Um Testemunho a Considerar

O meu velho amigo Baptista Bastos – apesar de ao longo das décadas as nossas divergências políticas terem sido muitas e nem sempre as mesmas – publica hoje um testemunho importante, baseado num conhecimento profundo do meio jornalístico e dos seus problemas. Não preciso de concordar com todas as formulações do texto para o achar da maior pertinência.Também não precisei de lhe perguntar o que pensa sobre a “Manifestação da Liberdade” para aqui lhe pedir emprestadas algumas palavras que corroboram algumas das teses daqueles que  declaramos a referida iniciativa politicamente aberrante.

Há algo de torpe neste alvoroço. Um ex-ministro, agora protestador grave e atroz, foi, na sombria década cavaquista, controleiro da RTP. E um dos agora acusadores da falta de liberdade era o zeloso varejeiro do noticiário. Não cauciono, de forma alguma, tentativas de domínio da imprensa pelo poder político. Mas não colaboro neste imbróglio, que tem estimulado a perda do sentido das coisas e a adulteração da verdade histórica. A reabilitação de falsos fantasmas apenas serve para se ocultar a medonha dimensão do que ocorreu na década de 80. Os saneamentos, a extinção de títulos, a substituição de direcções de jornais e a remoção de jornalistas incómodos por comissários flutuantes eram o pão nosso de cada dia. Já se esqueceram?

(Ver o artigo completo, “Liberdade, eis a Questão”, publicado hoje peloDiário de Notícias: http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1490813&seccao=Baptista%20Bastos&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco )

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23 Responses to Um Testemunho a Considerar

  1. carlos graça diz:

    Impera a cor cinzenta

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Miguel,
    Acho que está a relativizar a actuação de Sócrates. Usar empresas com participação do Estado para alterar a direcção editorial de órgãos de comunicação deixou de ser uma coisa grave, para passar a ser uma coisa comum ao longo destes anos. Tanto barulho para quê? É como diz a Constança Cunha Sá, tanto histerismo, por tão pouca coisa. Siga o baile.

    Falando sério, os argumentos que defendem que é preciso não confundir, na luta contra a política de sócrates, os objectivos da esquerda e a direita são interessantes.
    Como são interessantes, aqueles que dizem que na luta contra abusos de Sócrates se podem encontrar, momentaneamente, pessoas com concepções políticas diferentes.
    A discussão deve ser feita calmamente sobre o equilíbio entre estes dois aspectos, sem simplificar demasiado.
    É óbvio para nós os dois que a direita está , pelos menos, tão errada como Sócrates e que é um imperativo da esquerda correr com este péssimo governo. Estou certo?

  3. O BB está muito agradeci~do a este regimen.
    Há dois anos o homem vociferava contra a deriva neo-liberal e exploração do Governo Sócrates.
    Agora está muito caladinho e a debitar banalidades «dejá vu».

    Oh BB eu não caio da esparrela dos «sucialistas» que dinamitaram a nossa democracia.

    Ser de esquerda não é só descer a Avª da Liberdade no 25 de Abril, assim como o Ntal é quando um homem quiser.

    Viva a Liberdade!

    Abaixo o neo-fascismo socretino e todos os serventuários, chibos e bufos!

  4. miguelserraspereira diz:

    Caríssimo,
    na conclusão acompanho-te – com uma ressalva: aquilo a que chamas “erro” ou “erros” da direita, são coisas erradas, injustas, para nós; mas é provável que, do ponto de vista da direita, sejam acertos. A menos que… lhes saia pela culatra o tiro da queda de Sócrates e venham a descobrir que ele era afinal quem melhor os servia.

    Quanto ao resto, ainda está para vir o governo que não tente usar, talvez menos toscamente, empresas com participação do Estado, ou instrumentos afins para alterar direcções editoriais.

    O que a democracia requer é a conquista da igualdade na liberdade de expressão. Eu explico: tal como dizia um socialista “utópico” que o Castoriadis gostava de citar, a lei proíbe com igual rigor a ricos e pobres dormirem debaixo das pontes. Do mesmo modo, permite a todos criar um jornal ou publicação ou canal ou emissora – o que significa que a liberdade de expressão é mais de uns do que outros. Não vamos dizer que o seu reconhecimento nos termos actuais é vazio e inútil: foi uma conquista duríssima e ainda hoje o é (pense-se no combate a travar contra as igrejas e a censura religiosa que quer levantar de novo a cabeça em plena Europa). Mas teremos de lutar por torná-la igualitária, que mais não seja para a salvaguardarmos. O poder económico é uma forma de poder político tanto mais eficaz quanto não se assume como tal. São as suas prerrogativas – sem as quais, de resto, as manobras de Sócrates não seriam possíveis ou tão fáceis – que temos de atacar e pôr em evidência, em vez de as secundarizar.

