Indícios de oiro (suite et fin)

Outras colecções significativas incluem: a de livros herdados, furtados e perdidos; a de livros lidos em aeroportos, e que aeroportos, e que relações entre latitudes, longitudes e autores, voos atrasados e obras completas, ou completamente lidas, e digeridas no vasto tempo que havia para esperar, e que, enquanto outros reclamavam alto das companhias aéreas, eram, mais que silenciosamente lidas, relidas e digeridas, e isso até à saciedade; nas prateleiras, belas obras e livros feios, livros belos e obras de merda, livros esquecidos e renascidos, livros esquecidos e para sempre perdidos, livros ensinados: era Verão, alto Verão, calor de dia, vida à noite, gelosias corridas, à espanhola, no corredor, na cozinha, ele fumava, eu bebia (escondidamente) vinho de Málaga, e eu fiquei a saber tudo, até de madrugada, da última reunião do Grande Conselho Fascista e da traição do Conde de Ciano, como dos prostíbulos da rue Troyon e arredores, onde primeiro circulava François Lamballe e depois o C. tinha a sua loja, onde em 75 eu ouvia a Mme R. contar as suas histórias, de enfermeira russa na Viena ocupada, a mesma Viena do Terceiro Homem, vim eu a saber depois, a mesma Mme R. que roubava indecentemente o C., vim eu a saber depois, de tudo isso vim eu a saber depois, ele contava-me tudo por igual, com o mesmo amor pela história, enquanto fumava e morria, também vim eu a saber depois. Colecções sistemáticas e sistematizadas de jornais que avós e mães insistiam e insistem em deitar fora (criam bicho, dizem elas, agora há a net, digo eu, para poder perdoá-las), colecções de cromos, de Ídolos do Desporto, Armando Manhiça: o 115 do futebol leonino; Djalma: a sua profissão é o golo, Gonçalves, o rapaz de Pedrouços, que insistia em abrir a janela do avião, até onde o futebol o levava, colecções de lugares comuns e a invenção desse belo idioma, o futebolês, que ainda hoje me persegue, e formata o meu português: diga lá, Senhora Morgada, são duros ou são rudes, os golpes assestados? Verdades como punhos, conheço-vos a todos, clássicos imorredoiros da minha língua. Colecções de coisas, por vezes tão belas como livros, porém mudas, colecções de gajas, todas mais ou menos queixosas de mim e eu não menos queixoso delas, colecções de colecções de colecções, que eu arrumo em discos rígidos, em pens, rumo à imaterialidade, e que um dia hão-de ficar debaixo de uma casa, que há-de ruir por causa de um terramoto, quando eu já estiver bem morto, espero bem, e o inelutável movimento das placas tectónicas confirmar (numa escala monumental) a absoluta inutilidade do meu esforço de sistematização e memória, brumas da treta, indícios de oiro coisa nenhuma.

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SEXTA | António Figueira
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4 Responses to Indícios de oiro (suite et fin)

  1. ezequiel says:

    ” …a de livros herdados, furtados e perdidos; a de livros lidos em aeroportos, e que aeroportos, e que relações entre latitudes, longitudes e autores, voos atrasados e obras completas, ou completamente lidas, e digeridas no vasto tempo que havia para esperar, e que, enquanto outros reclamavam alto das companhias aéreas, eram, mais que silenciosamente lidas, relidas e digeridas, e isso até à saciedade; nas prateleiras, belas obras e livros feios, livros belos e obras de merda, livros esquecidos e renascidos, livros esquecidos e para sempre perdidos, livros ensinados:…”

    bela prosa, compa António.
    gostei bt de ler este teu post
    isto é um miau de liãozinho :)

  2. ezequiel says:

    ” a sua profissão é o golo.”

    se o Tarantino lesse isto, usurpava-te logo a cena.

  3. Acho rude que exponha ao povo as minhas lacunas em futebolês.

  4. António Figueira says:

    Zeke,
    Eu não invento nada: Djalma era mesmo o homem de “o golo era a sua profissão”, como Artur Jorge (à época ainda na Académica) era “o homem do pontapé-moinho” na mesma colecção (podes dar o meu telemóvel ao Quentin).
    Morgada,
    O povo quer a verdade a que tem direito.

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