Antes dar um beijo na boca do João Miranda do que fazer campanha em tal companhia

O Daniel Oliveira, o mesmo que há uns tempos se afligiu só de se imaginar em más companhias numa certa manifestação às portas da AR, andou a matutar, com a antecedência que distingue os espíritos visionários, no destino do seu voto nas presidenciais.
Suspense. Depois de muita ponderação, eis que surge a surpresa: DO vai seguir a extemporânea e grotesca decisão do Bloco e já decidiu: «votarei Manuel Alegre nas próximas eleições presidenciais e tenciono por ele fazer campanha.»
A prolixa argumentação, começa, à boa maneira das fábulas didácticas, por dar um nome à malvada tentação. Fernando Nobre. DO ainda lhe ouviu os cantos de sereia, mas acabou por levar com um triste «balde de água fria» do candidato/ONG logo na sua apresentação (como se alguém tivesse motivos para dali esperar um pensamento político com pés e cabeça). Ainda para mais, DO sabe de fonte segura aquilo que os demais só pressentem: que «Mário Soares tinha andado a fazer convites num acto de vingança pessoal mesquinha».
Resta, claro está, o Bardo, o Grande Vate que se tem multiplicado em apoios,  omissões e silêncios com um único beneficiário: Sócrates. Acontece que, segundo DO; «depois das últimas presidenciais Manuel Alegre fez um caminho.» Poder-se-ia dizer que se trata do caminho da infâmia, mas não: DO rende-se à alegre capacidade de congregar o povo de esquerda à volta de «um programa em defesa dos serviços públicos e do Estado Social», entre outros suaves milagres. Só lhe faltou confiar-nos que numa destas manhãs, ao sair de casa, pisou uma bosta de cão que se metamorfoseou, debaixo da preclara sola de DO, numa perfeita efígie de Santo Alegre.
Prepara-se assim DO para fazer campanha de braço dado com o pior cancro que atacou este país desde o 25 de Abril: o PS de Sócrates. Tudo para por fim poder partilhar uma vitória, com um cantinho na varanda da (improvável) celebração? Mas porque nos quer ele convencer de que as nossas únicas opções serão o apolítico Nobre e o solipsista Alegre? Estaremos todos condenados a escolher entre tais desgraças?

Claro que não. Mas deve ser útil ao Bloco que agora se dê essa ideia.

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26 Responses to Antes dar um beijo na boca do João Miranda do que fazer campanha em tal companhia

  1. rms says:

    Eu deixei de visitar o Arrastão depois do que se passou no 1.º de Maio e das mentiras que DO disse sem nunca reconhecer que o havia feito. A figura já se pronunciou sobre a recolha de assinaturas que está a decorrer entre os “@derentes” do bloco para marcar uma convenção extraordinária, precisamente por causa das presidenciais?

  2. E tu vais votar em quem?
    E porquê?
    E quais são as alternativas?

    Eu acho isto de ter um blogue que se dedica a comentar cada traque que eu dou um luxo, mas não seria mau irem dizendo o que acham sobre as coisas e não apenas o que acham do que os outros acham sobre as coisas.

    Coitado do João Miranda, bolas! Ele fez-te algum mal?

  3. rms says:

    Não deixa de ser irónico alguém que está num programa cujo objecto é, quase exclusivamente, achar sobre o que acham outras pessoas, achar que não se pode achar sobre o que o próprio acha sobre as coisas.

  4. Luis Rainha says:

    Daniel,
    Se bem me lembro, o tema das companhias e das diferentes versões de liberdade foi invenção tua e, como bem sabias, tinha em vista gente deste blogue.
    Essa imagem do traque é bonita e certeira, sobretudo a propósito desta tua pública exposição de estados de alma, mas enfim.
    Quanto ao meu voto, desculpa lá se não me apetece, sobretudo a esta distância, encenar um showzinho utilitário à volta dele.
    No que concerne o João Miranda, realmente ele não merecia ter sido arrastado para esta cena.

  5. Justiniano says:

    Rainha, meu nenúfar pintado.
    “o pior cancro que atacou este país desde o 25 de Abril: o PS de Sócrates. ” Eu diria desde a primeira República, nem mais nem menos.
    Mas, Rainha, Vcmcê já confessou ter votado no Barão Costa, uma coisa (coisa é o tal Barão Costa) que, sem dúvida, reabilitaria a 1ª República…

  6. Luis Rainha says:

    Justy,
    Votei no Costa para um mandato limitado: cuidar de Lisboa, terra onde afinal já nem moro. Por outro lado, havia Santana Lopes do outro lado – e já uma vez o tipo tinha ganho a CML quando ninguém acreditava muito na ameaça. Agora entre Cavaco e Alegre, fico como alguém que deve escolher entre contrair peste ou sida.