    A democratização efectiva do exercício do poder político e dessa sua vertente essencial que é a organização da economia seria a mais radical das revoluções. E a luta que a põe na ordem do dia, que a “age” na sua lógica e na sua dinâmica, deve ser já o critério político por excelência quando ajuizamos de propostas alternativas.

    Abç

    miguel

  5. c diz:

    ah !! e devemos esperar que fique assim como no tempo da outra senhora para nos manifestarmos?
    eu penso que as coisas devem resolver-se quase em embrião ( melhor mesmo é prevenir ) . deixar andar nunca dá bom resultado , como todos podem verificar pelo estado a que chegou este Estado.

  6. Compreendo-o perfeitamente.
    V. está a refinar com a idade.
    Neste post, aliás, bate aos pontos o BB, uma vez que, tendo embora andado ambos na Guerra de 14, ele ainda consegue dizer coisa com coisa.
    Sem sair do estalinismo de sempre, claro.

  7. Niet diz:

    Marx visto por Bakounine-Para meditar, sonhar acordado e imitar, pois claro, se fazem favor. Uns breves extractos da personalidade de Marx narrados por Bakounine. Lembro aos incautos que existe uma biografia maravilhosa de Henri Lefebvre sobre Lénine, traduzida em 68 em Portugal. Já sabem a nossa tese preferida:As maiores ideias são os maiores acontecimentos. Práticos e teóricos, claro. Ora vamos lá, com um bom habano depois de um jantarinho macrobio…” Marx é um comunista autoritário e centralista. Quer o que nós queremos: o triunfo completo da igualdade económica e social, mas no Estado e pela potência do Estado; pela ditadura de um governo provisório muito forte e, por assim dizer, despótico, isto é, com a negação da liberdade. O seu ideal económico consiste em que o Estado se torne o único proprietário da terra e do capital; cultivando através das associações agrícolas, bem financiadas e dirigidas por engenheiros agrónomos; por outro lado incentiva ao máximo e manipula por todos os meios o conjunto das associações industriais e comerciais.
    Nós queremos esse mesmo triunfo da igualdade económica e social pela abolição do Estado, e de tudo o que se apelida de direito jurídico e que, segundo nós, é a negação permanente do direito humano. Queremos a reconstituição da sociedade e a construção da unidade humana, não de cima para baixo pela via de uma autoridade qualquer e com a ajuda de funcionários socialistas, de engenheiros e outros sábios oficiais, mas de baixo para cima pela federaçãp livre das associações operárias de todas as categorias, emancipadas do jugo do Estado…
    Vê-se claramente que as duas teorias dificilmente podem ser mais opostas, mas existe ainda mais uma diferença, desta vez pessoal entre nós. Entre Carlos Marx e eu. Não ficamos absolutamente nada admirados, aflitos e ofendidos por Marx e os seus amigos professarem uma doutrina diferente da nossa. Inimigos de todo o absolutismo doutrinário assim como prático, apesar de nos opormos às teorias que não podemos considerar como verdadeiras, curvamo-nos perante o direito de qualquer um de professar e bater-se pelas suas. Lemos com super-atenção tudo o que Marx publica, porque sempre lá encontramos argumentos excelentes para aprender. O mesmo não se pode dizer sobre o humor de Marx. É tanto ou mais absoluto na teoria como, quando o pode ser, na prática, igualmente. À sua inteligência fora-de-série acrescenta dois detestáveis defeitos: é vaidoso e ” ciumento”. Tinha Proudhon na lista negra, só porque a sua legítima reputação lhe fazia sombra. Serviu-se de tudo para o atacar: Marx é individualista ao máximo. Diz: as minhas ideias, não querendo compreender que as ideias não pertencem a ninguém, e que , se se procura bem acaba por se dar conta que, precisamente as melhores, as ideias mais fecundas acabaram sempre por ser o trabalho instintivo de todos; sómente pertencendo ao indivíduo a expressão, a forma delas surgirem. Marx nunca aceitou que a partir do momento em que uma ideia, mesmo formulada por ele, foi compreendida e aceite pelos outros,(ela) acaba por pertencer tanto aos outros como a si próprio “. Lettre aux internationaux da Emilie Romania. 1872. OC II. Niet

  8. António Figueira diz:

    Falta o testemunho da Fernanda Câncio.

