Da publicidade utópica à prostituição científica

O Público de hoje (ou deveria dizer simplesmente Pub?) vem com uma daquelas capas duplas que já praticamente todos os jornais nos habituaram. A diferença é que desta vez a coisa parece mesmo uma capa. Da manchete ao logótipo dos 20 anos. Toda ela é enternecedora. O casal apaixonado… ela meia beta, ele meio freak, o sorriso dos dois, enfim, o dia do consumidor celebrado como deve ser, ou seja, em comunhão na catedral do MacDonalds.

A tradição dos jornais tomarem posição política em capa é antiga. Quem não se lembra das capas negras do DN sobre Timor? Do Diário de Coimbra contra a co-incineração em Souselas? Das ilustrações sobre o 25 de Abril nos anos em que ainda se comemorava o seu aniversário? As Torres Gémeas em colapso, que só o Público já deve ter publicado 20 vezes? (só para lembrar algumas relativamente recentes).

Esta capa entra precisamente nesse imaginário. Celebremos todos então. Assim, cegamente. Num dia em ao invés de um sorriso parvo deveríamos lembrar o que precisamos e não podemos consumir e paralelamente o que temos a mais e, de todo, não precisamos.

Quanto ao Público, apenas uma sugestão: saiam de Picoas e mudem para o Intendente.

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5 Responses to Da publicidade utópica à prostituição científica

  1. A pau says:

    Do que gostei mais neste post foi do “como deve de ser”.
    E quero aplaudir.

  2. p. s. d. da boa fé says:

    Porquê o Intendente? Esse lugar quase bucólico, de cafés mal frequentados (se Lisboa fosse Paris, o Intendente seria o bairro de Debord e das suas más companhias) e ainda sem decoração IKEA; esse bairro ainda não gentrificado pela burguesia betinha das Picoas e das camisas aos quadradinhos (e para que metáfora nos remetem esses quadradinhos? será da ordem? se assim for, é apenas mais uma prova de que o fascismo é um processo que foi profundamente interiorizado e que os PIDES estão por toda a parte; e principalmente nas Picoas)…

    Bom, para mim o Público sempre foi Pub(licidade) e nada mais.
    Um simples jornal de publicidade (aliás, como todos os outros jornais que inundam os quiosques), em que os publicitários, que anunciam nas suas páginas as trivialidades do costume, sabem que podem dormir tranquilos, já que o jornal, através dos seus variados artigos, jamais deixa transparecer a mais subtil crítica à sociedade concreta que produz tais trivialidades e as torna necessárias: telemóveis ‘décima primeira geração’ (com radiações associadas), automóveis que fazem peões na neve (com poluição garantida + desfiguração das paisagens urbanas e rurais + muitos milhões de homicídios por atropelamento em todo o séc.XX), câmaras que produzem imagens superiores à realidade (e que nos levam progressivamente a preferir o mundo da virtualidade e da ficção àquele da realidade), etcétera…
    O Público é por isso um jornal do regime actual (nem mais nem menos do que qualquer outro jornal de quiosque; à excepção, logicamente, do Avante, que é o jornal de regimes defuntos), por onde circula o ‘pensamento único’ que hoje, com toda a complacência da inteligentsia esquerdista, globaliza/americaniza o planeta (é o pensamento ‘da’ – e ‘para a’ – mercadoria). Assim, quem lê aquele pedaço descarado de propaganda às banalidades massificadas que as grandes superfícies nos vendem como produto exclusivo, feito à nossa medida, fica perfeitamente formatado para aderir, enquanto empenhado trabalhador-consumidor, à rotina da ordem em curso.
    O Público desinforma acerca do mundo real (alguém me mostra uma notícia desse pobre jornal que represente fielmente o que se passa nas favelas deste mundo, onde vive um sexto da população mundial? Apesar das favelas serem o facto histórico mais saliente do nosso tempo, como há 60 anos foi o holocausto, e há 300 a escravatura, o Público não nos dá qualquer notícia sobre o que aí se passa; e este é um mero ex.) e predispõe-nos a aceitar o mundo fictício da mercadoria que nos impingem os industriais e as suas marionetes políticas.

  3. Renato Teixeira says:

    A pau… que preciosismo. Vou rectificar imediatamente. E já agora… de que parte gostou menos? Deve dar mais pano para mangas.

  4. p. s. d. da boa fé says:

    Sr. Teixeira, gostei do preciosismo da Pau que, para não dar nenhum erro, apenas escreveu 15 singelas palavrinhas ocas, sem nenhuma ideia lá dentro.
    Cheira-me a leitor assíduo do Pub…

  5. Renato Teixeira says:

    Excelentíssimo Boa Fé, imaginei que este post suscitaria uma quantidade de caracteres significativos na sua pessoa. (Será que A Pau ainda os está a inspeccionar?)… Lerei ao serão. Até lá: Saúde, poesia e vinho (deixemos a sabedoria para dias piores).

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