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Sic transit

21 de Março de 2010 por António Figueira

Ouvi na TSF uma publicidade a umas edições especiais do 24 Horas sobre a próxima visita do Papa que dizia mais ou menos assim: saiba tudo sobre Bento XVI, os segredos de Fátima e as relações dos famosos com a Igreja Católica (cito de memória, mas a referência aos famosos é exacta, uma coisa destas não se esquece com facilidade). Ora a propósito de uma coisa destas, pode dizer-se muita coisa: verberar o seu espantoso mau gosto, bradar aos céus, gritar ultraje!, chorar, gargalhar, etc. Sucede que eu sou um tipo calmo (tipo Izmailov), que é tarde e eu jantei bem; em vez de tudo isso, contento-me em pensar que, no menos de meio século que a minha vida até agora durou, vivi – viveram todos os portugueses meus contemporâneos – a maior revolução de costumes de que o país deve ter vivido na sua história, e que este anunciozinho anódino – o Miguel Vale de Almeida que me perdoe – prova melhor que a legalização do casamento gay. Quando eu era pequeno, lembro-me de que uma amiga da minha irmã mais velha, que andava no Maria Amália, foi chamada uma vez à Reitora por ter dito que “amava” o Jacques Dutronc: explicou-lhe a dita Senhora que “amar”, só se amava Deus; imagino sem dificuldade que a herdeira funcional dessa magnífica Reitora possa hoje, apenas uma geração volvida, ser uma consumidora de revistas cor-de-rosa e discutir com as meninas e os meninos “as relações dos famosos com a Igreja Católica”.

(Publicado também no Albergue Espanhol)

Comentários

Comentário de Carlos Fernandes
Data: 21 de Março de 2010, 2:19

Eppur si muove, meu caro, a Igreja é milenar, e não é o escandalo de algumas ovelhas negras pedófilas e ranhosas que vai alterar a história, até porque nenhuma organização deixa de ter no seu seio ovelhas ranhosas, e estou à vontade para dizer isto, já fui ateu e até bastante anticlerical.

Comentário de is a bel
Data: 24 de Março de 2010, 15:59

a amiga da sua irmã deve ter dito que “adorava” e não que “amava”. Este pequeno pormenor faz toda a diferença, meu caro A. Se foi como V contou, imagino sem dificuldade, a ‘magnífica Reitora’ a escrever no 24 Horas sobre ‘as relações dos famosos com a Igreja Católica’.

Pingback de cinco dias » O 5dias feito pelos seus leitores
Data: 25 de Março de 2010, 0:20

[...] de Carvalho por ter ousado proclamar o seu “amor” por Jacques Dutronc; pois eu errei, conforme a leitora IZ muito bem intuiu, até porque – acrescenta a mesma leitora, demonstrando um conhecimento da história da [...]

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