Fabricamos todas as paisagens

Augusto Alves da Silva, da série Iberia, 2009

A minha descoberta da “ilusão da Lua” deslumbrou-me. Afinal, o satélite inchado que quase todos admiramos quando o surpreendemos a vogar rente ao horizonte é uma aldrabice da nossa percepção, dos nossos processos cognitivos. E escrevo “quase todos”, pois cerca de 5% dos terrestres são prosaicos qb para olharem para as paisagens selenitas com olhos mais precisos, imunes a ilusões.
Agora, ao ler a fumegante tirada do Carlos sobre «a verdadeira “paisagem”, entidade cultural e criada» volta-me o tema das Luas inflacionadas à ideia. Mas não criamos todos as nossas paisagens? Primeiro, nas retinas e demais miudezas cerebrais, sempre sujeitas a fenómenos prosaicos mas decisivos: das corriqueiras miopias ao bestiário de aflições que até poderão ter moldado muitas visões célebres. Depois, no uso que as nossas memórias e inclinações lhes dão; veria eu o mesmo gelo se olhasse para o mar polar de Friedrich, ou reconheceria sequer as praças de Itália que assombraram De Chirico? Não me parece. Se nem a perspectiva despida de artifícios da foto acima me surge como isenta de subjectividade, apesar da sua gritante busca de um ponto de vista neutro…
Por fim, há que contar com os artefactos culturais que servem de lentes a tudo o que vemos: um astrofísico terá por cima o mesmo céu estrelado que os leigos? Duvido. A cada um corresponde o achado de uma das tais belezas particulares. Há quem tenha o dom de colocar em circulação no mundo a sua variedade; mas tal não condena à inexistência as demais.
Enfim. Conhecer «na realidade» é uma expressão reveladora: ela não é sinónimo, em absoluto, de «profundamente», mas sim de uma proximidade total ao mundo, à essência das coisas, que é apenas inumana. Nem Poussin nem Feynman lá chegaram. Se calhar, ainda bem.

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9 Responses to Fabricamos todas as paisagens

  1. Carlos Vidal says:

    Claro, não estamos a escrever nada diferente um do outro.
    E o Augusto é um dos artistas mais precupados com o problema: como diria Godard, também para o Augusto uma diferente inclinação da câmara é uma questão cultural.

  2. ezequiel says:

    Só falta dizer que o céu é uma criação cultural. Este é assunto que dava pano para mangas. (realismo científico versus hermenêutica etc etc) A percepção é APENAS moldada pela cultura?? (não esquecer Husserl) Um inequívoco NÃO como resposta, certamente.

    A ciência, a filosofia, cultura etc são apenas ramos distintos de uma mesma árvore.

    Há espaço para todos no “céu.” LOL

    abraço

  3. Carlos Vidal says:

    Não ezequiel, claro que a percepção não é APENAS moldada pela cultura.
    Mas cada tempo cultural, ou melhor, cada época histórica (Idade Média, Renascimento, Iluminismo….) tem o seu específico regime de ocularidade. Quer dizer, uma época define-se politicamente, filosoficamente, sociologicamente… e também pelo lugar que confere ao sentido da visão.
    Ou seja, uma época, é o que é, por razões filosóficas e políticas, mas também pelo regime ocular que elege.
    O Debord dizia que toda a civilização ocidental assentava na categoria do Ver, seria, nesse particular, uma “civilização ocular”.
    De Platão a Derrida, os regimes oculares não pararam de mudar.
    (Um bom livro, talvez o melhor sobre isto: de Martin Jay, “Downcast Eyes”, California Univ. Press.)

  4. ezequiel says:

    Prof Vidal,

    Seria absurdo pensar nos átomos e quarks (?) como uma fantástica instalação (artística)??? O universo do físico é destituído de beleza?

    Vamos lá, sr prof. N me presumo capaz de discutir sobre arte consigo mas este é assunto verdadeiramente interessante (que se faz sentir na filosofia contemporânea, particularmente na estúpida e insensata separação da filosofia analítica e filosofia continental)

    abraços,
    zeke

  5. ezequiel says:

    concordo consigo, até certo ponto.

    os regimes de savoir-pouvoir e de ocularidade (sim, desde platão) não são delimitações intransponíveis nem contemplam toda a potencialidade (interpretativa) da experiência “céu” etc. Sim, são regimes, mas todos os regimes mudam e seria insensato presumir que somos nós e apenas nós que os mudamos (regimes)…

    todos os regimes confrontam-se com a eterna questão da potencialidade. a potencialidade surge sob a forma de interrogações, perplexidade…o outro infinito!! a fronteira estabelecida pelo “regime” age como delimitação e como demonstração de um além…possibilidade, potencialidade…

    abr
    z

  6. ezequiel says:

    Sr prof,

    como sabe, sou um leigo em história de arte. gostaria de perguntar-lhe o seguinte: o que pensa o sr de Warburg??? ele parece ter questionado a noção de época quando descobriu leitmotifs primordiais que percorrem, qual força subterrânea, todas as épocas culturais?? bem sei que foi influenciado por Cassirer (ou seja, por Kant)

    já devem estar na caminha.

