Meritocracia

Como a briosa acabou de ser arredada da luta pelo título (ainda que sem a toalha atirada ao chão na batalha pela Europa), com o Benfica na mó de cima e estando todos os males ditos sobre o Porto, o Sporting vai continuar a ser a minha vítima. Digamos que tenho uma costela chinesa e estou a viver o ano do Lagarto (será que existe?). Os 3-0 ao Everton e os 3-0 ao FCP, apesar de aparentemente lisonjeiros, servem acima de tudo para valorizar os 1-2 com a Académica pelo que não podia deixar de o lembrar antes de mergulhar no assunto que me trás hoje aqui.

O motivo de resgatar o Paulo Bento são dois:

O primeiro é que ele está no desemprego e num acto de solidariedade venho desde já sugerir à Naval, à União de Leiria e ao Belenenses que o contratem. Para além de serem estádios cheios de gente, com médias entre os 500 e os 2000 espectadores, são clubes aos quais desejo longa vida na primeira divisão.

O segundo é que acabou de participar (com honras de orador principal) num evento intitulado:  “Como chegar ao topo – Futebol de Alto Rendimento”.

Como sempre me emociono com meritocratas não pude deixar de escrever umas postas sobre o assunto. Vamos a isso:

A Meritocracia é dos conceitos ao qual a economia de mercado e os seus sistemas políticos compatíveis mais fazem propaganda. Quem é bom, quem tem qualidade, quem supera fronteiras será sempre recompensado na “nossa” sociedade. Pode nascer rico ou pobre que se o cidadão desenvolver ou tiver (muita polémica entre estes dois) muito mérito, verá as tuas qualidades reconhecidas e tem o mundo nas mãos.

A venda dessa ideia começa no Baby Tv e na MTV da infância à adolescência, passa pelo canal História, a Sport TV e a Odisseia na meia idade e na RTP Memória quando já somos velhinhos. Sempre a mesma lenga lenga. Vencer! Vencer! Vencer! Em cada programa. Em cada publicidade. Sempre aquele famigerado vício na vitória. Perseguimos sempre aquele feito, aquele tocar de céu, aquele pico da onda… aquele… aquele qualquer coisa que ninguém sabe bem o que é mas todos dizem perseguir e todos garantem saber onde está. Na escola, no trabalho, nos grupos de afinidade, na família ou simplesmente o senhor do quiosque, o pica do bilhete do metro e o taxista de ocasião, todos nos lembram que é no mérito que está a receita do sucesso.

Crescemos, e mais cedo que tarde descobrimos que isso afinal não importa nada. Rapidamente o provamos. Não importa o quão pobres sejamos que encontramos sempre alguém mais pobre e simultaneamente mais esperto que nós.

Porra lá se vão as aulas de piano e as horas a fio à volta de equações e dilemas filosóficos. Ai que afinal de nada vão servir nem as mãos calejadas nem as pestanas queimadas.

Quem quer chegar ao topo tem é que ser bom a não se zangar com o insuportável cunhado do primo da vizinha. Isso, ou ser como o Paulo Bento que eu não sei explicar como é que é.

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3 Responses to Meritocracia

  1. p. s. d. da boa fé says:

