Resumidamente, dizemos que o flamenco é um género musical (sobretudo de canto, o “cante” como veremos) e de dança andaluz, de raiz cigana, também árabe e judaica, que consideramos originário do século XVIII na sua estrutura actualmente conhecida como definitiva. Concretamente, em relação à sua origem (e eu acrescentaria que o flamenco é a música tradicional que mais me fascina, arte trágica, bela e sacra), dizia eu que em relação à sua fundação não me faz sentido crer que ela possa ter vindo da Flandres, nesta tese um género musical então chegado a Espanha no tempo de Carlos V. Esta hipótese não me faz muito sentido. Creio mais válida uma outra hipótese. A qual remonta à queda de Granada em 1492 e a uma subsequente quebra total de tolerância e respeito pelos muçulmanos que por essas bandas ficaram ou foram ficando até ter sido possível, uma ruptura com o Islão não imediatamente posterior à queda do califado, antes acentuada nos finais do século XV e princípios do seguinte. Foram então nesse tempo os muçulmanos expropriados de tudo, bens e religião, creio que completamente proibida.
Daqui surge a expressão (que teria baptizado este estilo que faz todo o sentido ter sido no início sobretudo uma forma de canto mais do que de dança) “fellah min gueir ard”, ou seja, camponeses árabes sem terra. Então, o “cante” flamenco é assim o cruzamento da arte musical de duas minorias do sul de Espanha: a árabe e a cigana. Apesar da minha proverbial pouca cultura e generalizada ignorância, esta é a hipótese que me faz sentido acerca dos princípios do impressivo e assombroso flamenco.
Noutro ponto, diria mesmo que é precisamente a “pouca cultura” (e, porque não?, mesmo um certo e salutar alheamento do mundo) que faz deste Manuel de los Santos Pastor “Agujetas”, de que vos falo, o mais genuíno e estonteante intérprete do “cante jondo”, que se costuma considerar o mais puro tipo de cantar andaluz; diz-nos este génio telúrico: “Yo me llamo Manuel de los Santos Pastor, El Agujeta, y me dicen Agujetas de mote, porque mi padre [o cantaor Agujetas El Viejo] trabajaba en el ferrocarril y era el que cambiaba las agujas, po’ le pusieron de agujas Agujetas”. Mas, atente-se, a melhor definição do “cante” de “Agujetas filho” é o próprio que nos proporciona; registe-se: não é possível saber ler e escrever e, ao mesmo tempo, cantar flamenco, pois ao saber-se ler e escrever perde-se definitivamente a sabedoria da pronúncia. E “Agujetas” não sabe de facto nem ler nem escrever.
Os palos, ou estrutura rítmica (o compasso), é aquilo que determina o género ou a classificação dos modos do “cante” flamenco: soleás, bullerias, tangos, fandangos, rumbas, seguiriyas, etc. Fixe-se desde logo este último tipo, trágico, sombrio e deveras doloroso, pois a ele se vai ligar o grande “Agujetas” (que tem em Manuel Torre, falecido nos anos 30, a sua referência), mestre das seguiriyas como nenhum outro (entretanto, o famoso Camarón, de que aqui falei, já segue uma outra via, protagonizando com Paco de Lucía uma espécie de “flamenco clássico” e de fusão, propostas que “Agujetas” desconsidera).
“Agujetas” é um homem de outro mundo, um “cantaor” em transe, rosto só de ossos marcados. Há quem o considere, justamente, o “Neanderthal do Flamenco”, imagem de fábula e origem, viagem no tempo (fora do tempo). Não sei se ainda canta (julgo que sim, apesar de não se saber bem em que ano nasceu, 1939?, 1946? 1947?) mas é como se o seu canto tivesse existido sempre e desde sempre. Sempre mesmo:




Sem investigação demasiado rebuscada – apenas a razoável Wiki – pode chegar-se aqui:
http://en.wikipedia.org/wiki/Flamenco
e, mesmo que, não haja verdades definitivas sobre o assunto, convém não nos fiarmos nas hipóteses que “nos fazem mais sentido”. A mim, por exemplo, “fazia-me todo o sentido” que o fado tivesse também raízes árabes. Mas, infelizmente, parece que não.
