… e eu guardarei o último!

A primeira coisa que me apraz assinalar no vigésimo aniversário do Público é o facto de este já não ser o meu jornal, embora lamentavelmente ainda seja o que mais vezes comprei na vida. Ultimamente, confesso, tenho usado o I para consumo diário. Apesar de se encostar ainda mais à direita liberal está com a chamada tesão da alvorada, o que o leva a investir com outro brio (reportagens, reportagens, reportagens) no seu produto. A Bola poderia ser o meu mais lido mas o facto de a Briosa só me motivar nos primeiros dois meses de cada época e de querer saber do mundo todos os dias levou o Público a levar vantagem.

Disse lamentavelmente porque cada vez é mais difícil perceber o que se passa no mundo, lendo, entre outros, o Público. Valha-nos a informação alternativa e a internet para não andar como a avestruz e ainda por cima convencida de ser uma cegonha.

A estratégia levada a cabo pela maioria dos grupos económicos levou a que se tratassem as noticias como os empreiteiros de segunda tratam o cimento, ou seja, com demasiada areia na mistura. São cada vez mais os castelos de cartas e os relatos da corte e cada vez menos a parte da vida que interessa. Há cada vez menos jornalistas e cada vez mais precários. Há cada vez menos reportagem e cada vez mais agenciamento. Há cada vez menos notícias e cada vez mais curiosidades… pode assim resumir-se por defeito.

Não posso brindar às Teresas de Sousas ou aos Josés Manueis Fernandes que por dentro do ofício foram dos que mais conspiraram contra ele. Não posso brindar à cobertura feita pelo primeiro do conflito israelo-árabe financiado pela Embaixada de Israel em Lisboa nem posso brindar ao euro-fanatismo da segunda. Não posso brindar aos 95% dos colunistas que são verdadeiros oleiros do pensamento único e aos demasiados jornalistas que desistiram de tentar. Não posso brindar a quem quer que queira transformar a minha lida num simples segurar de microfone.

No contexto mediático em que vivemos há que saudar os bons trabalhos que aqui e ali se vão arrancando a ferros, com muita ginástica orçamental e política à mistura. Há por isso quem esteja de parabéns e nos últimos vinte anos de Publico também. De alguns dos que o Paulo cita há pelo menos quatro ausências imperdoáveis: o Adelino Gomes, a Alexandra Lucas Coelho, o Luís Afonso e o saudoso João Mesquita.

A muitos dos seus trabalhos brindo, ao resto não.

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10 Responses to … e eu guardarei o último!

  1. Leitor costumeiro says:

    Renato. Compreendo a tua opinião, não é a minha e como disse já num comentário ao post ao qual te “colocas na oposição”, o Público é bem feito e é o melhor que se pode encontrar no país. No entanto, -e nisso tens razão- o “agenciamento” existe e há demasiados opinadores a despejar erradamente muito do que é só seu. Mas acho que como eu, brindas a quem te dá mais uma arma e te instiga a procurar mais e melhor informação. Claro que os que lêem o que nele se escreve, podem por vezes ser induzidos para esta ou por aquela opinião, mas isso leva-nos a um problema bem maior que o própio Público.
    Cumprimentos.

  2. xatoo says:

    Ufa. Estava a ver que este assunto passava incólume pelo 5Dias sem levar umas merecidas bordoadas. 20 anos de edições com um principio mais ou menos digno com VJS e 8 anos de agit-prop pela instauração à bomba da democracia no Iraque. Está bem assim Paulo Jorge Vieira?.
    Há certos projectos “imprensariais” que não são dificeis de entender. A linha geral do Público é neoconservadora (com opinião diversificada à mistura para disfarçar; uma verdade disfarçada mente muito melhor que uma meia mentira)
    O Público existe como veiculo de promoção da Sonae e dos projectos internacionais em que o grupo é testa de ferro. O jornal em si só dá prejuizo. Neste caso “o mercado” não funciona. O jornal tem uma tiragem de 29.000 exemplares (o JN mais de 85.000) contra 115.000 do Correio da Manha o que dá bem uma ideia do tipo de leitura “do qué ka nossa malta gosta” e da importância da “opinião”. Coisa de elites.
    Resta saber por que arranjinhos não transparentes se financia o Público, uma vez que não e credivel que o nosso engenheiro espertalhão perca muito cabedais com a sustentação da coisa

  3. LAM says:

    xatoo: “O Público existe como veiculo de promoção da Sonae e dos projectos internacionais em que o grupo é testa de ferro. ”

    Internacionais e nacionais, acrescento. Ou alguém já se esqueceu da campanha de intoxicação que fez o Público durante quase um ano, aquando da célebre OPA à PT, argumentos esses em que se alicerçou opinião de muito “boa” gente?

