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Obediência espectáculo

12 de Março de 2010 por Nuno Ramos de Almeida

As revistas são, muitas vezes, a expressão dos preconceitos e tiques dos países onde são feitas. Ler uma revista de filosofia de um país anglo-saxónico ou francesa é toda uma diferença cultural. Enquanto as revistas em língua inglesa, como a Philosophy Now ou a Radical Philosophy são publicações espartanas quase só de texto, as suas congéneres francesas são muito diferentes. Quando passamos as páginas da Philosophie Magazine estamos sempre às espera de ter nas centrais o poster da filósofa do mês,  convinientemente fotografada,  devidamente produzida e eventualmente despida.
Apesar do embrulho, o número de Março tem alguns artigos que analisam e, até expressam, esta espécie de insustentável leveza da modernidade. A revista discute os malefícios da pantalha a partir de uma emissão chamada “Até onde vai a televisão?”. Um antigo jornalista da Actuel inventa um produto televisivo, uma espécie de reality show com implicações filosóficas. Neste programa é recriada a célebre experiência de Milgram. Só que desta vez, a obediência não é garantida por cientistas, mas por uma escultural apresentadora de televisão.


Recordemos que na experiência inventada pelo psicólogo Stanley Milgram eram pedidas pessoas para participarem num suposto estudo sobre “a memória e aprendizagem”, parte delas fazia a função de aluno e as outras de monitor. O estudo dizia pretender analisar o efeito dos castigos na aprendizagem. O mecanismo era muito simples,: quando o aluno falhava uma resposta, o monitor dava-lhe um choque eléctrico. Essa punição era crescentemente proporcional à repetição dos erros. Os castigos começavam por um choque de 15 volts e terminavam aos 450 volts. A partir dos 375 volts, o painel informava o monitor que o choque era potencialmente grave para o aluno. Este último era um falso voluntário, um actor contratado que fingia receber choques electricos e reagia em função desses choques. Quando os choques “atingiam” grandes voltagens os “alunos” berravam e exigiam ser libertados, chegando no fim da experiência a simular desmaios e até a morte.
O Fim da experiência era determinar até onde iriam as pessoas ao infligirem dores a um seu semelhante, punindo-o por um erro sem importância. Os sujeitos da experiência (os supostos monitores) eram escolhidos em todas as camadas sociais. A experiência foi repetida em várias universidades dos EUA e envolveu centenas de pessoas. Segundo o professor Milgram, “o objectivo era determinar quando e como as pessoas desafiariam a autoridade perante um imperativo moral claro (não ferir e matar um outro ser humano)”.
Nestas experiências verificou-se que dois terços das pessoas obedeciam aos cientistas e infligiam, o que eles achavam ser choques eléctricos muito graves a outra pessoa, porque um cientista, quando interrogado pelos monitores mais renitentes, lhes dizia que “a experiência tem que continuar”. Milgram verificou que um número substancial de monitores chegava a um estado em que cumpria as ordens automaticamente sem protestar.
A emissão francesa, de 2009, recria este estudo dos anos 60. É criado um programa de televisão chamado “La Zone Xtrême”. Esta emissão tem o formato de um concurso televisivo misturado de reality show: No cenário decorre um jogo de perguntas e repostas, em que interagem concorrentes que respondem a questões e outros que os castigam, em directo, quando falham. Como na experiência de Milgram, aqueles que apanham choques são actores contratados e os concorrentes, não previamente combinados, são aqueles que dão os choques eléctricos. Em vez de um cientista a dar as ordens, temos uma apresentadora e um produtor. Na experiência dos anos 60, quase 61,5% das pessoas obedeceram aos cientistas e deram “choques  eléctricos mortais de 450 volts”. No divertimento televisivo este número chegou aos 81%!
Aparentemente, melhor do que a autoridade tradicional, para condicionar o comportamento das pessoas, é o espectáculo televisivo: para quê um patrão, um general ou um bispo, se podes ter ordens da Catarina Furtado ou da Cláudia Vieira.

Comentários

Pingback de 12/03/2010 | Escaparate | Tráfico de Influências | blog.fractura.net
Data: 12 de Março de 2010, 22:25

[...] cinco dias – Obediência espectáculo [...]

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