O que já não faz mesmo sentido nenhum é escrever “0s palos, ou estrutura rítmica (o compasso)”. Estrutura rítmica é uma coisa, compasso é outra completamente diferente. E os “palos” são ainda outra:
http://en.wikipedia.org/wiki/Palo_%28flamenco%29
Sr. João Lisboa, creio que você é o mesmo que alguns conhecem como crítico de coisas Pop em jornais da cidade de Lisboa.
E o sentido que o seu sentido lhe faz para mim não tem interesse nem sentido nenhum, ou seja, é o seu sentido. Quer dizer, raramento o leio, sobre o que escreve pouco interesse tenho.
Agora, quanto ao resto, passemos a coisas sérias, ou mais ou menos sérias.
Os palos do flamenco também se definem pelo compasso, exactamente. Mas eu não quis uma discussão técnica, pois os palos também podem definir-se por origens geográficas (entre outros factores ou criterizações).
Agora se me vem dizer que não há relações entre ritmos, estruturas rítmicas e compassos, desconhecendo a relação por exemplo entre valsa e compasso composto, então aí, volte para o seu periódico semanal, sff. A Lady Gaga espera-o. Porque é evidente que uma estrutura rítmica de uma obra torna-se legível com a indicação do compasso (no início de uma partitura), ou com a alternância de compassos.
(Bom, J Lisboa, é que ainda por cima vem aqui polemicar sem grande sentido: primeiro, não escrevi pela wikipedia, fiz sínteses de memória e com a intenção única de elevar a dinastia “Agujetas”; mas, seguindo o seu último link, deparo com isto, que já sabia: “Each palo is characterized by a variety of musical features such as its rhythmic pattern (…)”)
Extraordinário… vem uma criatura até aqui, civilizadamente, trocar uma ou duas ideias sobre um tema propriamente musical e é recebida como se tivesse insultado toda a sua ascendência até à 5ª geração!…
É-me bastante indiferente que me leia ou não. E não é o “seu” ou o “meu” sentido que importam. O que importa é evitar dizer disparates. Por exemplo, “estrutura rítmica (o compasso)” é uma daquelas asneiras que qualquer aluno – fraquinho – de um 1º ano de Formação Musical já não está autorizado a dizer.
Já agora, convinha colocar a citação completa que refere no 2º comentário:
“Each palo is characterized by a variety of musical features such as its rhythmic pattern, its mode, its characteristic motifs, or the type of stanza used for the lyrics”
E, mesmo tendo a certeza que não irá entender, repito: “rhythmic pattern/padrão rítmico” é fundamentalmente distinto de “compasso”. Dizer que “a estrutura rítmica de uma obra torna-se legível com a indicação do compasso (no início de uma partitura), ou com a alternância de compassos” é uma daquelas frases que pode impressionar ignorantes da coisa musical mas que sofre do pequeno defeito de jogar para o lixo uma boa parte da História da Música que desconhecia o próprio conceito de compasso… só podiam ser tempos de música “ilegível”.
Suspeito que até a Lady Gaga (que, juro, nunca ouvi nem estou excessivamente interessado em ouvir) é capaz de ter umas noçõezinhas disto. Mas pode ficar tranquilo: estas (qualquer que seja a sua resposta ou seja ela nenhuma) são as últimas palavras que aqui escrevo. Se fosse educadinho, até lhe dava umas aulas de Música de borla. Assim, se as quiser, terá de mas pagar como os outros.
Ó meu caro,
“Each palo is characterized by a variety of musical features such as its rhythmic pattern (…)”
sabe o que significa isto “(…)” ??
Significa que a frase continua.
O resto das hipóteses da frase está num comentário meu: os palos têm várias criterizações, até geográficas (o que não consta da sua citação wikipediana).
De resto, repito, a estrutura rítmica torna-se legível com a indicação de compasso. Há ritmos que implicam logo um compasso (citei a valsa, mas você quer ir até Lascaux – vá, ok).
Por último, veio aqui civilizadamente? De certeza?? Veio mesmo??
Não tinha percebido isso. (Já agora, faz mesmo muita questão que “pattern”, molde, modelo, nunca em circunstância nenhuma signifique nenhum tipo de “estrutura”? Oh, não precisa de responder, já escreveu aqui as suas últimas palavras. Combinado. Registo ainda que sobre o tema do post você não tem nada para dizer.)
Vejamos, então, o que se pode ensinar (sobre os assuntos acima resumidos), entre outras formulações, a alunos de música:
“(…)
Na teoria dos ‘modos rítmicos’ do século XIII, que se inspira na métrica grega, a palavra ‘modus’ pode traduzir-se por ‘compasso’ no mais amplo sentido do termo (forma de repartir durações).