    boas noites,

    amanhã venho cá.

    abr
    z

  7. ezequiel says:

    n expliquei mt bem o que queria dizer.

    era apenas isto:

    não me parece sensato dizer que somos nós que construímos ou fabricamos tudo o que não é contemplado por um certo regime cultural etc. o “au-delà” (potencialidade) não é apenas nosso (julgo que o indecidible de Derrida ou até de Badiou é relevante aqui) . se afirmássemos que é então sucumbiríamos à tentação da omnipotência divida (transposta para o eu da modernidade) tudo estaria sob o controle omnipotente da vontade humana. levar-nos-ia a pensar que fabricamos tudo. (a ilusão evanescente da modernidade, do eu e da subjectividade do eu como potentia criativa infinita)

    n sei se estou a expressar-me mt bem. já n penso sobre isto há algum tempo. saudades de filosofia!! sabe, sr prof, tive uma amiga que falava durante horas sobre estes temas. adorava ouvi-la. os meus interesses eram e são outros. mas ela deixou em mim o interesse (infantil) por estes assuntos. espero n parecer petulante. saudades dela, thats all. gone forever. :(

    boa noite
    z

  8. Carlos Vidal says:

    Zeke, ezequiel, excelente exemplo, para uma conversa interessantíssima em torno do que chamo os regimes de ocularidade: Warburg, que privilegiava a recolecção à representação, supondo-se daí, ou podendo-se supor que nessa recolecção, ou dessa recolecção, à maneira de Alois Riegl, se privilegiavam certas invariantes formais, ultrapassando a estratificação em épocas dos regimes de ocularidade.

    Como se a fronteira entre eles não fosse assim tão estanque como parece, ou como o recomendadíssimo Martin Jay (“Downcast Eyes”) faz supor.
    Mas, no fundo, acho que nem Warburg, nem Riegl, invalidam a tese dos regimes diferenciados de ocularidade (Idade Média, Iluminismo, etc.).
    Como psico-historiador, Warburg pretendia ver nas obras de arte mais do que “obras de arte” / “coisas formais”, pretendia averiguar, nas formas artísticas, as formas de funcionamento da memória, pretendia, nas formas, descobrir as origens da expressão verbal ou visual/pictórica. É um projecto sempre inacabado, e não sei se colide com o de Martin Jay.
    Em Warburg, a sequência linear não tem interesse, num meu Atlas (Mnemosine) eu posso encontrar situações semelhantes, formais por exemplo, em períodos ou séculos diferentes – especulando, isso pode querer dizer que há similitudes entre várias épocas e respectivos regimes de ocularidade: por exemplo, entre o românico (estilo arquitectónico que rejeitava a luz, abundante no gótico posterior) e o monocromo do século XX (porque não?). Concluo daí que ambos os exemplos revelam aquilo que Jay chama “suspeição ocular”, mas são na mesma regimes de ocularidade característicos de suas épocas (uma e outra época caracatrizam-se, assim, por tipos quase semelhantes de supeição ocular).
    Já o sistema de Riegl parece colidir com o de Jay, pois Jay fala de épocas diferentes correspondentes a regimes de ocularidade diferentes e Riegl fala-nos de invariantes formais, porque a “produção da (mesma) forma” é uma constante histórica, há em todas as épocas uma mesma “kunstwollen”.
    Mas uma coisa é a “forma”, outra o “regime de ocularidade”, quer dizer, a persistência de uma mesma forma pode situar-se em regimes de ocularidade diferentes.

  9. ezequiel says:

    interessante.

    faz todo o sentido. os kantianos e cassirerianos (e, suponho eu, os warburgianos, embora n conheça bem o pensamento de warburg) procuram encontrar o universalismo na persistência histórica da forma ou, melhor dizendo, das formas. Gadamer, referindo-se ao pensamento de Kant, escreveu o seguinte (parafraseando, n tenho o livro comigo agora): trata-se de uma formalismo “sem sangue nas veias”. (sem sangue = sem vivência histórica) . esta questão interessa-me sobretudo pelas suas implicações para a filosofia política: poderá uma forma ahistórica (aparentemente impermeável às mutações de regimes de verdade e de percepção etc, dado que parece persistir em todas as épocas) servir de base a um projecto político?? todavia, parece-me precipitado confundir a persistência da forma estrutural com ahistoricidade. este é o argumento proposto por muitos kantianos contemporâneos nas suas tentativas (desesperadas) de evitar o relativismo-pluralismo actual. pretendem fixar o universal.

    proponho que o vidal escreve um postezinho a explicar o seu conceito de “regime de ocularidade.” parece-me, todavia, que seria mais sensato falar de regimes de significados que são atribuídos à ocularidade.

    o conceito de enframing de heidegger tb me parece relevante. foi aplicado recentemente num trabalho de nancy fraser sobre política internacional. muito interessante.

    obrigado pela sua resposta.

    cumps
    ezequiel

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