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O elogio do sectarismo

17 de Fevereiro de 2010 por Nuno Ramos de Almeida


Futura versão impressa do 5 dias

Um blogue não é um partido nem um projecto de poder. Não tem de produzir consensos. Não precisa de criar cumplicidades para chegar ao governo. Falando sinceramente, até os partidos deviam ter preocupações de não fazerem programas plasticina e de não terem permanentemente a cenoura dos votos à frente da boca. Os subsídios governamentais medem-se pelas eleições, a vida não. Há ideias que são justas, mesmo não sendo eleitoralmente populares. As ideias têm de fazer o seu caminho. Muitas delas podem não vencer mas merecem ser defendidas.
Voltando aos blogues e a este blogue em particular, lamento a saída do Zé Neves, do Ricardo Noronha, do Miguel Serras Pereira e do João Branco do 5 Dias. Nada têm a ver com sectarismo colectivo, mas com a total ausência dele. Ao contrário do Arrastão, nós não temos como regra não discutirmos os posts dos outros. Aqui ninguém manda na opinião dos outros. Por vezes, a discussão é dura e torna-se, infelizmente, pouco salutar. São os problemas de um blogue plural em que todos têm direito a defender as suas opiniões, às vezes com muita paixão.
Num texto célebre sobre política e ciência, Weber distinguia os juízos de facto dos juízos de valor. Afirmava que todos os cientistas têm os seus valores, mas quando fazem ciência têm de exercê-la no quadro de um método. Para ele, a ciência e a política são irredutíveis uma à outra. Na política, dizia Weber que a verdade a existir não está provado que se encontre na média entre os extremos. Ela pode bem encontrar-se nos extremos. Não há sobre isso nenhum método científico, muito menos um cálculo oportunístico que a defina.
Tudo isto para dizer que falta sectarismo nos blogues, falta gente que dê a sua opinião sem cálculos para agradar aos mandantes de turno. Fazem falta opiniões claras e extremadas que enriqueçam a nossa vida e inteligência. Espero que o Zé, o Ricardo, o Miguel e o João continuem a fazer ouvir a sua voz. Certamente, que os bloggers do 5 dias vão continuar a escrever a sua opinião, por mais que não agrade ao grande geógrafo das fronteiras da esquerda. Uma espécie de capilé da social democracia. É docinho e serve para casamentos e baptizados. Anima qualquer festa.

Comentários

Comentário de Algarviu
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 20:06

1.”(…) por mais que não agrade ao grande geógrafo das fronteiras da esquerda. Uma espécie de capilé da social democracia. É docinho e serve para casamentos e baptizados. Anima qualquer festa.”

Ui!… Esta bengalada é das melhores que tenho lido por aí. Achincalhante qb e justa!

2. Há mais vida para além de Neves e Miguel. Como já havia para além de Branco.

Comentário de In Memoriam
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 20:39

Não é que tenha alguma coisa a ver com isso…mas esta foi mesmo ao lado!! No mínimo hilariante…

.”(…) por mais que não agrade ao grande geógrafo das fronteiras da esquerda. Uma espécie de capilé da social democracia. É docinho e serve para casamentos e baptizados. Anima qualquer festa.”

IN ARRASTÃO
“Ficamospelo que nos une: “um dos melhores blogues de esquerda portugueses”. O resto vamos interpretar como uma saudável inveja de um dos melhores blogues do centro-esquerda portugueses.”. RENATO TEIXEIRA

Proponho uma votação: Quem é, afinal, o Grande Geógrafo das fronteiras da esquerda em Portugal?

Por amor da Santa…organizem-se!!!

Comentário de In Memoriam
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 20:46

IN ARRASTÃO
“Ficamos pelo que nos une: “um dos melhores blogues de esquerda portugueses”. O resto vamos interpretar como uma saudável inveja de um dos melhores blogues do centro-esquerda portugueses.”
RENATO TEIXEIRA

.”(…) por mais que não agrade ao grande geógrafo das fronteiras da esquerda. Uma espécie de capilé da social democracia. É docinho e serve para casamentos e baptizados. Anima qualquer festa.”

No mínimo, hilariante!!!!
Proponho votação: Quem é, afinal, o Grande Geógrafo da Esquerda em Portugal?

Por amor da santa…organizem-se!!!