(…)
O ritmo é função da repartição das durações relativas, mas tanbém:
- do COMPASSO, organização esquemática e periódica [estrutural, portanto] da duração, divisão arbitrária do tempo musical. Uma música pode ser ritmada sem ser medida (recitativos), mas o compasso age sobre o ritmo acentuando-o ou contrariando-o.”
(Não, não estou a citar da Wikipedia.)
Ó alunos de J Lisboa, o que aprendem com o senhor??
(Que aqui veio “civilizadamente”, diga-se de passagem, e eu nisso não reparei.)
O “cante jondo” (em estado puro, ou quase…) é digno de se ouvir… Os sons de guitarra flamenca absolutamente apaixonantes!
Fonte de inspiração para Frederico García Lorca, POEMA DEL CANTE JONDO (1921)
“La guitarra.
Empieza el llanto
de la guitarra.
Se rompen las copas
de la madrugada.
Empieza el llanto
de la guitarra.
Es inútil callarla.
Es imposible
callarla.
Llora monótona
como llora el agua,
como llora el viento
sobre la nevada
Es imposible
callarla,
Llora por cosas
lejanas.
Arena del Sur caliente
que pide camelias blancas.
Llora flecha sin blanco,
la tarde sin mañana,
y el primer pájaro muerto
sobre la rama
¡Oh guitarra!
Corazón malherido
por cinco espadas
…oooOOO OOOooo…
El grito.
La elipse de un grito,
va de monte
a monte.
Desde los olivos,
será un arco iris negro
sobre la noche azul.
¡Ay!
Como un arco de viola,
el grito ha hecho vibrar
largas cuerdas del viento.
¡Ay!
(Las gentes de las cuevas
asoman sus velones)
¡Ay!
…oooOOO OOOooo…
El silencio.
Oye, hijo mío, el silencio.
Es un silencio ondulado,
un silencio,
donde resbalan valles y ecos
y que inclinan las frentes
hacia el suelo. “
CVidal: Os cães, os mastins andam à solta! Ontem fui cobardamente atacado por um energúmeno por causa de uma tradução ( quase) literal do Bakounine sobre os Problemas na AIT, resuminho de umas 1200 páginas que insertei no Vias de Facto. O tipo blindou-se de tal maneira- que é impossível saber quem é. Mas deixou uma perninha ao léu: é Wigie, calão de retornado triste,infecto e idiota. Um mero parasita Vigilante, sem eira nem beira! Mas cão feroz e fascista, como diz o Zizek.
O caso do J. Lisboa parece-me ser outro.É de outra ordem de grandeza. Ele é mesmo profissional e o C. Vidal um melómano entusiasta. Haja paz e serenidade! Niet
É verdade, caro Niet, estão à solta. Gosto da expressão “cão feroz e fascista”. Mas não é o caso, talvez não. Não sei.
Mas o sr. Lisboa comete gaffes obtusas e abstrusas e não (me) consta que tenha escrito alguma vez sobre o que quer que seja que me interesse. Pelo menos por algo que me interesse por demais. Daí ter concluído, e bem, que se equivocou na sua “visita”.
Caríssimo Vidal, excelente!!
Um bem haja,
lá se foi o interlocutor da musica, muito abstracta não? e esta então mui primitiva, não dá para ser ensinada aos filhos do nosso povo, pois não? Estética do verdadeiro e autêntico real e tal que nasce e morre com os próprios. Está apenas a divulgar estas afectividades electivas, portantos.
“não é possível saber ler e escrever e, ao mesmo tempo, cantar flamenco, pois ao saber-se ler e escrever perde-se definitivamente a sabedoria da pronúncia.”, absolutamente sublime. E que bem diz, caro Vidal, ossos, rosto só de ossos marcados. E que tanto nos pode dizer…
Que será da alma andaluz…que dizem, hoje, os poetas andaluzes!?
Agradecido por nos trazer aqui este nobre homem.
O que distingue umas almas de outras?
“We all live in the gutter but some of us are looking at the stars” (citação de cor).
p’las ditas! Querem lá ver! cada uma sua minhoca, ou anãs às costas de gigantes?
assim de repente estou a vê-las como as dos monárquicos e as pequenas dos republicanos. sei lá!