
Propriedade (uma casa de Mies, por exemplo).
Mercadoria (uma caixinha de robalos frescos).
Leio e espanto-me: choque e pavor – um seguidor e trabalhador de Mário Soares, do PS e de J. Sócrates (apelou muito “literariamente” ao voto Sócrates numa das suas croniquetas de Setembro passado), um tal sr. José Manuel dos Santos surge no último Expresso (caderno Actual”, 6/3/2010), contestando as escutas a Godinho, Vara, Penedos e Sócrates, com citações rebuscadas de – pasme-se! – Hannah Arendt, Kafka, Primo Levi e…. Giorgio Agamben (!??).
Lembro-me de um prefácio do saudoso Eduardo Prado Coelho ao meu livro A Representação da Vanguarda (Celta, 2002), intitulado “Movemo-nos na noite sem saída” (referência a Debord, naturalmente). O Eduardo acompanhou desde sempre o que escrevi, e no início contestava o estilo dos meus textos sobre arte. Dizia ele, com toda a razão, que a minha inicial prosa apopléctica e convulsiva não tinha concordância com os objectos que analisava, frágeis e sublimes. E tinha toda a razão – mantenho essa prosa noutros temas que não os “artísticos”, até porque em “tempos de J. Sócrates” isso é ético e obrigatório. Lembrei-me então disto, pois ver defender o “caso” de Vara, Penedos, Pedro Soares recorrendo a Kafka, Arendt e Agamben é algo que eu nunca esperaria encontrar.
Agamben então, que em tudo é contrário e mais do que afastado do “socialismo democrático” dos senhores dos Santos e M. Soares! E porque não se deve utilizar teses e pensamentos que em tudo nos são opostos para sustentar aquilo que pensamos? Porque naturalmente o texto sai trôpego, errado e invertido em relação ao que pretendíamos. Note-se que o senhor dos Santos, neste referido último “Actual” utiliza a reflexão de Agamben sobre o “estado de excepção” para contestar as escutas e divulgação das escutas a Vara e cia. E porque é que o texto do senhor dos Santos soa a coisa absurda? Vejamos. Comecemos pelo conceito e apropriação ou reelaboração do tema “estado de excepção” em Agamben.
Stato di Eccezione: Homo Sacer II, 1, (État d’Exception: Homo Sacer), foi escrito em 2003, e é a primeira parte do segundo volume de um projecto de investigação que já vai no quarto volume. Primeiro e terceiro escritos anteriormente, assim: Homo Sacer I: Il Potere Sovrano e la Nuda Vita, 1995; Quel che Resta di Auschwitz: Homo Sacer III, 1998. Em 2007 saiu Il Regno e la Gloria, o Homo Sacer II, 2. Resumiremos esta trajectória de investigação da seguinte maneira: temos uma crítica radical das sociedades capital-parlamentaristas (o termo é de Badiou, como se sabe), para as quais há um paradigma de estruturação; para Agamben, esse paradigma das nossas sociedades é o campo de concentração. [Ler até ao fim, sff]
Abreviadamente diremos que, num primeiro momento, e prolongando Michel Foucault, trata-se de verificar como é que a esfera da vida foi entrando no campo da política: “vida nua” e “biopoder” (a actual “gestão da vida” substitui o antigo “poder de dar a morte” do soberano) são conceitos centrais. Num segundo momento da investigação (o actual), verificar-se-á qual é o mecanismo que permanece a constante das actuais soluções governativas (e note-se que Homo Sacer é um projecto anterior ao 11 de Setembro e a Guantánamo): o mecanismo que nos governa é o “estado de excepção”, cuja teoria é inaugurada por Carl Schmitt.
A “excepção” — ou suspensão da ordem jurídica — tem no campo de concentração a sua desnudada expressão, como já Agamben observara em 1995: “O que se produziu nos campos ultrapassou de tal modo o conceito jurídico de crime que, em geral, nós até nos esquecemos de considerar a estrutura jurídico-política específica através da qual esses acontecimentos foram possíveis. O campo não é senão o lugar onde se realizou a conditio inhumana mais absoluta jamais existente sobre a terra” (Mezzi Senza Fine). Digamo-lo de outro modo: o campo é o paradigma da “sociedade do espectáculo” de Guy Debord, a quem aliás Agamben dedica Mezzi Senza Fine.
