- Lembram-se no Dominguez, que jogou no Sporting há uns anos? Um jogador talentoso, com uma finta curta notável, mas tão notável que o tipo parecia mais um artista de circo do que um jogador de futebol: só via a finta, não via a baliza (só via a árvore, não via a floresta), o que fazia dele, apesar de talentoso, um jogador imprestável. Os spin doctors deste governo são um pouco o Dominguez revisitado: eu já nem falo das considerações éticas (que são de tomo, e deveriam ser evidentes), mas, mesmo em termos de pura eficácia, as acções deles parecem-me obviamente ser, e logo a curto prazo, inconsequentes: o gozo, o puro gozo, a vertigem do spin levou-os à criação da central de propaganda anónima na blogosfera descrita nomeadamente aqui – mas não deveria ser evidente que, cedo ou tarde, a careca do Abrantes ficaria a descoberto e que os danos emergentes desse facto seriam sempre superiores àqueles que a existência do Câmara Corporativa conseguira prevenir?
Aliás, uma das razões por que o CC e os outros blogues do socratismo, a começar pelo Jugular, são relativamente ineficazes, é porque não conseguem mais do que mobilizar as hostes próprias, não conseguem alargá-las; e isto tem que ver justamente (e talvez perversamente) com o seu excesso de mobilização, com a fúria com que se defendem e com o monolitismo da sua argumentação; eu não os compararia com uma seita religiosa, mas lembram-me muito o MRPP de 74/75. Este tipo de atitude é insusceptível de permitir o alargamento da sua base de apoio; pode ser útil a muito curto prazo, mas não demora muito tempo até alimentar a dúvida e gerar a dissidência. Nenhuma pessoa de bom senso acredita que as mil e uma histórias em que o PM está envolvido, da licenciatura dominical ao caso da TVI (a lista é longa, permitam-me que a abrevie) não têm nunca, nenhuma delas, um qualquer fundo de verdade, que resultam todas da conspiração de poderes ocultos, da maledicência dos adversários, da perseguição dos media, etc. Negar tudo e em bloco é de Testemunha de Jeová: fere o senso comum. E isto para acabar no João Galamba: não tenho nada, mas mesmo nada contra ele, é amigo de amigos meus, e reconheço-lhe qualidades (talvez não tantas quanto ele próprio, mas adiante), agora por favor não me venham dizer que entre a sua militância nos blogues da situação, a sua meteórica carreira política e os ajustes directos com a administração pública que foram conhecidos hoje não há nem pode haver nenhum tipo de relação. Quero dizer: podem vir dizer-me isso, mas aí eu respondo, como a vasta maioria das pessoas responde: pois.




É mesmo isso: o fanatismo não pode deixar de ter algum interesse agarrado; há quem defenda José Sócrates e este governo como se o seu futuro pessoal estivesse em perigo. E provavelmente está, que, do outro lado, há gente à espera, aflita também, esfomeada.
Dizia-me um amigo: já reparaste que são muitos, cada vez mais!
Caro Antonio Figueira,
Concordo com o fundo do seu post mas não vejo (grande) problema.
Acho que existem sempre interesses por detras do que é dito e escrito. Ha interesses por detras daqueles que negam o aquecimento do clima. Também os ha por detras daqueles que afirmam que o aquecimento deve ser uma preocupação prioritaria, e eu até desejaria que esses interesses fossem maiores e mais possantes. Obviamente, devemos sabê-lo quando lemos, e não o perder de vista. Mas por acaso isto impede de ler, de forma critica, e de formar uma opinião sobre a questão de fundo ? Penso que não.
Quando você diz, e bem, que os blogues de tendência socratica se desacreditam quando se mostram sectarios, por exemplo ao recusar debater de certas questões incomodas, você tem toda a razão. Mas o descrédito constitui sanção suficiente, e alias a unica sanção eficaz. E’ exactamente como você diz, a gente lê e pensa “pois”.
Qual a necessidade de ir mais longe e de entrar numa logica de complots maçonicos, que não existem mais hoje do que nos anos 30 ? Francamente não percebo.
Ja que você é latinista, volte a ler o tratado dos deveres e lembre-se da lição de fundo : se fôrmos a ver, o util e o bom convergem.
E’ claro que existem interesses, economicos, politicos, etc. E’ claro que quem fala fala de um ponto de vista. Mas também é claro que temos todos a ganhar quando procuramos saber se o que é dito vale mais do que a pessoa que o diz (ou do que o interesse particular dessa pessoa ou dos seus amigos).
A blogosfera tem isso de bom.
Não vejo porque haviamos de ter medo do que por la se diz…
Sapere aude