A colecção de títulos de transportes públicos divide-se em duas secções. A primeira, que se define pelo formato das suas peças (85,60 × 53,98 mm, o chamado formato de cartão de crédito, ou ID-1), inclui essencialmente cartões de embarque de viagens aéreas (ou o que deles sobra, depois da entrada no avião) e bilhetes de metro londrinos, entre os quais uma considerável quantidade de travelcards (one day travelcards e family travelcards). A actual tendência para a realização dos check-ins das viagens aéreas na internet, com a consequente não emissão de cartões de embarque em cartolina e em formato normalizado, ameaça reduzir drasticamente o número de novas entradas na colecção por esta via. Por outro lado, a tendência para a desmaterialização dos títulos de transporte que se verifica igualmente nos transportes londrinos, com a adopção gradual, a partir de 2003, do cartão oyster, que se carrega e utiliza electronicamente, permite imaginar que também deste modo a colecção não aumentará o número das suas peças e, portanto, o crescimento desta secção irá a breve trecho cessar.
A segunda secção define-se por exclusão e compreende os restantes títulos de transportes públicos, ou seja, todos aqueles que não adoptam o formato ID-1, o que inclui – para além de uma selecção cuidada de bilhetes da Carris e do Metro das últimas décadas – tanto os bilhetes coloridos com eixo central castanho do metro parisiense (bilhetes “cegos”, que omitem data e destino, mas cuja cor permite situá-los no tempo, por ter variado, do amarelo dos anos setenta do século passado ao verde-água actual), como títulos de formas menos convencionais, relativos a geografias menos visitadas, e que, mutatis mutandis, estão para o resto da colecção, e para a primeira secção em particular, um pouco como a bandeira do Nepal está para as restantes bandeiras da comunidade internacional.
Ter é provar: com os canhotos dos cartões de embarque de viagens aéreas, que não registam o ano em que foram emitidos, pode conhecer-se apenas o número total de viagens realizado num dado período de tempo (grosso modo, durante a década que mediou entre a adopção do formato ID-1 e o abandono dos cartões de embarque em cartolina), assim como os destinos mais frequentes e as companhias aéreas mais utilizadas; já com os bilhetes londrinos é possível conceber, por exemplo, que em 25 de Junho de 1995 (um domingo) alguém se dirigiu a Clapham Common, presumivelmente à casa que em que a A.L. vivia nessa altura, que se calhar lhe levou uma garrafa de vinho branco, que depois do jantar festivo ouviu comovidamente um disco de João Gilberto, e que, nessa noite entre todas aventurosa, aventuras nocturnas igualmente viveu; que em 3 de Março de 1999 saiu na estação de Chancery Lane, perto da qual estava provisoriamente instalada a British Library of Political and Economic Science, que nessa época frequentava, e aventurar-se a imaginar a leitura luminosa que nesse dia poderá ter feito; que em 28 de Outubro de 2005 foi a Hampstead, revisitar Hampstead, lembrar-se dramaticamente do tempo que tinha passado em Hampstead e perceber como Hampstead (como ele próprio) estava agora diferente, e depois descer a pé pelo Haverstock Hill até Belsize e aí apanhar de novo o metro para o presente. Os títulos desta secção são também os melhores para marcar livros.
Com os títulos da segunda secção, alargam-se os horizontes geográficos e temporais que a colecção permite alcançar: cartõezinhos irregularmente picotados que custavam apenas tostões em Tânger há trinta anos, bilhetes de eléctrico que evocam as cidades coloridas da Europa Central onde ainda há eléctricos, peças de design avançado com línguas nórdicas lá escritas que se usavam ao desbarato nos metros e nos autocarros e os pequenos portugueses guardavam, no seu deslumbramento. Os títulos desta secção estão guardados numa caixa de cartas de jogar americanas, dos anos 50, que já se gastaram, tanto o uso que delas se fez, e que pertenciam à avó E.
Uma colecção de títulos de transporte serve pois o objectivo principal de propiciar recordações, de estabelecer ligações com o passado, mormente com aquele que é relativo a viagens (ou, neste caso particular, com os momentos menos breves mas sempre festivos de estadias mais prolongadas em Londres e Paris), o que é um modo como outros de prolongar a vida, criando múltiplos tendencialmente infinitos das situações vividas – outra forma de ser memorioso como Funes, ou como uma malinha de Cornell – com a vantagem de ser discreto e à clef: para o vulgo, 11 de Abril de 2008 não dirá nada, para o titular do título com essa data dirá tudo.




Onde é que V. estava no 11 de Abril?
Se não sabe, por que é que pergunta?
Belos posts. Aguardo ansiosamente a continuação da série, porquê limitá-la aos títulos de transporte? Tem aqui material para uma saga: bilhetes de cinema, entradas para concertos, talões de Multibanco, facturas de almoços, recibos de supermercado, multas de estacionamento, etc, etc (podia chamar-se “À la recherche du ticket perdu”).
Todo o material a que se refere está cuidadosamente guardado numa série de caixas no meu escritório; mal me reforme (aos 65 anos?), tratarei de revelar ao mundo esse vasto tesouro, que fui reunindo ao longo de uma vida de sacrifício.
Agora sim, um regresso em grande. Com os opiaceos corrigidos.
Obrigado!