Notável com a bola nos pés, Maradona evidencia algumas limitações no jogo de cabeça

Maradona escreve como marca golos à Inglaterra: descai para a direita, para a esquerda, corre, finta, não pára. Maradona escreve ao correr da pena (da esferográfica, da tecla, whatever): reverá Maradona o que escreve? Em meio de um vasto post sobre geografia & território, escreve Maradona assim: “As razões porque os aglomerados populacionais nascem onde nascem forma uma intrincada teia de interrelações muito dificilmente ao alcance das imaginações e inteligências dos nossos Leviatãs; é aqui que o liberalismo clássico e mais radical (conservador) – está tudo bem – se enche de lógica, no sentido em que a melhor solução é fazer render as nossas políticas de povoamento à extrema complexidade dos fenómenos envolvidos.” Terá Maradona noção do anacronismo que vai naquela frase? O Maradona parece-me um tipo culto: prova de que está envenenado par l’air du temps, se acredita mesmo na ideologia vulgar da direita modernaça, segundo a qual “o liberalismo clássico e mais radical [é] conservador”. É que sucede precisamente o contrário: o liberalismo clássico nasce por oposição ao conservadorismo, a visão whig do mundo à visão tory; antes de as massas emergirem na vida política e de ter surgido a reivindicação socialista, o radicalismo era um património exclusivo dos liberais: a título de arqueologia política, recordo que o partido liberal dinamarquês, por ex., que é hoje um tranquilo partido de direita, se chama desde que foi fundado, há quase 150 anos, “Venstre”, ou seja, “Esquerda”, ou que os escritos coevos desse arquétipo do liberalismo clássico que foi Stuart Mill sobre a emancipação feminina, também por ex., muito dificilmente casariam com o motto conservador “está tudo bem”. Para o liberalismo clássico, apesar de todos os esforços da mão invisível, não estava tudo bem, o género humano podia e devia ser reformado e melhorado, a tradição, whatever that may be, não tinha necessariamente valor de santidade: e é justamente esse “melhorismo” liberal, que por definição o conservadorismo não possui, que torna as duas escolas diferentes – clássica e radicalmente.

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SEXTA | António Figueira
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10 Responses to Notável com a bola nos pés, Maradona evidencia algumas limitações no jogo de cabeça

  1. Justiniano says:

    Caríssimo António,
    Creio que o Maradona queria dizer que o liberalismo (“clássico”)(definição demasiado abrangente, controversa e por vezes pouco homogénea entre autores – Há mais pontes entre S. Mill e A. Smith do que entre estes e Locke – aqueles que e aqueles que não se angustiariam com o Estado de Direito Liberal e Social – liberalismo social democrático – Creio que as restrições ao direito de propriedade distinguem melhor as correntes liberais até ao sec. XX) não prescindia, nunca, da matriz burguesa “judaico-cristã”(será, deste modo, sempre, um bocado conservador e contra Jacobino).
    Nenhum conceberia as Instituições do Estado de Direito Liberal sem a “moral burguesa” (a moral burguesa….grande buraco…meta-se lá quase tudo, tudo, desde Aristóteles.. Kant…Marx…J. Paulo II…A. Figueira) (Hoje já não será assim para aqueles que se entendem libertos dos constrangimentos da moral burguesa – burguesia feudal, aristocracia burguesa proletária, proletariado burgues e burguesia proletária….).

  2. Começando logo na terceira palavra (“porque” em vez de “por que”)…

  3. a.m. says:

    Whatever – par l’air du temps – whig – tory – whatever that may be- motto …
    Que saudades eu já tinha do António Figueira! Folgo em vê-lo cheio de força, por assim dizer, no seu… estrangeiro.
    Abc, homem!

  4. joão viegas says:

    Caro Antonio Figueira,

    Hmmmm, reflexão interessante, mas não muito convincente…

    Parece-me a mim que quando o Maradona se refere à vertente conservadora dos liberais, esta-se apenas a referir à teoria que pensa que a intervenção do Estado, na medida em que constitui uma limitação da esfera das liberdades individuais, não é desejavel, uma vez que se alcançam melhores resultados abstendo-se de agir.

    Que os liberais possam ter sido, no século XIX, ou antes mesmo, contra a ordem estabelecida (do Antigo Regime) na medida em que esta admitia, na altura, inumeras restricções arbitrarias das liberdades individuais, não me parece ser argumento.