Comentário de Niet
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 21:55

Paradoxalmente, com agilidade e limites prévios muito controlados e sustentados, nunca um título de um post coincidiu tanto e tão profundamente com a mensagem: Elogio do sectarismo. É isso mesmo, por todos os sinais e textos reveladores, o que surge na base da decisão de auto-afastamento dos quatro bloguers titulares. Sectarismo é o equivalente de centralismo, de secretismo e de lógica de domínio. Weber é um dos expoentes máximos dessa miragem burocrática: ” A violência organizada e racionalizada torna-se inultrapassável”. Niet

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 22:36

Niet,
Já comentaste. Agora experimenta ler o post.

Comentário de Niet
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 23:06

NRA: É a minha opinião. Adorno fala muito profundamente da maldade do bom senso- satisfeito com os seus limites- maldade que hoje ocupa o mundo…Niet

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 23:23

Niet,
Acho que consegues citar Adorno até sobre receitas de cozinha. O que eu escrevi é uma resposta ao enterro do 5 dias pelo Daniel. Dizendo que a vitalidade do 5 dias e a sua fraqueza é ser sempre um blogue com discussão interna. Com muita discussão. Por isso os desacordos e as cisões. Muitas vezes não se consegue discutir sem pessoalizar, e isso torna as discussões duras. Do 5 dias já sairam a gente para o Jugular e agora um novo blogue, com quem pretendo discutir e reflectir. Só isso. Volte a “Adornar”, se quiser.

Comentário de Niet
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 23:36

NRA: Com a máxima das etiquetas, questiono-o: quem é que não quiz estabelecer regras, direitos e deveres para proteger a democracia interna do Blogue? E esse afrontamento , que gerou a cisão, irá continuar? Haverá ” censura “? Irá ser promovida uma comissão central? A Hipótese Comunista – equidistante do BE e do PCP, a pender mais para o segundo -será a palavra mágica para fazer “vibrar” as massas e os espíritos? Salut! Niet

Comentário de joão viegas
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 23:36

Caro Nuno Ramos de Almeida,

Vamos fazer de conta que os primeiros 2/3 do seu post, que pura e simplesmente não têm pés nem cabeça, são apenas uma forma desajeitada de introduzir a boutade sobre os “geografos das fronteiras da esquerda” que, embora também não faça grande sentido, não deixa de ter alguma piada…

Ja reparou que não existe sectarismo – nem mesmo paradoxal – que não se preocupe em definir fronteiras ? Ou então posso dizer, sei la, à Zita Seabra por exemplo, que pode doravante passar a postar no 5 dias ?

Comentário de Carlos Vidal
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 23:47

Uma pequena ressalva, NIET (mas não voltarei ao assunto assiduamente; todos temos novas ideias e textos para escrever, sobre domínios até inesperados e não triviais, e o assunto Neves-Noronha-Miguel não nos interessa já muito): os quatro elementos que sairam não são um bloco unido. Um deles raramente escreveu o que quer que fosse (em geral, como o próprio afirma), e não participou em NENHUMA discussão teórica que nestes últimos dias ou semanas moveu o blogue 5dias. Discutimos o comunismo, a revolução, a transformação social, a organização dessa transformação (com ou sem partido, de modelo bolchevizado ou outro, ou outros mas respeitando a história do bolchevismo, etc.), discutimos o autonomismo, Badiou, Nietzsche, Lénine… E em nenhuma destas discussões, acaloradas ou menos acaloradas, participou o ex-colega João Branco. Em nenhuma, note-se, e em quase nenhuma outra praticamente. Tanto que um novo blogue se anuncia e nada terá a ver com J. Branco. Neves, Noronha e Miguel criarão um novo espaço teórico, têm ideias políticas afins. Branco nada tem a ver com esta estratégia ou conversa. Até já, Niet. Não misture coisas não miscíveis.

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 17 de Fevereiro de 2010, 23:54

Caro Viegas,
A minha opinião está nos dois terços que você não gostou ou não percebeu, certamente por defeito meu. O último terço é apenas fogo de artifício blogosférico. Não acrecenta nada.
Vou tentar ser menos “desajeitado”. Muitos blogs são meramente instrumentais, dizem as coisas que acham que provocam um efeito nos seus leitores. Limitam-se a somar desejos em forma de escrita.
Do meu ponto de vista, este blogue quer ser diferente. Mais inútil, certamente, mas diverso. Exemplificando, dizer que o capitalismo é mau. Não faz nada, não tem nenhuma utilidade prática imediata, afasta imensos leitores que gostam de fórmulas redondas. Mas nem por isso, deixa de ser verdade. E por isso é dito.

