atacar as citações apresentadas, opta por atacar o seu emitente, apontando aquilo que, a seu ver, são defeitos do Soljenitsine. Esse é um caso primário de argumentação ad hominem; não rebate nem argumenta nada sobre o que está a a ser discutido, mas apenas produz dados que supostamente invalidam qualquer argumento feito pelo emitente. Está enganado – não invalidam.
Mas mesmo assim, vejamos os dados que produz:
-”Elogio ao Pinochet”: independentemente das suas acções, que reprovo, em 10 anos o Chile tornou-se numa democracia, e hoje é o país com mais bem estar na América Latina; bem pior foi o seu Ulianov ou o seu Jughashvili. E é evidente que a única razão pela qual apareceu o Pinochet foi pelo desequilíbrio causado pelo Allende – os desequilíbrios da governação tendem a ser pendulares.
-”Desprezo pela democracia” – creio que está a gozar; onde é que já houve eleições num país comunista? E a tomada do poder pelos bolcheviques foi tudo menos democrática! Novamente, muito piores são os seus alfas e ómegas. E é também evidente que se há alguém que possui desprezo pela democracia são os líderes comunistas – todos. Consegue dizer que a Coreia do Norte é uma democracia? Cuba? URSS?
-”Defesa da Igreja Ortodoxa” – sempre há de me dizer qual é o problema. A fé de cada um é um assunto que apenas diz respeito a ele próprio. Ou o Nuno entende que não?
-”Monarquia absoluta” – totalmente falso; Soljenitsine defendia uma monarquia constitucional e não uma monarquia absoluta. Face ao regime em que ele viveu, também eu – na verdade, todos menos quem professa as vossas preferências – tenho essa preferência.
Lá se foi o ataque ad hominem. Agora, pode atacar os argumentos apresentados numa discussão séria.
João Paulo Magalhães,
Quem usa citações como argumento de autoridade é você. As citações medem-se pelos factos e pelas pessoas que são citadas.
O facto que o comunismo acabou é falso. Nem na Rússia isso acontece. As suas interpretações sobre essas votações estão no nível intelectual dos seus comentários. Um chorrilho de insultos, mas sem nada de conteúdo.
A segunda questão, é quem você cita. Um tipo que elogia o Pinochet, como você faz, é um facho ou um cretino. Não estou para discutir com nenhum dos dois. Aquilo que se podia perdoar ao escritor, devido a sua vida e obra, não é aturável a um tipo qualquer. Pinochet derrubou um governo livremente eleito. Os desiquilibrios de Allende, como você diz, foram sufragados pela população. Os assassinatos de Pinochet que você defende, como terapia, não.
Finalmente, na Rússia a monarquia foi sempre absoluta, mesmo quando coexistia com a Duma, dizer que quem defende o regresso à monarquia russa, defende um regime constitucional, é confundir o Reino Unido com os Romanof. Podem ser parentes e começarem com a mesma letra, mas não são os mesmos.
Não pretendo responder-lhe mais. E apagarei todos os comentários que não forem num tom de discussão.
Caríssimo antónio!
O que o Iskra disse é uma tirada sintética da evidencia curricular da legitimação do aparelho coercivo estadual que poderá ser lida em qualquer manual de Direito.
Meu caro Justiniano , eu suspeitava que havia razões profundas para ter evitado sequer chegar-me perto dessa fac. (excepto no tempo dos gorilas, mas isso é outro ‘Discovery’ ou outros ‘quinhentos’, se preferir.) (
O mais perto que estive de lá foi do outro lado do largo, em D. até a cantina/bar/whatever era uma m#$%a a evitar cuidadosamente..
Obrigadíssimo por me ter confirmado as suspeições…
em exclusivo para os mais ‘idiotas’, é claro que estou a brincar… tinha um montão de amigos por ali, eu sou + ou – do tempo em que o Lobo e o Guerra eram os gajús da AEFDL, e também do tempo em que o Zé G. de O. era, por assim dixer, ‘o seu próprio piquete de greve’.
Ora, caro antónio, bem o compreendo. Realmente, essa fábrica tresanda a zurrapa e o que por lá se produz sai mesma a martelo!! E é que nem as aperaltadas lhes valem!
Casa desgraçada!
Um bem haja para si,
Nuno,
“As citações medem-se pelos factos e pelas pessoas que são citadas.”
As citações medem-se pela sua correcção.
“Um tipo que elogia o Pinochet, como você faz” / “Os assassinatos de Pinochet que você defende, como terapia”
Totalmente falso – sugiro que leia com mais atenção. Claro que gostava que eu tivesse dito tal coisa. Mas não disse – porque não penso tal coisa.
“Pinochet derrubou um governo livremente eleito.”
Pois foi. E não foi isso que fez Lenine? Em Outubro de 1917, fez-se a “Eleição Russa” ou a “Revolução Russa”? E quanto aos assassinatos, não foi por ordem de Lenine que se instituiu o Terror Vermelho? Em que é que Lenine difere do Pinochet?
Em número de mortes que ordenaram difere de certeza. Nesse concurso macabro, Lenine enfia Pinochet num chinelo. O que não quer dizer que Pinochet seja bom rapaz. Quer dizer que o Lenine é muito pior que o Pinochet. E este é muito -mas mesmo muito- mau.
“E a violência é parteira da história”
“E, sobretudo, que mais vale uma violência que nos liberta do que uma que nos prende nas engrenagens da violência normal de todos os dias.”
E se fosse o Pinochet a dizer isto? Em que é que diferia do que o Nuno diz?
Se consegue dizer o que disse de Pinochet, porque não o diz também de Lenine? Ou o Nuno achará que a violência só vale porque concorda com o seu fito? Chama a isto ser democrata?