Questões de Terminologia

Retomo aqui, sob a forma de post, um comentário que o Viana publicou na caixa do post do Nuno sobre o Daniel Bensaïd: Potências do comunismo.

Sob a modesta aparência de uma proposta terminológica, é tudo aquilo a que costumamos chamar “acção revolucionária” que nos leva a examinar.  Pierre Bourdieu dizia que a ciência, a sociologia, falava muito em ruptura com o senso-comum (sentido comum), mas raramente se preocupava em romper com o senso-comum em curso no seu interior. Infelizmente, Bourdieu, assinalando embora o problema, não chegou a tirar todas as conclusões da ruptura que preconizava, na medida em que, ao que julgo, manteve o lugar privilegiado do cientista na enunciação legítima da verdade sobre a sociedade. Mas isso fica para outra vez. Vamos agora ao texto Viana:

Acho que Bensaïd define muito bem o que é o “horizonte” comunista. E identifica uma questão muito importante: o que fazer perante a constatação de que a palavra comunismo evoca regimes repulsivos para uma grande maioria das pessoas? Claro que esta questão só é um problema para quem fôr da opinião, como eu, que só podemos caminhar na direcção do “horizonte” comunista com o acordo da maioria das pessoas que nos rodeiam. Como obter então o seu apio? Parece-me que essencialmente duas estratégias de acção se perfilam: tentar reabilitar a palavra comunismo; encontrar outra(s) palavra(s) para identificar o mesmo “horizonte” comunista tão bem descrito por Bensaïd. Na minha opinião as duas vias não são exclusivas, e devem ser ambas seguidas. Mas Bensaïd parece achar que a segunda via necessita de uma nova palavra. Não concordo. Ela já existe: democracia. E tem a vantajem de não poder ser des-legitimizada, conscurpada, pelo sistema capitalista, pois este assenta num sistema político que retira grande parte da sua legitimidade ao auto-definir-se como democrático. A democracia na sua forma mais radical coincide com o “horizonte” comunista, tal como descrito por Bensaïd, pois implica a extensão do princípio igualitário a todas as áreas da vida em sociedade: eu só tenho liberdade para votar e decidir como igual, se fôr igual, se tiver igual poder.

Em 1979, Castoriadis ia mais longe e propunha que os termos “democracia”, “sociedade autónoma”, “autonomia”, “autonomia democrática” e, mais tarde, também “democracia directa” substituíssem os termos “socialismo” e “até comunismo”. Mas ele próprio não pôde senão em parte aplicar a proposta, e, até ao fim da vida, no muito que escreveu, o “socialismo”, o “projecto socialista”, a fórmula “socialismo ou barbárie” continuaram presentes nos seus escritos. Para ajudar ao debate que espero ver seguir-se vale a pena lembrar parte dos seus argumentos:

Deploremo-lo ou não,  socialismo significa hoje para a esmagadora maioria das pessoas o regime instaurado na Rússia e nos países similares […]: um regime que realiza a exploração, a opressão,  o terror totalitário e a cretinização cultural a uma escala desconhecida na história da humanidade. Ou então, socialistas são os partidos dirigidos pelos senhores Mitterrand, Callaghan, Schmidt e outros […] engrenagens “políticas” da ordem estabelecida nos países ocidentais. Estas realidades maciças não se deixam combater por distinções etimológicas e semânticas. Seria o mesmo que querer combater a burocracia da Igreja, lembrando que igreja, ecclesia, significa originariamente a assembleia do povo […]

[…] a sua utilização pelas burocracias lenistas-estalinistas e reformistas foi um dos instrumentos da maior das mistificações da história […] Mas foi feito, e nada podemos fazer para o impedir. Aliás, […] os termos eram desde o princípio “maus”  […] O que é que quer dizer ser “socialista”, ou mesmo “comunista”? Ser partidário da sociedade, da socialidade (ou da comunidade) – mas contra quê? Qualquer sociedade foi sempre, e será sempre, “socialista”. […] toda a sociedade é social, ou não é sociedade. […] A sociedade mais ferozmente “individualista” continua a ser “socialista” no sentido em que afirma e impõe essa significação, esse produto, esse “valor” social, que é o indivíduo.  […]  O que, no ser humano, não é um indivúdo socialmente fabricado […] é radicalmente inapto para a vida.

[Quando não é tautológico] o termo socialismo é portador de uma ambiguidade perigosa. Parece opor um primado material, substantivo, “de valor”, da sociedade sobre o indivíduo […] que alimenta um pseudo-“individualismo” ou o “liberalismo”.

[…] O indivíduo [numa sociedade de classes] é oprimido e explorado em benefício da colectividade, em benefício de todos os outros (e, portanto, também de si próprio)? Claro que não:  cada um dos indivíduos que compõem o povo [da Inglaterra “individualista” ou da URSS burocratizada] não é oprimido e explorado pelo povo, mas pela burocracia “comunista” [ou por “uma pequena minoria” de outros ingleses].

[…] Ao que era visado pelo termo sociedade socialista, chamamos agora sociedade autónoma. Uma sociedade autónoma implica indivíduos autónomos – e reciprocamente. Sociedade autónoma, indivíduos autónomos: sociedade livre, indivíduos livres. […] Ora, a liberdade, neste sentido, implica a igualdade efectiva – e reciprocamente […] a igualdade dos direitos e dos deveres […] e de todas as possibilidades efectivas de agir que, para cada um, dependam da instituição da sociedade.