  7. «o pior cancro que atacou este país desde o 25 de Abril: o PS de Sócrates»

    Só? Não será o pior cancro da História nacional? Se é pior do que Santana Lopes, Durão Barroso e Cavaco, não será também pior do que Salazar, Sidónio, João Franco, D. Maria e D. Miguel?

    Exagero por exagero, mais vale ir até ao fim…

  8. Luis Rainha says:

    Sócrates combina a ineficácia de Guterres, o autoritarismo de Cavaco e a falta de carácter de Barroso. Santana Lopes seria o grande concorrente à taça, mas fica-se pelo lugar de bufarinheiro mais cómico e vergonhoso do que perigoso. Desses vultos mais antigos que menciona, quais é que estiveram permanentemente associados a suspeitas e fumos de corrupção, a propósito de cada passo que deram, antes e depois de chegarem ao poder?

  9. Niet says:

    Farisaísmo ou boa vontade dos integrados?- A explosiva contradição exibida por D.O. – que, por exemplo, Adorno podia classificar de ” farisaismo da vontade versus boa vontade -no anúncio de apoio à candidatura de Manuel Alegre a PR, concentra o que o autor de Dialéctica da Razão demonstra: ” Uma ideia do bem que tente guiar a vontade tentando escapar e sem ser inteiramente atravessada pelas determinações concretas da razão, obedece secretamente à consciência integrada, ao que é socialmente aprovado “. Alegre-candidato, o “reformador ” envergonhado de um sistema desigualitário e injusto, aglutina os apoios que manipulam os
    espíritos fracos, integrados e felizes com a sua própria nulidade…Niet

  10. «Sócrates combina a ineficácia de Guterres, o autoritarismo de Cavaco e a falta de carácter de Barroso.»

    Estou em parte de acordo, mas Sócrates tem sido eficaz nalgumas questões (apoio à ciência), e é menos autoritário do que Cavaco (recordar a RTP da era cavaquista, liderada por um certo José Eduardo Moniz).

    Quanto aos antigos, a verdade é que o poder, à época, não era tão escrutinado e controlado como é hoje.

    Repito: considerar Sócrates o «pior cancro» desde o 25 de Abril é um exagero.

  11. JMG says:

    Com a presciência que até os meus inimigos me reconhecem, venho informar a malta (incluindo o próprio) em quem é que Luis Rainha vai votar: é em Jerónimo de Sousa na 1ª volta; e no negregado Bardo na 2ª.

  12. Luis Rainha says:

    Antes comeria a tal bosta miraculosa do que votaria no Alegre. E o Jerónimo pouco mais me anima. Mas se me pusessem à frente um nome como Carvalho da Silva, até pensaria no assunto.

  13. mc says:

    teremos sempre antónio abreu.

  14. Luis Rainha,
    mas qual é o problema do Manuel Alegre?

    É ter votado contra o Código do Trabalho?
    É não ter sido candidato nas listas do PS?
    É ter andado em iniciativas com o BE?
    É ainda ser do PS?
    ?

  15. Justiniano says:

    Rainha, os mandatos aos Barões nunca são limitados, é coisa que, simplesmente, não compreendem (limitados, para eles, são aquelas criaturas que, devido a caracteristicas intrínsecas minguantes, se deixam ambalar pelo logro da sua cantilena. É a maior crueldade, a instrumentalização das gentes de boa-fé)

  16. Pingback: cinco dias » O BE e a questão presidencial e os “traques” do Daniel Oliveira

  17. Salah al Din says:

    Eu deixei de ler o Arrastão desde que aí foi instituida uma censura pidesca sobre todos os que não deixem brilhar o Grande Blogueiro do Ego Inchado, sob o falso pretexto de os ditos comentários serem insultuosos ou sem nível intelectual (!!!), o que ninguém poderá comprovar porque são sistematicamente censurados.

    E trata-se de mera inveja intelectual. Nas questões do Médio Oriente, por exemplo, não há diferença significativa entre as minhas posições e as do DO (apesar das tentativas desesperadas deste para me encostar aos judeófobos). O problema era outro: é que Sua Excelência, o Grande Blogueiro, comigo, sentia que não podia brilhar como o único Sol da Terra…

    A esquerda hedonista, berloqueira e de causas coloridas tem um ego inchado e as preocupações com a sua agendazinha pessoal sobrepõe-se sempre às causas supostamente defendidas.

