Tea Party III – O rescaldo

Foi de loucos!

Eram aos milhares!

Cercaram a Assembleia da República!

Nem todos de branco, todos com ideias muito diferentes sobre o que é liberdade e todos sem perceber patavina da expressão uns dos outros… mas ainda assim juntos embora sem mãos dadas.

“Da esquerda à direita, ninguém está satisfeito! Da esquerda à direita, ninguém está satisfeita!”… cantava afinadamente a multidão guiada pelo coro da Lapa com todas as preocupações anti-sexistas, sempre prioritárias mesmo pondo a rima em causa. O calor era copioso mas tudo tinha sido previsto. Para refrescar o rosto, foi distribuído um leque com uma imagem do São Pedro e todos pareciam estar preparados. Com os conselhos dos sectários cá da tasca, o leque era feito em papel absorvente e ia acompanhado com um kit de desobediência com toalhitas de limão e máscaras daquelas que sobraram do kit do vírus H.SÓCRATES.N1., não fosse haver gás lacrimogéneo…

Com o atentado matinal do 31 da Armada, declarando guerra de classes e de povos, a polícia de choque estava alerta com ordens também para calar qualquer pessoa mesmo de esquerda que lá aparecesse. Havia panfletos contra a ameaça divisionista gerada pelos principais esquerdistas, aqueles mesmos puros e duros. Todos receavam o momento em que descessem por ali abaixo, de cara tapada, para fazer um cordão de segurança ao parlamento, de forma a garantir que as massas não invadissem o festim do Cabaret da República.

De vez em quando, acompanhado por um piano de cauda e por uma harpa, faziam-se os discursos inflamados:

“Liberdade de Imprensa!” dizia um Vasconcelos. “E de expressão!” acrescentava um Champalinãoseidasquantas. “Ju,,,,,,,,,,ssss..tttiiiiiiii….ça!” Dizia um qualquer coisa Belford Burnay, que era gago mas cheio de postura. E ainda falou um Crespo, um Sousa Tavares, um Rebelo de Sousa… enfim, a lista de inscrições parecia não parar e já se impunham limites de vinte segundos aos oradores.

Mais ao fundo, duas gerações de tias (uma filha da outra e outra mãe da primeira), pareciam não gostar dos discursos e estavam alheias à manifestação. Tinham sido claramente cacicadas pelos esposos sem grandes explicações filosóficas:

“Estou aqui porque calaram a Nelita, e o meu serão rebelde de sexta-feira à noite nunca mais vais ser o mesmo. Estou indignada! Assim tenho que ir ao clube de leitura ouvir a Gigi Constança a declamar Simone de Beauvoir” disse a mais velha, Tete Gonçalves da Silva e Arriaga.

“Até que a senhora era uma senhora mas tinha cá um gosto para os homens!”, suspirava no vazio da crise da sua meia-idade… Cinquentona de botox, o que quer dizer que na verdade teria perto de cem anos (prudência aos adeptos de milf) ostentava um cravo branco vigoroso, preso com o broche do brasão da família ao vestido aprimorado da Gucci.

Com chapéu claro da Versace (em tons pastel), com uma ligeira renda sobre os olhos, Tete, elegantérrima, via sumir-se-lhe a voz em nova vaga de palavras de ordem: “Sócrates bandido já ninguém está contigo! Sócrates bandido já ninguém está contido!”, soava agora em modo TetVocal.

A mais nova, Joaninha (porque ainda é virgem não tem nem direito a alcunha nem a usar apelido), diz não perceber muito bem a escandaleira. Ainda assim lamenta as consequências terríveis da ida da Nelita para a Sibéria particularmente no impacto que isso teve para a carreira do seu mais que tudo: “pobre do Moniz… anda tão deprimido”, desabafa.

Desanimadas abandonaram a manifestação onde nem sequer as deixaram entrar no salão. “As docas são incomensuravelmente menos selectivas” dizia a mais nova em busca de suporte maternal. Já na praça de táxis do Rato, e depois de fazer uma cara feia e um gesto menos bonito (língua de fora) para a sede do PS, foram para casa. A única coisa se lhes animou o dia foi terem visto que tinham aparecido nas notícias (coisa difícil com a altura dos muros da Quinta da Marinha) e que talvez fossem citadas no próximo eixo do mal, no serão familiar de Sábado, à fogueira e ao serão…

A coisa acabou obviamente no Galeto embora a malta sectária fosse ao menu ao lado que apesar de mais imperialista era significativamente mais barato.

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