leituras divertidas sobre claques…

Sobre claques e outras coisas do género…

Inversamente, quando bandos de desordeiros, na sua esmagadora maioria ignorantes e mal-educados – senão mesmo mentecaptos – estimulados pelas actividades de empresas a que, apenas por um mero efeito de hysteresis ainda chamamos “clubes desportivos”, se arrogam o direito de fazer da agressão generalizada e da violência a marca da sua reles submissão a ideais de estupidez agonística exacerbada, então, também a democracia fica comprometida, pela perda de direitos de cidadania provocada pela acção desta escumalha. Nesses casos, então, eu pugno por penas de prisão efectiva, mas que sejam verdadeiramente severas. Para estes “adeptos” (a expressão correcta é “ineptos”) a marca distintiva da pena seria, sempre em regime de reclusão, o trabalho compulsivo em prol da comunidade. O que não faltam aí são bibliotecas com livros a precisar de encadernação e formadores a precisar de trabalho.
Francisco Oneto no Ladrões de Bicicletas

O que aqui está em causa não é o hooliganismo da claque do FCP, ou a violência das claques de futebol (que não é exactamente a mesma coisa que hooliganismo, convém ler mais sobre o assunto e o que não falta aí são bibliotecas com livros a precisar de ser lidos). Nem sequer estão em causa os estádios do Euro ou a futebolização do quotidiano. Ou melhor, está tudo isso, mas em relação a tudo isso, em última instância, e não fosse o estilo arruaceiro, eu estaria mais ou menos de acordo com Oneto; o que está em causa é o tom que resulta da insuportável frustração de um intelectual que vê as massas mijarem fora do penico cultural que ele idealizou. Oneto pode estar a falar contra o que julga ser hooliganismo, mas fá-lo num estilo intelectualmente hooliganesco. Quem escreve é um hooligan, que não se importa em propagar tiradas de um infinito elitismo, como esta, em que tudo se confunde, o dono do clube, o hooligan, o adepto, o gato da vizinha, tudo e todos, até às pobres criancinhas e ao seu défice de socialização democrática: “À legião de psicopatas e de inúteis que medram neste meio – que vale o que vale não por ser desporto, mas por ser negócio – tivemos de pagar dos nossos impostos os faustosos estádios, temos de os aturar em intermináveis demonstrações de cretinismo e abjecta verborreia à abertura dos telejornais, temos de os ouvir a toda a hora nos cafés, nas escolas e nos locais de trabalho, e ainda querem que toleremos como natural a existência de claques que, recorrentemente, se comportam como grupos terroristas, a arruaça, a destruição de bens públicos, a agressão, o fecho de auto-estradas e – pior do que tudo – o espectáculo execrável dado à já de si deficiente socialização democrática das crianças e dos jovens?”.
Zé Neves no Vias de Facto

Aceito que, logo à partida, a antipatia nutrida pelo desporto pode inquinar a discussão e amplificar sentimentos de indignação. Ainda assim, compreendendo os dois pontos de vista e, acima de tudo, chamando a atenção para os perigos de qualquer um dos dois (por um lado de desumanizar e, portanto, não compreender os comportamentos desta gente e, por outro, de relativizar e, portanto, desculpar os comportamentos desta gente). É claro que, nem Francisco Oneto admitiria que não os considera humanos nem Zé Neves admitiria que desculpabiliza os comportamentos mas serão essas as consequências se levarmos tudo a eito chamando selvagem a tudo o que mexe ou se equipararmos o post de Oneto aos comportamentos das claques.
Diogo Augusto no Minoria Relativa

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