    Para mim só estas é que contam. Até escrevo com pseudónimo…E se vejo alguem malhar com mérito nos nazi-sionistas só posso ficar satisfeito, nunca invejoso. Aí sim, há uma diferença substancial. DO não tem carácter.

  18. Salah al Din says:

    Conclusão: esta susceptibilidade de DO com os que (supostamente) ameaçam o seu protagonismo explica muita coisa… como o seu distanciamento ou reticência face às denúncias mais vigorosas das facaltruas e censuras mediáticas de Sócrates….

    É que os censores receosos do debate aberto e contraditório reconhecem-se e são reciprocamente complacentes…Les mauvais esprits se rencontrent…

    O Cinco dias , tal como o Blasfémias, são imensamente mais democráticos que o Arrastão. E muito mais interessantes do ponto intelectual e do debate de ideias. O Arrastão Oliveira é um bluff que se vai esvaziar…tal como o Poeta Triste.

  19. Luis Rainha says:

    Ricardo,

    Cá vai de novo:
    Ninguém pode acusar Manuel Alegre de falta de coerência. O homem tem e sempre teve um só programa, uma só ideologia: o próprio Manuel Alegre. Que alguém com meio neurónio a funcionar queira ver semelhante figurão com o poder de dissolver a AR, eis coisa que nunca deixa de me espantar.
    Lembrem-se de que se trata do mesmo Alegre que há uns tempos queria fundar um novo partido para dar «uma lição» aos demais. O mesmo sapo inchado que aguardava pedidos de desculpa do PS por alguns dos seus dirigentes terem achado desleal a sua candidatura contra Soares – agora o protestante meteu a viola no saco e já se arvora de novo em referência do seu partido.
    Mas parece que há quem se alegre tremendamente ante a perspectiva de poder por fim subir ao palanque da festa, de braço dado com um Vencedor. Talvez isso compense as agruras de vidas dedicadas a remar contra marés, mas não é qualquer garantia de acrescida influência sobre coisa alguma. Quando estamos entregue a um auto-governo que talvez seja o mais abominável dos últimos 30 anos da nossa História, como é que passa pela ideia de alguém oferecer-lhe um PR aquiescente e devedor?
    Imagine-se Sócrates livre da mesquinha e atabalhoada vigilância de Cavaco. Imagine-se a criatura sem freio nem trela, à vontade para encorajar o seu bando de gafanhotos. A esta espécie de primeiro-ministro, bastaria manter o PR Alegre entretido com inaugurações semanais de estátuas a si mesmo para desanuviar o seu horizonte. Ou imaginem um outro primeiro-ministro que venha a irritar o Vate Alegre; as famosas “bombas atómicas” presidenciais logo passariam a fogo-de-artifício quotidiano.
    Quando o Daniel nos interpela com o lancinante «Querem conquistar alguma coisa ou contentam-se com a sua razão?», só posso responder que quero conquistar muita coisa, mas sem nunca desistir da minha razão. E não consigo mesmo ver uma só razão para querer ter como presidente um saco de vento solipsista e auto-obcecado. Antes uma criatura desprovida de cultura mas cautelosa e timorata.