O campo não é um facto histórico ou uma anomalia do passado, o campo é a matriz secreta do mundo presente. Agamben analisa os historiadores que pretendem saber se o campo nasceu na repressão dos insurgentes de Cuba em 1896, ou na repressão dos Boers, e conclui que o “campo” existe quando a toda uma população é possível aplicar um estado de excepção permanente. Agamben faz notar que este estado de emergência permanente (bem ilustrado na “guerra infinita” de Georges W. Bush, e na necessidade que a “democracia” americana tem da guerra para sobreviver) mistura as chamadas democracias com o totalitarismo. Porque desde 2001, e abertamente depois do 11/9, as detenções indefinidas, os direitos de detenção e observação do estrangeiro, as comissões militares e o que, noutro lugar, o próprio Agamben chamou de “tatuagens biopolíticas” (em texto para o Le Monde, 11/1/2004, Agamben explicou porque se recusou a submeter aos novos processos de controlo para entrar nos EEUU, não leccionando por isso na Universidade de Nova Iorque) são a ordem democrática vigente, assim evidente nos prisioneiros de Guantánamo: “Os talibans capturados no Afeganistão não apenas estão interditados de usar o estatuto de “prisioneiros de guerra”, segundo a Convenção de Genebra, mas também não são culpados segunda a lei americana”. Detainees, eles são a “vida nua” indefinidamente aprisionada que ultrapassa qualquer “sentido temporal” do termo.
A “vida nua” é a do homo sacer, alguém que pode ser morto sem que esse acto seja considerado homicídio; homo sacer vem do latim e do direito romano arcaico, significa sagrado, mas também maldito, abominável e infame, o homem como puro “animal vivo”.
Para que a vida não se separe entre a “vida natural” e os atributos que a diminuem (identidades jurídico-sociais como “eleitor”, “judeu”, “economista”, “comunista”, “polícia”, etc, etc), Agamben propõe a noção de “forma de vida” (aproximável ao “ser qualquer” do seu La Comunitá che Viene). Mas a actualidade é um tempo bem mais perverso – na actualidade, mesmo as identidades jurídico-sociais não têm quaisquer direitos: no campo de concentração, o judeu era “judeu”, em Guantánamo, por sua vez, o prisioneiro é uma “vida nua indeterminada”. É o nada vivo.
Ao longo do livro Stato di Eccezione há uma questão constante: pertencerá o estado de excepção à ordem jurídica ? Para tal, Agamben percorre o pensamento de Carl Schmitt, que se resume deste modo: o estado de excepção é um “ser exterior que pertence”. Ou seja, Schmitt considera que a suspensão da norma jurídica contém sempre um elemento jurídico: a decisão do soberano é legal. Este, aquele que pode decidir a “excepção”, é uma parte da ordem jurídica, logo, a decisão da sua suspensão não pode deixar de fazer parte dessa ordem. Portanto, Schmitt tenta sempre inscrever a hipótese da violência na lei.
Agora, o caso português das escutas. Porque é que estas e a sua divulgação não configuram o “estado de excepção” como o senhor dos Santos pretende e não tem a subtileza teórica para o entender? O “estado de excepção” é chamado por Agamben à actualidade porque vai caracterizá-la como sendo… a sua norma: a excepção tirânica é hoje normal, digamos. Ou seja, se as escutas que temos vindo a conhecer de Vara e outros forem consideradas e/ou validadas, suponhamos em tribunal, tal significa que estes senhores se apropriaram indevidamente do poder político para fazer aumentar o seu património, negócios, interesses, etc. – em resumo, para multiplicar a propriedade de que são detentores, possuidores.
Ora, este enriquecimento ilícito (alegadamente ilícito, suponho que é assim que se tem de dizer) deveria ser considerado coisa “excepcional”, mas não é: hoje é a norma. Diremos que a excepção (o tráfico e o roubo) foi normalizada, a excepção é a norma. Então, o que é a excepção a esta “excepção tornada norma”? Deverá ser a descoberta da verdade; precisamente as escutas, ou através das escutas (se outro modo não houver). Portanto, ao contrário do que diz o senhor dos Santos as escutas não são a excepção, mas antes a excepção da excepção (portanto, a excepção da “norma”, “norma” que é a propriedade ou o roubo, como diria o velho Proudhon).
Quer dizer, as escutas a Godinho e Vara são a excepção, sim, mas a excepção que pode combater a “norma” em que o tráfico de influências se tornou (independentemente de Vara e Godinho virem ou não a ser condenados, pois estou a especular apenas genericamente). Deste modo, não se deve citar aquilo que não se entende. Muito menos em benefício daquilo a que a fonte citada sempre se oporia. E se oporia em absoluto (e se Agamben visse um destes “socialistas democráticos” a usá-lo não gostaria nada certamente).
Concluindo, os “socialistas democráticos” estão desesperados de todo. Vá lá saber-se porquê, eles que têm sido o único poder ocidental nas últimas décadas.




