Fui hoje, inadvertidamente, exposto a um dos grandes enigmas da civilização lusitana. Ouvi uma rádio emitir, assim de seguida e sem aviso prévio, uma canção da Mafalda Veiga e outra do Luís Represas.
Abrenúncio. Mas o que é aquilo? Letras pretensiosas em constante batalha com a métrica; cancões banais e encaracoladas, que nem orelhudas conseguem ser; intérpretes esganiçados e já well past their prime.
Quem consumirá este neo-nacional-cançonetismo execrável? Quem gasta o euro duramente angariado nestes discos, nestes “concertos”? E que espécie de estação radiofónica contamina o éter com tal lixo?
Agridam-me antes com o Emanuel: é pobrezinho e foleiro, mas honesto.




Os meus sinceros parabéns por, depois de Mafalda Veiga, ainda ter aguentado com o trivial do Represas… Já percebe porque é que a malta emigra. Não é só pelo pão que nem sempre chega à mesa, é também pela falta de estímulo para o espírito…
Não foi martírio voluntário. Estava a tomar banho e alguém mudou o rádio central…
É tristíssimo, mas para lá da mui repetitiva Antena 2, já nao nos restam emissoras para sintonizar o transístor. Por sorte, aqui onde moro, em AM, apanho todas as noites emissoras do norte de África com música muito razoável. Valham-nos as ondas hertzianas islâmicas que, lá bem do alto, ainda vao resistindo ao lixo estético predominante neste Ocidente apático e repugnante (Ei Renato, esta era para ti…).
É triste o estado em que a Antena 1 se tornou. Muito triste mesmo. Passa uma imagem de mediocridade e de passadismo da música portuguesa que, efectivamente, não se concretiza no panorama real. Basta ver o caso dos Dazkarieh, projecto bem interessante que recria com arranjos modernos a música tradicional portuguesa. Têm um percurso bastante destacado no Centro da Europa, em particular na Alemanha, com dezenas de cocertos, mas são relativamente desconhecidos em Portugal. E podia dizer muito mais nomes: Diabo a Sete, Pé na Terra, Luísa Amaro, Melech Mechaya, Mandrágora ou o grande (enorme) Rodrigo Leão. Muito mais do que um grande compositor português, um dos grandes compositores da actualidade, mas não tem espaço na rádio pública…
Se concordam com esta ideia, assinem a petição que por aí circula:
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2009N490
(petição por uma Antena 1 mais divulgadora de música portuguesa)
O problema não é só com a divulgação de música portuguesa, é mesmo com a ausência, salvo raras excepções em programas de autor pontuais, de criatividade musical na rádio, de valorização da diferença, de qualquer tipo de divulgação musical, seja nacional ou internacional. Mas é um início…
Pois é! Agora pensem: o que é que distingue um “CD” do Represas – ou da Mafalda – de um “POST”? Muita coisa, é certo. Mas o estímulo acaba por ser o mesmo – quando se define estímulo, claro está, como finalidade espiritual, como forma de mudar. Oh Portugal POSTUGAL!
Tivesse a série continuado com João Pedro Pais, Polo Norte e André Sardet e teria sido uma sessão de tortura.
Acho que foi Zappa, Frank que usou as muito sábias palavras: “Kill ugly radio”
HelderEga,
Iiih, os Pólo Norte! Nas palavras de um amigo meu, “os delfins dos Delfins”. O piorio, portanto.
p. s. d. da boa fé ,
Isso já não é de agora: há 30 anos, formei grande parte do meu gosto musical com um programa espanhol chamado “Musica en la noche”, que ouvia religiosamente uma vez por semana.
“Quem consumirá este neo-nacional-cançonetismo execrável?”
A resposta é simples: quem gosta. Serve?
Mas precisamente; é essa a raiz da minha perplexidade. Imagino quem ouve Quim Barreiros, Debussy, Zeca Afonso. Mas não consigo ver ninguém com ouvidos e neurónios a funcionar capaz de se gastar em empresa tão manhosa e carente de recompensas.
