Bouna e Zied

A denominada “Revolte de le Banlieue” [Revolta dos Subúrbios] iniciou-se após a morte de Bouna (15 anos) e Zied (17 anos) em Clichy-sous-Bois, na periferia de Paris. Numa primeira fase o Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, negou a perseguição policial. Os motivos da perseguição nunca foram esclarecidos.
A partir deste dia despontam inúmeros focos de violência urbana. São incendiados bancos, multinacionais de restauração e automóveis. Por todo o país há confrontos entre jovens dos bairros pobres da periferia das cidades e a polícia de choque (CRS). A revolta estende-se a Rouen, Dijon, Aix-en-Provence, Nantes, Planoise, Montbéliard, Lille, Lyon, Toulouse, Strasbourg, Angers, Cholet, Pau, Rennes, Clermont-Ferrand.
Na noite de 6 para 7 de Novembro são incendiados 1.408 automóveis.  No dia seguinte é declarado o estado de emergência que durou três semanas. A 9 de Novembro oito polícias são suspensos por actos violentos sobre um detido. A 17 de Novembro a polícia declara que a situação está normalizada. Mas esta não era uma história nova.
Em 1995, dez anos antes, Mathieu Kassovitz tinha gravado o filme “La Haine” – O Ódio. O Ódio conta a história de um dia na vida de três jovens de um subúrbio parisiense (Said, Vinz e Hubert). O Ódio conta a história da sua revolta e desejo de vingança, no dia em que sabem que um amigo árabe (16 anos) estava em coma na sequência de um interrogatório policial.
O filme de Kassovitz não censura, não qualifica, nem procura soluções. Diagnostica “Jusqu’ici tout va bien”

Escrito para ser lido na apresentação deste trabalho (2007) – Lisboa, 9 de Julho de 2009.

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One Response to Bouna e Zied

  1. p. s. d. da boa fé says:

    Um incêndio pode ser um espectáculo terrivelmente belo,
    a máxima expressão (eu diria ‘artística’) da ‘negação’ na cultura,
    quando o que arde é a cultura material da burguesia gentrificadora
    que sempre se procurou manter à margem da história
    (mas são então as chamas que a empurram
    para o coração da transformação histórica):
    automóveis, lojas, supermercados, stands,
    parkings, agências bancárias, seguradoras,
    e outros não-lugares da arquitectura dita ‘contemporânea’.

    E eis que desperta finalmente para a história
    todo esse império apático da mercadoria.

    Eis que das cinzas da passividade e do marasmo
    emerge uma esperança.

    poeta da boa-fé (com o precioso auxílio, claro está, do sr. Castanheira)

    ps: para ser declamado no centro comercial do Saldanha à hora de almoço

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