  4. Niet says:

    Bom post e bons comentários. É claro que a Blogosfera causou problemas enormes nas Redacções nacionais. A concorrência era, e é, tão grande que o Público, principalmente, quase que ” obrigou” os seus estagiários a lerem e resumirem o NYTimes, o Guardian, o Canard Enchainé…Quem percebe, um mínimo, dá-se conta. Como deixei de ler o Internacional, não sei se o ” fado ” continua. Mas quem deu o sinal, o exemplo e o estilo para tal foram os Blogues, há já uns anitos. De qualquer das maneiras, acho que os 20 anos do Público nos servem a imagem mais real, mais contraditória e mais exposta da Gestão das Superfícies Imprimidas nacionais, onde a máxima de Adorno sublime sobre o” uso da mentira para enganar a verdade, suspeita de se recusar à reflexão autónoma”, nos torna involuntariamente cúmplices de muita violência e terror. Niet

  5. Renato Teixeira says:

    Leitor Costumeiro, o facto de determinado produto ser o melhor que temos na praça, e isso foi verdade durante muitos anos com o Público (volto a dizer que acho que o i está melhor mas admito que possa ser de pouca dura…), não faz desse produto um produto bem feito.
    De resto o Leitor Costumeiro diz porquê: “o agenciamento existe e há demasiados opinadores a despejar erradamente muito do que é só seu”. Naturalmente brindo aos trabalhos que nele me fizeram pensar, mas curiosamente não conto entre esses trabalhos os maus.
    Não consigo brindar aos bons (e volto a dizer que existiram e alguns deles foram mesmo muito bons) sem lembrar os maus, e infelizmente os segundos são a cada ano que passa em maior número. Cumps.

    Xatoo, o 5dias é capaz de não ser a melhor tasca do mundo para quem procura um farol para nos guiar à linha justa. Pelo que já li de si, em comentários e no seu blogue, percebe-se que tem sentido crítico, o que admiro, mas tem uma tendência desgraçada para procurar sangue onde ele não tem necessariamente que existir.
    A diversidade é uma patranha vendida como o único caminho para as organizações políticas na esquerda à esquerda do costume. “Se não é diverso não é moderno” dizem para de seguida ir a correr para a coisa mais caquéctica que a filosofia politica ainda vende que é a teoria da não centralidade.
    Num blogue colectivo com grande amplitude política não poderia ser de outra maneira. É o melhor fertilizante da troca de argumentos, histórias e ideias.
    Sobre o Publico, estamos previsivelmente de acordo. ;)

    LAM, é evidentemente a montra barata para os produtos e projectos da SONAE onde quer que ela exista e para onde quer que ela cresça. No concreto dos temas posso dizer que foi raro, o tema político em discussão, do desporto à cultura, do nacional ao internacional, onde o jornal não tivesse uma postura editorial. Vi mais a mão do Belmiro no Publico do que a mão do Jacques Rodrigues na Focus. A diferença entre os dois é o jeito com que metem. A qualidade permite ao mais jeitoso ter sempre mas mãos quentinhas e o segundo quando as decide meter parte tudo à sua volta.

    Niet obrigado pelo elogio. Salvo erro é o primeiro que lhe arranco e ainda por cima num comentário em que subscrevo cada virgula do que afirma. A citação é quase tão boa como a de Debord aqui: “No mundo realmente revirado, o verdadeiro é um momento do falso”.

  6. Guardar o último…o Público nasceu quando o Diário de Lisboa morreu mergulhado numa crise financeira… que me deixará para sempre mais recordações que qualquer crise futura…Se tudo continuar como está -poderei dizer – que me deixará para sempre na merda!

  7. Niet says:

    Sabe, confesso-lhe, que me sinto por vezes um intruso.Tudo por causa de recear muito os espartilhos ideológicos.E, acima de tudo,as grilhetas da mentalidade das pessoas em geral. Claro que Adorno- o diabólico como lhe chamou Lyotard- influenciou muito Debord, Foucault e muitos outros. É um materialista puro e heterodoxo, com coisas muito belas e profundas sobre Sade, Benjamin e Kant, em especial sobre este último que resumiu de forma magistral em 3 páginas na Dialéctica da Razão… ” A classificação é umas das condições do conhecimento, mas não é o próprio conhecimento,
    e o conhecimento destrói por seu turno toda a classificação “, apontava o autor de Minima Moralia. Salut! Niet

  8. jorge says:

    Apesar de todos os defeitos que tem, ainda continua a ser o menos mau.

  9. p. s. d. da boa fé says:

    Prefiro a Bola, que nunca mente nos resultados dos jogos da 3° divisao, e o Borda d’Água que nao mente nas datas para fazer as sementeiras.

  10. Renato Teixeira says:

    Boa fé… boa fé… já nem a bola é de confiança… nem a bola. No outro dia o Tourizenze tinha ganho 4 a 1 ao Estrela da Nossa Senhora do Monte e os malandros esqueceram-se de referir o ultimo golo. Inacreditável. :)
    Quanto ao Borda d’Água de acordo embora haja a sublinhar algum conservadorismo. Nunca referem as melhores datas para o cultivo da cannabis…

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