Para o João Pereira Coutinho, falar, nem que seja através de filmes-pipoca, de colonialismo só pode descambar em coisas primárias: louvaminhas dos bons selvagens e anátemas sobre o pobre homem branco.
«O que está ausente dessa visão é a ideia simplória de que a cultura branca, ocidental e judaico-cristã, apesar dos seus erros históricos (que os houve), também foi capaz de produzir uma civilização que garante ainda um espaço de liberdade, humanidade e decência que, muitas vezes, está ausente dessas culturas “intocadas”»
E o que está ausente desta espécie de pensamento é que uma crítica sobre o colonialismo não implica um genérico juízo de valor sobre as culturas em confronto. No mundo simplório de JPC, só há espaço para visões unidimensionais; quem ouse complexificar a nossa relação com as tais culturas definidas por pecados como «a arbitrariedade do poder tribal; a violência física sobre os mais fracos; o animismo pré-científico; e até a mera bruxaria terapêutica» (sic), está inevitavelmente a cometer «o primarismo de olhar para culturas distintas como intrinsecamente superiores à cultura branca, ocidental e, de preferência, judaico-cristã». Sabem qual é o sentimento que essas cáfilas de primitivos pelo mundo (e pelo celulóide) afora nos deveriam inspirar? «Só repulsa.»
Cá a mim, esta tontice causa-me mais hilaridade do que repulsa. Sobretudo quando penso nos bravos fundadores judeus da nossa cultura, que deveriam afinal morar no Ocidente e ser brancos – assim da cor do Charlton Heston a fazer de Moisés, suponho.
Só mais uma nota: o PPM, que na maior parte do tempo até dá provas de saber pensar, achou isto «Muito bom».




para se fazer um post sobre o Coitinho é pq este blogue está a ficar sem assunto
rip
touché.
mas
uma sociedade civil genuinamente aberta, onde a verdade é múltipla e falsificável e onde os poderes de mobilização política não estão sob controle hegemónico de interesses portentosos…sim, diria que é uma conquista de um sistema político, da democracia liberal.
seria sensato não esquecer que a nossa cultura já maltratou qb a democracia liberal. nos 30′s, o mais iluminado país Europeu, sucumbiu ao nazismo…e, alguns anos depois, foi implantado, literalmente, um sistema liberal democrata…que prosperou e consolidou-se. lá vai o essencialismo histórico do JPC pás urtigas. além disso, o JPC esquece-se que a nossa democracia pode muito bem ser manipulada e posta ao serviço da repressão do tal espaço da liberdade, humanidade e decência. o sistema liberal democrata produz as suas contradições. a extrema direita Europeia está aí, em boa forma. ela também faz parte das nossas tradições culturais. (mais uma vez a essência cultural pás urtigas!!)
as culturas tem essências, sem dúvida, mas no plural. são organismos complexos. um bocadinho de modéstia não ficava nada mal ao JPC. modéstia epistemológica. alguma humildade. para ser franco, categorizar culturas é coisa de megalomano.
diria mais até: não são raras as vezes em que é possível discernir práticas e rituais tribais em muitas democracias liberais (ocidentais)…
às vezes fico com a sensação de que só falta o Panoramix e a sua poção mágica.
desculpa pela sequência de ais…mas saiu assim. n tenho pachorra para rhetorical embellishments. desculpas.
mas o que eu queria mesmo dizer era isto. tou meio tolinho.
a avaliação ética de uma cultura, de uma civilização, não pode ser circunscrita ad absurdum ao critério político. nem nós podemos circunscrever uma interpretação da nossa cultura à dimensão política (o espaço de liberdade, humanidade e decência pode desaparecer num zapp…e aí…o que é dizemos?? que a nossa cultura foi pervertida pela nossa…hmmm cultura??? ou chegamos à inevitável conclusão que, afinal, não conhecíamos a nossa cultura tão bem quanto pensávamos??? não faz sentido categorizar as culturas assim. a única linguagem adequada para se descrever culturas é a da tipologia relacional. stratas, sedimentações…bolas…Deleuze era infinitamente mais brilhante do que Badiou com os seus sets eh ehe heh eh e
para ser franco, há fenómenos de radicalização política nas democracias liberais que me preocupam tanto ou mais do que certos fenómenos de radicalização política em culturas que não são, em termos gerais, liberais ou democráticas…
Pois eu acho que o gajo disse umas quantas verdades.
Verde Alface,
ele disse umas quantas verdades
o sistema liberal democrata é superior a qualquer outro.
e tem que emergir numa cultura política favorável.
o argumento do JPC é sólido, como é evidente
gostaria de o ouvir a dissertar sobre este assunto quando a extrema-direita Europeia conquistar um segundo ou terceiro lugar no PE.
Além disso, 40-50% da malta n vota. conheces a tua cultura política assim tão bem?? são todos democratas? tens a certeza?
o JPC é muito..hmmm…self-congratulatory…
caro verde,
esta passagem é linda de ler.
” (empiricism must be guided by) two basic principles: first, that ‘the abstract (i.e.Culture, mine) does not explain, but must itself be explained’, and second, that ‘the aim is not to rediscover the eternal or the universal (essence, mine), but to find the conditions under which something new is produced. ”
deleuze & parnet, dialogues II, columbia uni press.
o empírico prefere descrever as partes antes de categorizar o todo, como o mestre Deleuze demonstra, com inigualável perspicácia….
Este ezequiel fala que se farta…
Manuel Monteiro
Pingback: cinco dias » Como duas frases afugentam um Oscar™