Niet,
Confesso uma certa falta de paciência para esse seu comentário. Quem não encontrou forma de funcionamento foram todos os bloggers do 5 dia. Nada foi censurado. Ninguém foi expulso. Não sei se os conflitos vão continuar. Isto é feito de pessoas livres. Não podíamos obrigar o Zé, o Ricardo e o Miguel a ficar, contra a sua vontade. O João já raramente postava, não creio que tenha sido a mesma questão. Resumidamente, você tem de beber um copo de água e perceber que já não estamos nos anos 30 do século passado. Homem actualize-se, já há computadores e televisão a cores.

Comentário de Niet
Data: 18 de Fevereiro de 2010, 0:08

NRA: É mesmo para o ” provocar “: Kant, na doutrina das Ideias, declarou que, sem metafísica, a teoria não é possível…Isso tudo que se passou no 5Dias tem a ver, por conseguinte, com o ignoramus kantiano? Bebo muita água e bom vinho, claro! Niet

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 18 de Fevereiro de 2010, 0:10

Niet,
Sobre Kant, não comento. Sobre o resto, posso lhe revelar que teve que ver com o excesso de água e a falta de vinho.

Comentário de joão viegas
Data: 18 de Fevereiro de 2010, 0:12

Caro Nuno Ramos de Almeida,

O meu comentario não era propriamente sobre as vossas desavenças, ou sobre o programa que você expõe (não tenho nada contra, pelo menos da maneira como o expõe no seu ultimo comentario) mas sobre o que você diz no seu texto, que apresenta ironicamente como um paradoxo, sem ver que se trata de uma contradição : uma seita, e um sectarismo, definem-se mais por aquilo que excluem do que por aquilo que afirmam. Por isso a sua atitude corre o risco de se cortar, não da acção ou de objectivos politicos ou tacticos, mas da inteligência minima que faz com que um blogue tenha interesse.

Pelo menos do meu ponto de vista.

Foi so o que quis dizer.

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 18 de Fevereiro de 2010, 0:29

Caro Viegas,
Continuo a expressar-me mal. Não houve nenhuma atitude minha de cortar qualquer coisa que seja. O que lhe digo é que neste blogue sempre se discutiu de uma forma viva e afirmativa, sem transigências. Dai a dificuldade, de às vezes, manter as discussões suficientemente frias. Se tívessemos todos a mesma opinião isso não acontecia. Se não discutíssemos, isso também não acontecia. Há aqui um raciocínio: sectário opõe-se, na linguagem comum, a uma pessoa que aceita a opinião dos outros. Mas sectário, também se pode opor, na minha teses, a uma pessoa que tem apenas a opinião que os outros querem ouvir, na fórmula socialmente mais aceitável. Isso do interesse, esperemos que não. Vamos continuar a escrever, e passamos a discutir com os nossos amigos que estão fora do blogue. Com o hiper-texto é fácil.

Comentário de Daniel Oliveira
Data: 18 de Fevereiro de 2010, 1:33

Nuno,

Temo que não tenhas compreendido bem a minha referência ao sectarismo. Não estava a falar do blogue (se assim fosse nunca poderia dizer que é um dos melhores à esquerda), mas de um estilo que pelo menos um dos bloggers aqui criou.

Quanto à regra, interna e decidida por todos (e que sabes porque te contei), de não entrar em polémicas internas, não foi decidida como uma forma qualquer tipo de centralismo. Ninguém é obrigado a concordar com ninguém e podemos (como já o fizemos – por exemplo com Manuel Alegre) dizer coisas opostas uns aos outros. O Arrastão não tem posições colectivas e as que são só existem se forem assinadas por quem as quer assinar. Vê lá que até em relação a uma manifestação recente não envolvemos o nome do Arrastão em nenhuma posição (não temos posições colectivas sem nomes de pessoas). Tudo o que decidimos e que possa envolver os bloggers que ali escrevem é decidido de forma democrática e com consulta mútua. Porquê? Porque nos respeitamos mutuamente. Não seria possível roçar o insulto (como aqui já vi, diga-se em abono da verdade, sempre por parte da mesma pessoa) entre nós. Porquê? Porque é assim que queremos.

