Por vezes, pensa-se melhor sobre as imagens quando não as vemos; quando a distância e o tempo se interpõem, ocupando o nosso campo visual, distorcendo-o com lentes inesperadas.
Há uns dias, evoquei a retrospectiva de Augusto Alves da Silva, em Serralves. E tentei descobrir porque é que tantas daquelas fotografias me perturbavam, sem oferecerem razão visível para tal. Inventei-lhes um parentesco com as ânsias metafísicas que se atribuem a artistas como de Chirico ou Hopper; lembrei-me das figuras desamparadas e tragicamente comuns de Duane Hanson.
Mas só agora percebi que as imagens de Alves da Silva (como as de outros fotógrafos actuais) não carecem do barthesiano punctum para ferirem profundamente quem as observa. A sua essência mais perturbadora não está no que mostram, mas sim no modo como o fazem.
É que da pintura e da escultura já esperamos tudo: o seu intrínseco artificialismo, a sua condição de coisa fabricada, mitiga sempre a potência das suas imagens. Sabemos que nos podemos emocionar com elas, mas só até certo ponto, pois é tudo apenas teatro, invenção, artefacto; nada há ali, segreda-nos o bom-senso, que nos possa mesmo ameaçar – o mundo tem a decência de não ser assim: exposto, exangue, ameaçador.
Em de Chirico, por exemplo, a ossatura dos truques está à vista: a perspectiva avariada, a teatralidade das sombras, pequenos dispositivos como a incongruência entre o vento que agita as bandeiras e a sua ausência no penacho de fumo do comboio. Podemos assistir mais descansados ao espectáculo do mágico sabendo que é tudo a fingir: o mundo não foi mesmo serrado ao meio. Face a uma escultura de Hanson, o facto de se tratar de “um boneco” é o que mais salta à vista do passante; e a sua estranheza acaba sempre atribuída à intensidade do seu exercício mimético – estas pessoas aparentariam estar perdidas e vulneráveis apenas pela sua condição de simulacros, de entes carentes do sopro mágico da vida.
A fotografia é um animal diferente. Sobretudo quando se despe (aparentemente, pelo menos) de encenações e de efeitos intrusivos. E quando dispensa ligações a histórias, a Acontecimentos. Que imagens circunscritas pelas regras do olhar e da tecnologia ao papel de reprodutoras fiéis da realidade se possam portar mal, devolvendo-nos reflexos sombrios e perturbadores do mundo… eis o que já nos custa a aceitar.

Entre o desamparo de Hopper e o alheamento de diCorcia, talvez só mesmo o meio difira. Mas neste caso o aforismo de McLuhan é, por uma vez, verdadeiro: é ali que jaz a mensagem. Os nighthawks do pintor nunca passarão de invenções felizes, laboriosamente carpinteiradas; já os rostos que o fotógrafo surpreende à má-fila na rua são puros retratos da realidade.
São mais inquietantes, perigosos até, por não os podermos arrumar na gaveta dos brinquedos. A fotografia não se limita a mostrar o que vive além da superfície das coisas; fá-lo provando que esse abismo está mesmo lá. Todos sabemos que uma fotografia não mente, não é?
Augusto Alves da Silva faz deste processo de desocultação pela veracidade o seu ofício. Quer nos encaminhe o olhar para um quadro de disjuntores ou para um caminho pedregoso algures na Andaluzia. Vão ver.







Estive para explicitar a razão da tua hesitação, mas li o post até ao fim. Abstenho-me. Bom post.
Só um detalhe. A fotografia do diCorcia – “Brent Both; 21 years old; Des Moines, Iowa; $30″ – não é da série-à-má-fila, mas de outra, bastante polémica por sinal, na qual os modelos foram pagos. A comparação com a imagem de Hopper é bem vista, mas neste caso, trata-se também de uma “invenção feliz” de diCorcia, “laboriosamente carpinteirada”.
Repara que isso é totalmente indiferente – a percepção de realismo, de verismo intocável de uma fotografia despojada e aparentemente anti-teatral existe e opera na mesma, quer se trate de imagem encenada, espontânea ou até manipulada. A foto do Augusto Alves da Silva que encima o post também foi preparada e conta com uma modelo que foi paga para o efeito.

O meu ponto, para usar este anglicismo pavoroso, é que a pintura parte sempre desse local desvantajoso: é vista e analisada como artifício enquanto que a fotografia mais (aparentemente) despojada surge com a força de uma réplica fiel de uma qualquer realidade pré-existente e supostamente imune aos dispositivos da Arte.
Escolhi aquela foto do diCorcia porque criava um paralelo imediato e divertido com a pintura do Hopper. Mas poderia ter escolhido esta, que o resultado seria o mesmo:
PS: já agora, gosto do teu trabalho.
Entendo. Como eu tinha dito, era apenas um detalhe. Aliás, as duas séries, realizadas com métodos tão distintos, são de uma unidade impressionante. E no meio das duas fica talvez a famosa imagem – encenada – do irmão Mario (a abrir a porta do frigorífico). Uma “(re)invenção feliz” de um acto quotidiano. O realismo travestido de “teatro” travestido de realismo.
Não conheço essa imagem! A foto da qual eu falava era esta:

É um pastiche?
A arte a imitar a arte a imitar a vida.
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