A humilhação de todos os dias
20 de Março de 2010 por Nuno Ramos de AlmeidaA morte do MC Snake não é caso único. A cidade não é igual para todos. Há zonas e gente que têm direitos de cidadania. Há zonas em que reina uma espécie de Estado de Excepção. Os habitantes dessa parte da cidade, pobres e muitas vezes negros, não têm os mesmos direitos. São uma espécie de pessoas que, como descrevia Agamben, têm “vidas que não merecem ser vividas”, podem ser reprimidas com muita liberdade.
Sobre o assunto, ler este texto de Alain Badiou, publicado há uns anos no Le Monde:
“Tenho um filho adoptivo de 16 anos que é negro. Chamemo-lo Gerard. Ele não está incluído nas “explicações” sociológicas e miserabilistas habituais. A sua história passa-se simplesmente em Paris.
Entre 31 de Março de 2005 (Gerard ainda não tinha 15 anos) e hoje, não consigo contar as vezes que foi controlado na rua. Inumeráveis, não há outra palavra. As detenções: seis! Em dezoito meses… Eu chamo “detenções” quando o levam algemado à esquadra de polícia, quando o insultam, quando o amarram a um banco, quando fica assim durante horas, algumas vezes detido um ou dois dias. Para nada.
O pior de uma perseguição está muitas vezes nos pormenores. Conto por isso, um pouco minuciosamente, a sua última detenção. Gerard, acompanhado do seu amigo Kemal (nascido em França, logo francês, de família turca), encontra-se por volta das 16:30 em frente de um liceu privado (frequentado por raparigas). Enquanto Gerard dá piroupos a raparigas, Kemal negocia com um aluno de um liceu vizinho a compra de uma bicicleta. Vinte euros, a bicicleta, um bom negócio! Suspeito, é certo. Vejamos que Kemal tem algum dinheiro, porque trabalha: é ajudante de cozinheiro numa crêperie. Três “miúdos” vêm ao seu encontro. Um deles tem um ar desamparado: «esta bicicleta é minha, um matulão levou-ma, há uma hora e meia, e não ma devolveu.” Olá! Parece que o vendedor era um ladrão. Discussão. Gerard não vê outro caminho se não entregar a bicicleta. Um bem mal comprado não interessa a ninguém. Kemal resolve-se e os «miúdos» partem com o engenho.
Em muitas cidades dos subúrbios de Paris, a paisagem matinal de Novembro foi semelhante à desta foto tirada em Aulnay sous Bois.
É então que pára junto ao passeio, com uma travagem brusca, uma viatura da polícia. Dois dos ocupantes lançam-se sobre Gerard e Kemal, atiram-nos ao chão, algemam-nos com as mãos atrás das costas, depois empurram-nos contra uma parede. Insultam-nos e ameaçam-nos: “Paneleiros de merda! Idiotas!”. Os nossos dois heróis perguntam-lhes o que fizeram. “Vocês sabem muito bem! Virem-se imediatamente (colocam-nos, sempre algemados, de frente para as pessoas que passam na rua), para que todo o mundo possa ver quem vocês são e o que fizeram!”. Reinvenção do pelourinho medieval (uma meia hora de exposição), mas, novidade, antes de qualquer julgamento, e mesmo de toda a acusação. Vem a carrinha. “Vão ver o que é levar na tromba, quando estiverem sós». “Gostam de cães?”. “Na esquadra não haverá ninguém para vos ajudar.”
Os “miúdos” protestam: «eles não fizeram nada, até nos devolveram a bicicleta.” Pouco importa, levam todo a gente: Gerard, Kemal, os três miúdos e a bicicleta. A culpada será a maldita da bicicleta? Podemos garantir que não, nunca seria esse o problema. De resto, na esquadra, separam Gerard e Kemal dos três “miúdos” e da bicicleta, os três “miúdos” brancos são imediatamente libertos. Quanto ao negro e ao turco é uma outra coisa. Foi, contaram-nos mais tarde, o “pior” momento. Amarrados ao banco, recebiam pequenas pancadas nas tíbias de cada vez que um polícia passava em frente deles, sucediam-se os insultos, especialmente para o Gerard: “grande porco”, “negro de merda”… Ficam assim uma hora e meia sem que saibam de que são acusados e suspeitos de quê. Finalmente, informam-lhes de que estão detidos devido a agressões cometidas num grupo há 15 dias. Estão verdadeiramente amargurados, não sabem do que se trata. Assinatura da ordem de detenção e envio para a cela.
São 22 horas. Em casa, eu espero o meu filho. Telefonam-me duas horas e meia depois: «O seu filho está detido pela possibilidade de ter sido violento quando estava num grupo”. Eu adoro a palavra “possibilidade”. De passagem, um polícia menos cúmplice diz a Gerard: “ Mas tu, parece-me que tu não estás envolvido em nada, o que fazes ainda aqui?” Mistério, com efeito.
Quanto ao negro, o meu filho, digamos desde já que ele não foi reconhecido por ninguém. Está livre, diz um polícia, um pouco aborrecido. Pedimos-te desculpa.
De onde vinha toda esta história? De uma denúncia, ainda e sempre. Um vigilante do liceu das raparigas tinha-o identificado como sendo aquele que participou nas famosas violências de há duas semanas. Não era realmente ele? Um preto e um outro preto, você sabe…
A propósito de liceus, de vigilantes e de denúncias: afirmo de passagem que durante a terceira detenção de Gerard, tão vã e brutal como as cinco outras, pediram ao liceu dele a foto e o dossier escolar de todos os alunos negros. Leram bem: alunos negros. E como o dossier em questão estava no gabinete do inspector, devo crer que o liceu, tornado sucursal da polícia, operou esta interessante “selecção”.
Telefonam-nos bem depois das 22 horas para irmos buscar o nosso filho, ele não fez nada, desculpam-se. Desculpas? Quem se pode contentar com isso? E imagino que as pessoas dos «subúrbios» não têm sequer o mesmo direito a essas desculpas. Quem acredita que não deixa vestígios a marca de infâmia que querem, desta forma, inscrever na vida quotidiana destes rapazes, vestígios devastadores? E se eles quiserem demostrar que no final de contas – dado que os controlam por nada – poderá ser conhecido (um dia, “num grupo”) que os podem controlar por qualquer coisa, quem acharia mal?
Temos os distúrbios que merecemos. Um Estado para o qual o que se chama de ordem pública não é mais do que a junção da protecção da riqueza privada e dos cães lançados sobre as origens operárias ou sobre os provenientes do estrangeiro é pura e simplesmente desprezível
*Alain Badiou, filósofo.

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