Pois, mas ser democrático implica esse exercício de imaginação.
Não consegues ver ninguém com isso? Podes começar por quem mudou a estação enquanto tomavas banho… Acho engraçado é ao argumento do “mau, mas honesto”. Engraçado, é como quem diz. É de um moralismo um bocado bacoco e descolado.
Acho que foi a minha namorada, e de propósito para me irritar. Quanto ao “moralismo”, não estou bem a ver a relação. Mau é mau e pronto.
Na mouche!
Costumo dizer quando disserto sobre a oposição Toni Carreira e restantes pimbas. Dêem-me Nel Monteiro ou até Emanuel, mas não me venham com carreiras. É execrável.
Luis Rainha, explique lá porque é que uns são honestos e outros não. Eu acho que o Pedro Lourenço também acha que o Nel Monteiro e o Emanuel são honestos e honrados, e o Toni Carreira não, vá-se lá saber porquê. Eu, por acaso, até já ouvi destas muitas vezes, mas sempre me intrigou um bocado. Desconfio que tem a ver com o facto de uns só se quererem divertir e divertir o público (o ganda maluco do Quim Barreiros, por ex.) e outros só quererem ganhar dinheiro à custa dos papalvos dos seus fãs. É deste moralismo que eu falava. Posso estar enganado.
Ó Torgal: e porque razão o imbecil do Rodrigo Leão é diferente do Represas ou do Nel Monteiro? Musicalmente, a base é a mesa: três acordes! Sempre os mesmo três, sem variar. Só que o Emanuel assume isso, e vende uma imagem popular e festiva (ainda que considerada pimba), enquanto que os Madredeus, o Leão ou o Represas vendem uma imagem de intelectualidade e sensibilidade. Mas a porcaria é a mesma. A Música é exactamente a mesma, só que com uma “roupagem” diferente. Poderiam vender iogurtes (uns naturais – como o Emanuel – e outros com as palavras “cremosos especial extra” na embalagem – como os do Represas, apesar de serem todos feitos de leite e levedura), poderiam vender canetas, mas vendemm discos. É uma indústria como outra qualquer: em nenhuma circunstância de chama arte ou artistas. Em nenhuma circustância se pode dizer que o abuso simplista, básico, resignado e descartável dos mesmos três acordes por esses ditos “artistas” poderá ser considerado música ou abordagem estética.
Há que ser honesto: Marco Paulo é básico, mas assume-o honestamente e até canta com boa voz. Os Madredeus ou o Leão são tão básicos como o Marco Paulo, mas fazem-se passar por uns estetas, que até pensaram filosoficamente a linguagem musical: uma vergonha! E quem me diz: qual a melhor e mais cuidada voz: Marco Paulo ou Teresa Salgueiro?
Pedro,
Falo em honestidade mais em termos artísticos; uns tomam-se por grandes artistas, cheios de ânsias de profundidade, e os outros assumem-se como pretendendo apenas divertir quem os ouve.
j,
Malta que gama descaradamente (os Gotan Project, p ex), dificilmente será paradigma da honestidade…
Está bem, Luis Rainha, tinha percebido mal. Mas ainda assim, acho-o injusto para com o Represas e a Mafalda Veiga. Eles são mesmo assim.
j:
A comparação entre Marco Paulo e Rodrigo Leão é tão absurda que eu praticamente não vou tecer comentários. Fica só isto:
1. Essa do Rodrigo Leão serem só dois ou três acordes é de rir à gargalhada
2. Para além disso, limitar a música à questão dos acordes, esquecendo toda a restante construção musical, ao nível da introdução de instrumentos e sons, e todo o lado emocional e sensorial, é tão simplista e redutor, que de facto roça o ridículo. Faz-me lembrar aqueles tipos que dizem que um guitarrista é fabuloso apenas porque faz um solo de 10 minutos com vinte inversões diferentes (mesmo que não exprima nada de relevante). É como o Dominguez, que fintava dez jogadores num espaço de 2 metros, mas quase sempre sem sair do sítio.