C. Vidal: Não dê muita importância ao caso. O JM dos Santos quer impressionar, é o termo, o forte clan Soares. Como demorou 30 anos a escrever no espaço público, ele agora tem que aproveitar tudo para exibir os seus dotes – empirismo e anacronismo – e solidificar os laços com os comparsas que estão no poleiro. Niet
Desculpe o atrevimento, mas um artista plástico, mesmo que conhecido e distinto Professor, não pode compreender (atingir) a profundidade do pensamento socrático.
Recomendo-lhe:
http://aspirinab.com/valupi/ser-do-ps-aumenta-a-inteligencia/
Cumprimentos e boa digestão.
Toda a razão, caríssimo manuelmgaio, quem somos nós perante este eixo de pensamentos e pensadores: Sócrates, Platão, Arendt, Kafka, Primo Levi, Giorgio Agamben, sr. dos Santos, e, de novo, Sócrates (o J.).
Carlos Vidal: Isto não é um COMENTÁRIO. Só um desabafo: Ontem no seu post sobre Os Combates de Mário Soares, cortou um take meu. O take tinha-me saido mal, a vários títulos. Sabe que estas coisas são muito melindrosas. Tem o meu e-mail. Acho que lhe mereço, já, o mínimo de consideração para me avisar. Para que eu concorde ou rectifique. O Rui Bebiano demitiu-se por causa dessas
coisas. E eu empenhei-me em contar toda a história para o favorecer a si, meu caro, em especial. Se bem o compreende. Salut! Niet
ISTO Não é um Comentário !
Carlos
O que está na foto são carapaus
Bem sei que os robalos estão carissimos, mais ainda se forem legítimos e não de cultura
É peixe que só em rarissimas ocasiões é dado à vara larga
(Caríssimo Niet, não tenho nenhuma ideia de ter feito o que me diz: cortei-lhe um “take”? refere-se a um comentário? Veja bem no post, não deve ter razão.)
propriedade e mercadoria, boa! em que volume já vai? estão todos editados?
o socialismo democrático mais uma vez solucionou mais simplesmente, eternos imbecis os da desnaturalização dos direitos humanos, no fundo o triunfo de um nominalismo radical. O nome dos imbecis, dos interesses privados e da extrema perversão.
Citava citava, o próprio e muito nos bares de nuit em Paris.
Mais um post esclarecedor do Sr. Vidal… Sinceros parabéns!
Nada a acrescentar, senão as mesmas banalidades (elitistas) do costume:
O analfabetismo é a água por onde nadam os robalos e os carapaus que (graças a Deus não/jamais/nunca/só na sala de espera do consultório) lemos pelos jornais. O Sr. Vidal lá pescou mais um para a sua caixinha de coleccionador, que se vai fazendo pequenina – sobrará espaço, com tanto robalo a nadar diariamente bem à superfície dessas águas putrefactas que são os média?
Por coincidência, estou a acabar de ler um livro escrito por alguns amigos que Agamben tem por Paris (le “comité invisible”): “L’insurrection qui vient”.
Neste livro, em que o património teórico de Debord (que cada ano que passa se torna mais actual) é uma força viva, algumas das análises de Agamben são usadas para mostrar-nos que o radicalismo das circunstâncias que hoje vivemos não podem levar a outro lugar que não seja… a revolução.
É também este o sentido que dou à leitura do seu post, sr. Vidal.
psd
(não confundir com um qualquer outro – msp?- que também gosta de assinar o que ele próprio, e só ele próprio, ou seja, mais ninguém senão ele em pessoa, escreveu)
Sigamos o Cerne, inspector Vidal, sigamos o Cerne : Rapoula, Valhelhas e Covadoude.
O resto são balelas : aqua- (não alta)- cultura.
p.s.d. da boa fé, também acho isso. Chamemos-lhe revolução ou qualquer outra coisa, mas nunca se pense numa mudança, melhoria (que deve ser mais do que “reforma”) ou emancipação por via chamada de “eleitoral”.
estão desesperados por vias da dessimbolização, da morte do pai e seguintes.
pois é, a única democracia que podemos ter é a do consumo, que as várias formas de investimento corporal com as quais nos deparamos seriam algo como a emergência do Real lacaniano, que é impossível o exercício crítico, que assistimos ao fim das utopias, ao fim do real, à hiperrealização da vida, à emergência do biopoder como possibilidade única do político, à transformação do labor na essência de todas as relacções sociais, à conversão da “vida nua” em investimento cultural, político, existencial.
está a ver, a natureza é mais forte do que a geometria arquitonta. Ao abrir das cortinas lá nos deparamos com a floresta dos niebelungos em movimento. Quanto ao fosgluten não há Shylock que aguente, fede.
finalmente, a mercadoria-oferta da tipo “A”.