Le contenu du socialisme, Paris, UGE, 1979.

A minha formulação provisória – tendo em conta o comentário do Viana e a impossibilidade histórica, acompanhada por uma exigência  dialógica de reconhecimento, de nos abstermos dos termos como “socialismo” e “comunismo” (que deveríamos usar com moderação e as explicitações necessárias) –  seria pois que a democracia tem por horizonte o comunismo no sentido de Bensaïd, ou naquele que Castoriadis retoma com a “sociedade autónoma”. É que a democratização efectiva do exercício do poder político – em que incluo essa sua vertente essencial que é a organização da economia – seria a mais radical das revoluções. E a medida em que a praticam, a medida em que a “agem” na sua lógica e na sua dinâmica, deve ser já o critério por excelência das nossas lutas e linguagem políticas presentes.

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5 Responses to Questões de Terminologia

  1. Niet diz:

    Meus caros: Eu já tinha opinado sobre o sofisticado marxismo-leninismo trotskista do Bensaid. Feito à custa de imensos sacríficios, lanço a lanço. Agora, o que urge sublinhar é o seguinte: só existe igualdade conquistada pela luta sem tréguas contra a hierarquia essencial do sistema de exploração capitalista, e que vise a sua erradicação essencial. O caríssimo Viana deve, no meu fraternal entender, optar pela tripla Castoriadis/Pankoek/Bakounine em vez de andar a perder o seu precioso tempo com um trotskista tão liberal e sofisticado como o infausto Bensaid. Vale? Niet

  2. António Viana diz:

    Caro Miguel Serras Pereira:

    Pensar em maiden names deixa-me sempre melancólico.
    É como perguntar o que é a esquerda em inglês. Parece que se está também a perguntar “O que é que resta?”

    AV

  3. miguel serras pereira diz:

    Caro António,

    não lhe parece que o “projecto de autonomia” que aqui tenho defendido, chamando-lhe “democratização efectiva da política e da organização económica”, “cidadania governante” (igual participação de todos nas deliberações e decisões que os vinculam, auto-governo, etc., dessacralização/desprofissionalização da política, etc.) não se contenta propriamente com “restos” ou “sobrevivências nostálgicas”?
    Ao publicar o texto do Viana (que não é você, António Viana) aqui em cima, quis, entre outras coisas, sublinhar que, para transformarmos a política e a tornarmos exercício de autonomia presente e de conquista do auto-governo generalizado, teremos de transformar também a própria linguagem política e a atitude que os políticos profissionais adoptam para falar aos outros (tratando-os como o rebanho ou, pelo menos, os dirigidos, os leigos, a matéria-prima), substituindo essa atitude por um diálogo ou conversa em pé de igualdade.
    O George Orwell, com a sua proposta de partirmos da “decência comum”, ainda que submetendo-a, ao usarmos o seu vocabulário e ao refazê-lo usando-o, a uma “crítica quase infinita”, para nos associarmos à extensão das “capacidades políticas” dos trabalhadores e da gente comum, dá-nos pistas preciosas de reflexão e acção nesta matéria. Não lhe parece?

    Saudações democráticas

    msp

  4. António Viana diz:

    Sim – a “decência comum” é um melhor ponto de partido do que qualquer minima moralia programática e abstracta.
    Ao lê-lo, lembrei-me do modo como EP Thompson falava de classe, não como algo que “fixa” as relações entre os homens, mas que nasce dessa mesma relação, algo que acontece entre homens que percebem que têm uma comunidade de interesses.
    A linguagem dos políticos é feita de repetições e langue de bois porque “se dirige a”- não é um “falar com”.
    O problema é que a mesma crítica se deve aplicar a quase todo o jargão político pós-marxista . Isto é, o problema das termos da esquerda não é só que muitos deles “Schlecht werden lassen” – por razões históricas, como disse bem . Muitos são intrinsecamente pouco precisos e vívidos -e tingidos de uma espécie de abstracção desoladora e desumana. “Socialismo científico”em Engels não soa só mal retrospectivamente.
    Orwell tinha razão quando dizia que
    ” Political language — and with variations this is true of all political parties, from Conservatives to Anarchists — is designed to make lies sound truthful and murder respectable, and to give an appearance of solidity to pure wind.”Falava de uma defesa da linguagem contra a política. Penso que devemos também , e creio que é esse o espírito da sua reflexão, evocar Crick e fazer uma defesa da política contra todos os seus falsos amigos contemporâneos, os dialectos que a colonizam e minam: a linguagem dos burocratas, a linguagem da técnica e da ciência, a linguagem dos mercados e da economia, a linguagem até da “semiótica” ( particularmente abjectos “os sinais” – “os recados” – “a mensagem” ) – sem esquecermos que um dos seus falsos amigos foi sempre também a “grand theory” .

    AV

  5. miguelserraspereira diz:

    Caro António Viana,
    excelente contributo o seu para o debate que tentei lançar.
    Completamente de acordo sobre esses herdeiros (ou pretentendes a tal) “profanos” da heteronomia religiosa que visam a ressacralização da política e a sua reserva a especialistas profissionais consagrados.
    Continuemos, pois.

    Saudações cordiais

    msp

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