  20. Luis Rainha says:

    Mais antigo:Já não me lembro como e quando comecei a embirrar com Manuel Alegre. Mas sei bem que cada novo discurso seu, invariavelmente ornamentado com quilos de quinquilharia retórica, delicodoces intenções e tiradas cheias de som e de fúria, me relembra essa comichão persistente. Antes de reproduzir um post antigo sobre a figura, com que me reencontrei agora graças ao Google, fica uma última declaração: no dia em que Manuel Alegre fizer parte de uma qualquer “Nova Esquerda”, desato a votar no PS. Sendo eu simplesmente humano (e a custo), sempre tive um respeito instintivo e saudável por essa galeria de titãs que orbita, a grande altitude, em torno do nosso mundinho chão: os “Grandes Vultos”. Figuras larger than life, imunes a discordâncias, superiores a qualquer veleidade crítica. É como olhar para as estátuas que juncam as nossas melhores avenidas e as rotundas mais selectas. Quer se trate do Duque da Terceira, do Imperador Maximiliano ou do sub-visconde da Bobadela, o passante inclina o pescoço para contemplar a postura heróica da entidade lá no alto do pedestal e só consegue tartamudear: “este gajo deve ter feito coisas do caraças!” Trata-se de um mecanismo de servil admiração que funciona também face a gente que ainda não se viu transmutada em bronze coberto de cocó de pombo. Gente viva, até. A quem lembrará negar o brilho de um Ruy de Carvalho? Quem não reconhecerá a profundidade abissal de Eduardo Lourenço? E a Mariza, não é certo que reencarna mesmo a divina Amália? Manuel Alegre, para mim, sempre foi um Grande Vulto. Sem dúvida. O Grande Poeta. O Vate, o Bardo, o Resistente, o Baluarte da Esquerda, e mais uma catrefada de qualificativos sobre-humanos. Verdade é que a sua poesia nunca me agradou por aí além. Mas sempre atribuí esse facto à minha relativa incapacidade para entender algumas subtilezas da arte poética. E não é certo que a “Canção com Lágrimas” tem lá dentro versos dele? (Note-se que a belíssima composição de Adriano até resiste ao “cristal” que se parte “plangente” e aos “mortos amados” que batem não sei aonde.) Também não fiquei muito impressionado com o desempenho do Poeta na recente corrida à liderança do PS. Então aquelas reclamações acerca da votação no Porto e a subtil sugestão de um excelente nome para candidato a PR, que até podia ser o seu… Empurrado por estas magnas inquietações, deitei-me hoje a ler um livro de prosas várias de Manuel Alegre, de seu nome “Arte de Marear”. Título críptico, capa solene com um compasso em gravura de ar antigo. A encher a contracapa, uma foto do Vate, encarando o leitor com olhos graves e queixo adequadamente apoiado em mão de indicador esticado. Comme il faut. O pior é mesmo o conteúdo do raio do livro. Trata-se de uma recolha de textos heterogéneos a propósito de tudo e mais alguma coisa: recordações de infância, apontamentos biográficos, uma entrevista, etc. Nem sei por onde comece. A hagiografia respeitosa e delicodoce é pródiga na distribuição de mantos diáfanos de prosa acrítica: de Garrett a Amália, todos são despachados com adjectivos grandíloquos que nada mais fazem que confirmar banalidades de manual escolar. As provas do convívio de Alegre com os grandes deste mundo pululam por entre aquelas páginas. As preocupações culturais e artísticas atacam o leitor em catadupa. Mas, bem acima de todas estas questões, ergue-se uma figura titânica, prometeica, insuperável: o próprio Manuel Alegre. E a cada esquina se torna mais óbvio o imenso interesse que o Bardo dedica ao seu assunto preferido: ele mesmo. Ele resiste; ele é insubmisso; ele é uma personagem de magna importância no curso da História; ele aceita honrarias com um encolher de ombros resignado à grandeza; ele cita pelo menos três Grandes Vultos por página; ele acha a sua poesia “camoniana”; ele compõe parágrafos recheados de lugares-comuns a propósito de qualquer assunto ou personalidade. E, acima do mais, ele é, visceralmente, de Esquerda; quase se pode dizer que ele é a Esquerda! Para que disso não permaneçam dúvidas, trata de proclamar tal paixão com as cornetas do costume: truísmos, verborreia pomposa, mais banalidades. À laia de exemplo, os “novos bárbaros” que apenas entendem uma tal de “fria linguagem do cifrão” levam bordoada da grossa. Tal como levou a minha resistência ao tédio.

  21. cc says:

    O típico pensamento do comité central do PCP em todo o seu esplendor: mais vale a direita a governar ou em Belém, que é para podermos zurzir e sermos do contra. Chamados à responsabilidade de governar? Tentar uma plataforma de entendimento à esquerda? Cruzes credo.

  22. João A. says:

    Rainha,

    Nos esboços que faz do perfil de Alegre falta um elemento fundamental: Alegre é cego!

  23. Luis Rainha says:

    PCP? Uh-uh. É mesmo essa a minha linha, claro. E governar como? Com Alegre, que nem ganhará nem estará a concorrer a um cargo governativo? Entendimento com este PS? Esquerda?

  24. ezequiel says:

    “Agora entre Cavaco e Alegre, fico como alguém que deve escolher entre contrair peste ou sida.”

    LOL

    os teus comentários neste post são muito mais divertidos e acertados do que o post per si. chorei de rir.

    “Quer se trate do Duque da Terceira, do Imperador Maximiliano ou do sub-visconde da Bobadela, o passante inclina o pescoço para contemplar a postura heróica da entidade lá no alto do pedestal e só consegue tartamudear: “este gajo deve ter feito coisas do caraças!”

    eh eh eh e

    congrats, Luís.

    já n me ria assim há muito tempo.

    abraço
    z

  25. Luis Rainha,
    se as suas resistências a Alegre são tantas, o melhor é votar Cavaco. É o candidato com melhores hipóteses de derrotar Alegre. ;)

  26. Luis Rainha says:

    Ricardo,
    Brinca, brinca.

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