    Por mitica e irreal que seja, a relidade social que os liberais de hoje pretendem “conservar”, é a realidade imediatamente anterior ao Estado providência, quando pretensamente era tudo deixado à livre iniciativa, excepto as funções tradicionais do Estado de policia e de defesa. Anacronismo é dizer que (hoje) não são conservadores, por terem sido revolucionarios numa época anterior, antes de terem obtido o que queriam atravês das revoluções liberais.

    Não digo que esta concepção não seja criticavel, precisamente por referir-se a uma realidade mitica que provavelmente nunca existiu, ou que, a ter existido, nunca permitiu provar os méritos principios liberais (raposa livre no galinheiro livre).

    Mas não vejo nenhuma inconsequência, nem nenhum anacronismo, nessa argumentação.

    Salvo melhor informado, julgo que a sua critica não procede.

  5. Justiniano says:

    Caríssimo J. Viegas –
    Nem todos os liberais vivem na angústia da “the road to serfdoom”, muito pelo contrário, nos dias de hoje.

  6. António Figueira says:

    Wrong, João Viegas: Stuart Mill é um autor de meados do século XIX, que obviamente não se ocupava já em desmontar a ordem senhorial na Grã-Bretanha, e se tem dúvidas em relação ao post, lembre-se apenas do sentido que ainda hoje o qualificativo “liberal” tem nos EUA. A questão é outra – mas perdoe que não me alongue agora a explicá-la: aquilo a que o Maradona se refere é à teoria do conhecimento dos factos sociais concebida nomeadamente por Hayek no pós-guerra, que é certamente um dos fundamentos ideológicos da direita contemporânea, mas julgar que o liberalismo clássico se resume ou se confunde com a epistemologia hayekiana é, repito, um anacronismo.
    Cumps., AF

  7. joão viegas says:

    Caro Antonio Figueira,

    Não sei não. Não sou especialista, mas julgo que Stuart Mill pugnava pela liberdade individual o que, na altura, podia de facto ser anti-conformista, tendo em conta as ameaças que sobre ela pairavam, ainda no século XIX (por exemplo sobre a liberdade de pensamento, mas não so).

    O facto dos neo-conservadores acharem que esta liberdade estava melhor preservada num tempo (um pouco mitico, é certo) em que o Estado não havia tomado as proporções que tomou no século XX, por muito criticavel que seja, não me parece constituir uma ma leitura dos principios de Stuart Mill, ou entrar em contradição com eles.

    Quanto aos varios sentidos historicos que a palavra “liberal” assumiu nos paises anglo-saxonicos, não digo que não, mas são apenas, em meu entender, uma consequência da polisemia da palavra “liberdade”.

    E, quanto a isto, o proprio Stuart Mill podera ser criticado, senão por anacronismo, pelo menos por uma interpretação bastante restrita.

    Você sabe melhor do que eu quem era a deusa Liber…

  8. Ruby Liang says:

    ve-se bem que nao costumas ler o maradona (alias, com minuscula). “Esta tudo bem” nao quer dizer que para o liberalismo classico (conservador) esta sempre tudo bem, mas que o maradona empregou um termo caro, “filosofico”, e portanto sentiu necessidade de tranquilizar as pessoas de que, apesar disso, esta tudo bem. “Esta tudo bem comigo” eh o titulo de uma duzia de posts nesse blog, e a maioria dos outros costuma intitular-se “esta tudo bem com toda a gente”.

  9. joão viegas says:

    Tinha colocado um comentario um pouco longo, mas foi-se. Infelizmente, embora não seja especialista de Stuart Mill, não me parece que exista uma grave incoerência entre os principios da sua filosofia e os da filosofia dos neo-conservadores…

    Que esses principios não dêm conta de todo o conteudo da palavra “liberal”, conteudo que pode explicar o sentido que assumiu nos paises anglo-saxonicos (e não so), inteiramente de acordo.

    Você sabera melhor do que eu quem era a deusa Liber…

  10. António Figueira says:

    Ruby Liang (com maiúscula),
    Eu julgava que lia o maradona vezes que chegassem, mas afinal engano-me, porque todos esses arcanos – “está tudo bem”, e o caralho – me escapam: vou passar a ler as palavras dos posts dele de sete em sete, e a juntar a segunda sílaba de cada uma delas, para também ver o que dá: eu lia o maradona como se fosse português, afinal é marandês, maradice minha.

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