    Primeiro, nao fales mal do Paulo Bento que é sobrinho-neto de uma prima em segundo grau da (antiga) melhor amiga da ex-cunhada do sr. Banha (o dono da tasca aqui da Boa Fé). Ai, ai…
    Segundo, sabes que sou um gajo ambicioso, que pretendo fazer carreira, dar entrevistas nem que seja ao Avante e, um dia, quem sabe, chegar a presidente aqui da Junta (conto com o teu apoio e fica a saber que o tetra-avô de uma prima direita do meu pai acreditava em Alá). Por isso, pára lá de rogar pragas a esta sociedade que eu tenho a certeza que ainda vai encontrar maneira de reconhecer as minhas qualidades (lembras-te do Vata? Primeiro nao prestava para nada; depois marcou um golo com a mao ao Marselha e passou finalmente a ser apreciada a sua maneira desconchavada de saltar para a bola nos cantos).
    p.s.d. (vou passar a assinar, como faz e muito bem o MSP, para todos saberem que afinal fui mesmo eu que escrevi esta preciosidade – e nao um qualquer assessor)
    ps: em que canal passa a BabyTv (isso é para as maes que estao a amamentar ou já é para incutir os Smarties, os ovos Kinder, a sociedade do automóvel e outras maravilhas igualmente dignas de apreço à mini-pequenada?), ou andas a gozar com os gajos que nao têm tv e essa porra ainda nao foi inventada e só vai inaugurar em 2014 (juntamente com a Dogs&CatsTv, concebida para acalmar os animais domésticos hiper-activos)?

  2. p. s. d. da boa fé says:

    Agora a brincar:
    esta sociedade representa, através da publicidade, cada um de nós como um super-indivíduo, capaz de conquistar mil mulheres cada uma mais mamuda que a outra (pelo consumo de um Whiskey ou de uma cerveja), de viajar pelos sítios mais inóspitos (pela compra da carrinha da marca X ou Y), de ser mais livre que Bakunine (telefonando com a Vodafone), de ter acesso a uma imagem mais nítida que a imagem real (comprando um aparelho Sony). A Ikea vem-nos também dizer que o nosso lar é o lugar mais importante do mundo.
    Acresce que o Sócrates e o Cavaco nos juram a pés juntos que todos os dias trabalham para dar-nos um país, um quotidiano melhor.
    Ou seja, de repente temos um mundo que nos diz que estamos no centro de todas as atençoes: a toda a hora somos bombardeados com representaçoes (mentirosas, falsas) de nós próprios enquanto super-indivíduos (ou pequenos reis) no centro nevrálgico da acção política e da produção da grande indústria.
    Noutro tempo, era o rei e só o rei (mais meia dúia de vassalos) que estava no centro de tudo o que se produzia (pintura, música, mobiliário, arquitectura…). Hoje, toda a propaganda ideológica coincide em colocar-nos no centro nevrálgico de tudo o que se produz: móveis, telemóveis, automóveis, apartamentos, hambúrgueres (ficas a saber como é que se escreve), concursos de tv, cançoes, perfumes, shampôs, iogurtes, jornais, noticiários e toda a restante tralha de mercadorias duvidosas, poluídas e falsificadas que tão bem conheces.
    Ora, não é de espantar que a meritocracia, com a sua lenga-lenga do VencerVencerTriunfarSerMelhorSerMaisForteMaisAgressivo, se imponha gradualmente numa sociedade estruturada à volta do mito do super-indivíduo.

    p.s.d.
    (não confundir, apesar de rimar, com o genial msp)

  3. Renato Teixeira says:

    Smarties, Ovos Kinder? Acho que o senhor P.S.D. está a modos que um bocado desactualizado. Olhe que assim nem a irmã da prima do vizinho o safa. Nem com Alá nem com nosso senhor Jesus Cristo.
    Vata, quê? Esse não vale uma perna do Febras nem um calcanhar do Mickey. Esses sim. A verdadeira equipa de sonho. E ainda o Latapy, o Lewis, o Roma ainda sem cabelos brancos… Pena é nunca ter jogado na primeira divisão. Mas ao menos tinham estilo a marcar os cantos. :)

    agora a brincar…

    Essa do Ikea de facto fica no anais da história. Essa e aquela do crédito à habitação com a Sara Tavares a cantar num bairro fantasia com umas balelas sobre o lugar mais importante do mundo. Enfim. Em casa e caladinhos, e de preferência com a tv ligada em aos altos berros. Não vá o pirralho falar em surdina alguma coisa de jeito. Comunistas!

    Abraço.

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