REPUGNANTE


GABRIEL OROZCO

Não, não me refiro à obra do Gabriel Orozco, que muito, mas mesmo muito, admiro. Contextualizo-o, quanto a intenções e propósitos, junto a artistas como Santiago Sierra ou Francis Alÿs, de que aqui e aqui já falei detalhadamente. Repugnante é, em primeiro lugar, o PEC, por razões já aqui e aqui descritas. Lixo puro.

Mas, mais repugnante ainda é o “estilo” das casas de J Sócrates e a sua carta ao “Público” de ontem.

Que o indivíduo em causa não tenha consciência da gangrena estética (??) que gerou e/ou gera (os edifícios ainda lá estão), é uma coisa, que escreva isto é outra coisa: “Reitero o convite que fiz há dois anos ao ‘Público’: este é talvez o momento para revisitarem as décadas de 70 e 60, período da minha juventude, onde não deixarão de encontrar uma qualquer história que, à luz dos vossos exigentíssimos critérios, vos permita continuar a fazer manchetes como a de hoje [dia 5 de Abril, creio], que só confirma a opção do ‘Público’ por uma linha editorial que desistiu da ambição de um jornalismo de referência”.

Lê-se e não se acredita. No recente e famoso documentário da BBC sobre Berlusconi, percebe-se porque é que televisões e jornais de todo o mundo, ainda quase metade da população italiana, exigem que se investigue o passado do primeiro-ministro (deles, italianos) o mais possível, que se recue o mais possível para se perceber quem é o sujeito que no presente tem a função de governar, como lá chegou (eleitoralmente, sim, mas não apenas), como se tornou político, para quê, etc.

Mas J Sócrates não é Berlusconi, como já aqui escrevi. Berlusconi vive de uma fracção de uma Itália espalhafatosa (por assim dizer), que tudo parece aceitar em nome de um folclore bizarro, sobretudo desde que seja bizarro.

J Sócrates nada tem a ver com isto, nem com nenhuma dimensão ou característica nacional: não é a sua ascensão, mas antes a sua subsistência e persistência política que se alimenta de uma certa “portugalidade”: a “portugalidade” medíocre e descriterizada, passiva, de braços cruzados, que se entrecruza com a do “desenrascanço” supostamente “esperto”.

Sócrates não é Berlusconi, este é uma personagem de uma estranha teatralidade, Sócrates vive e sobrevive precisamente de não ser personagem nem protagonista (representa apenas o espírito do seu partido, nada mais). Isto para dizer que sim, evidentemente, é preciso e imperioso recuar aos anos 60, 70 e 80, é preciso tentar perceber o que se passa. Os socratistas (como uma decoradora de interiores de nome “Anã” Vidigal que num blogue ao lado faz gracinhas destas) gozam com isto tudo. É pois preciso recuar, procurar o essencial, para que não gozem mais.

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