Apenas achamos que a polémica interna ao blogue não é o que nos interessa. É uma escolha, tão legitima como a vossa, e que todos achamos boa para nos sentirmos ali confortáveis. Não há unanimismos nenhuns, ninguém pergunta a ninguém o que tem ou deve escrever, ninguém está limitado nas suas opiniões (o João Rodrigues acabou de escrever sobre o Fernando Nobre e não perguntou a ninguém e eu também o escreverei e não perguntarei a ninguém), apenas há uma opção editorial de não nos respondermos uns aos outros numa interminável torrente de posts que rapidamente se pessoalizam. E decidimos que seria assim em conjunto. Num dia que tal seja um problema, resolveremos com a maior das facilidades e sem dramas falando uns com os outros, sem alimentar o conflito estéril e por vezes tão pessoalizado tão comum que a blogosfera. Porque queremos continuar juntos. E isso é uma decisão nossa.

Nada disse sobre o funcionamento do vosso blogue. A minha referência ao sectarismo não correspondia a uma acusação de afastamento de alguém ou coisa do género (coisa que acho improvável, até porque te conheço). Era apenas política: é dificil manter um espaço plural (como o Cinco Dias tem sido) e ao mesmo tempo ter posts diários a insultar todos os que, por essa blogosfera fora, discordam de uma das pessoas.

Quanto à morte do blogue: não falo do fim dele. Falo de um blogue que tem a retórica da pluralidade interna e é cada vez mais estreito politicamente. Não parece que vão encontrar a quadratura do círculo. Espero que me engane. E estou a ser sincero.

Por fim, e sobre uma coisa dita pelo Luís Rainha: não defini bons e maus. Há apenas aqueles com quem, discordando (e duvidam que muitas vezes discordo do Nuno, do Tiago ou do Zé?) acho que nasce qualquer coisa de interessante num debate, e aqueles com quem tudo acaba sempre na insinuação de oportunismo e no insulto por vezes ordinário. Com esses, nada tenho a discutir. A não ser, por vezes, aqui, devolver o que recebo.

Gosto de discutir. A discussão sobre a violência e o Estado, por exemplo, foi interessante contigo, o Zé, o Miguel e o Ricardo. Foi absolutamente inútil e surda com o Renato e o Carlos Vidal. E neste caso nem é sequer uma critica aos dois. É assim. Há debates impossíveis. Com a perda dos quatro, tenho menos quatro razões para debater com o cinco dias. Só isso.

Comentário de Manuel Monteiro
Data: 18 de Fevereiro de 2010, 2:01

É,pá, isto já parece o discurso do Daniel no Eixo do Mal…
Manuel Monteiro

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 18 de Fevereiro de 2010, 2:13

Daniel,
SInceramente, nunca me viste dizer que o Arrastão é um mau blogue. Ora, tu passas os dias a encomendar a morte do 5 dias. É uma política errada, isso não te enriquece nem enriquece o Arrastão. A leitura do 5 dias não impede a leitura do Arrastão. Até é possível que possamos concordar ou discordar de uma forma interessante. Com o teu poste, pareces aquela matilha que se congratulou com a sopa na mosca no Barnabé. A riqueza das esquerda faz-se da sua diversidade. A repetição ad nauseam dos mesmos pontos de vista é chata e suicidária.
Cada um tem o seu estilo, a blogosfera simplifica muitas vezes os argumentos e gera confrontos espúrios. O carlos e o renato têm as suas opiniões são as deles, tão legítimas como as tuas. Não gosto, nem compartilho, da quantidade de posts do Carlos que se referem a ti. Acho que é possível discutir ideias políticas sem pessoalizar as questões. Mas li, eu e todos nós, o teu post como um ataque ao blogue e não como uma discussão política. Não foi pelo estreitar das opiniões deste blogue que as pessoas se desentenderam, foi exactamente pelo seu contrário: a diversidade levou-nos a um conjunto muito grande de discussões que se tornaram difíceis por culpa de todos. Perante isto, e com pena minha, há gente que vai fazer um outro blogue. Repara, mesmo depois destas saídas, aqui no 5 dias, ao contrário do Arrastão, nem toda a gente vota no mesmo partido e se identifica com as mesmas ideias. O que torna as coisas, eventualmente mais interessantes, mas muito mais difíceis.

Comentário de Ricardo Santos Pinto
Data: 18 de Fevereiro de 2010, 2:25

O problema do «5 Dias» não é o sectarismo ou a falta dele. Saem uns, entram outros. Ninguém faz falta.
O problema é mesmo vocês serem quase 30 quando, na prática, só5 ou 6 é que escrevem.

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