  9. B diz:

    MSP,
    toda a liberdade de imprensa que podemos conceber e pela qual se luta existiu no quadro da “economia capitalista”. No entanto, os limites da liberdade de imprensa existente sob Salazar ou sob Churchill (sendo que o regime económico – e até político – era, do seu ponto de vista, essencialmente o mesmo) tinham substanciais diferenças, observáveis até por intelectuais de formação «soixant-huitardiste» – no que, creio, concordará. Assim, o pactuar com males menores para não obnubilar a luta por um bem maior e futuro não lhe parece uma má estratégia que faz desta vida presente o vale de lágrimas judaico-cristão?
    Conservador, mas com uma fé por vezes vacilante, e por isso reivindicador das coisas daqui deste mundo, condeno qualquer ataque à liberdade de expressão/imprensa, aqui ou em Teerão, e muito lastimo vê-lo de um outro lado.
    Anoto com gosto o seu eurocentrismo (“em plena Europa”), embora o problema venha mais dos países muçulmanos.

  10. miguelserraspereira diz:

    Caro B,
    você deve ter lido mal. O que eu escrevi foi que a liberdade já existente – e ameaçada pelo islamismo, sim, mas também pelo neo-constantianismo hoje pujante nas fileiras católicas e pela expansão do capitalismo do glorioso Partido Comunista da República Popular, etc. – é insuficiente, e não vazia, inútil, etc. Leia lá outra vez, por favor, e veja se não tenho razão: “Eu explico: tal como dizia um socialista “utópico” que o Castoriadis gostava de citar, a lei proíbe com igual rigor a ricos e pobres dormirem debaixo das pontes. Do mesmo modo, permite a todos criar um jornal ou publicação ou canal ou emissora – o que significa que a liberdade de expressão é mais de uns do que outros. Não vamos dizer que o seu reconhecimento nos termos actuais é vazio e inútil: foi uma conquista duríssima e ainda hoje o é (pense-se no combate a travar contra as igrejas e a censura religiosa que quer levantar de novo a cabeça em plena Europa). Mas teremos de lutar por torná-la igualitária, que mais não seja para a salvaguardarmos. O poder económico é uma forma de poder político tanto mais eficaz quanto não se assume como tal. São as suas prerrogativas – sem as quais, de resto, as manobras de Sócrates não seriam possíveis ou tão fáceis – que temos de atacar e pôr em evidência, em vez de as secundarizar”.
    Saudações republicanas
    msp

  11. Justiniano diz:

    Caríssimo MSP –
    Parece-me que, ao longo desta estória da manif., começou(o campo do MSP) por defender uma posição doutrinal baseada no aparente antagonismo com os liberais, onde à manif. não poderia corresponder uma unidade de acção ou de propósitos (posição próxima do sectário) e acabou no mais puro tacticismo politiqueiro (coisa absolutamente utilitária e imprópria, também bastante raro no seu campo) – (coisa mais própria de socretinos).
    Acredita sinceramente que Sócrates corresponde ao menos mal!? Porquê!?

  12. miguelserraspereira diz:

    Caro Justiniano,
    não me parece que tenha resvalado para o tacticismo.
    Não penso que Sócrates e o seu governo sejam um mal menor.
    O meu ponto continua a ser:
    “Sim, não se pergunta a quem adere a uma manifestação ou a uma acção de luta quais os seus antecedentes políticos – dão-se-lhe as boas-vindas. Mas convém que só vamos a manifestações que expressem uma vontade política que seja a nossa, e que lutemos por um dado objectivo ao lado dos que o querem também, e não daqueles que o negam”.
    E também:
    “a defesa da liberdade de expressão” do Apelo é inconsequente e inconsistente. O mínimo seria dizer, por exemplo, que Sócrates tentou controlar a imprensa ATRAVÉS DO PODER ECONÓMICO e num QUADRO DE CONCENTRAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL NAS MÃOS DOS GRANDES GRUPOS ECONÓMICOS, QUE ASSIM EXERCEM UM PODER POLÍTICO NÃO DECLARADO E DEMOCRATICAMENTE ILEGÍTIMO. Não vou multiplicar os exemplos. Acrescento tão-só que a identidade política dos promotores de uma manifestação, pois não estamos diante de um levantamento anónimo e espontâneo, deve pesar seriamente na decisão que tomamos de a integrar ou não”.
    Saudações democráticas

    msp

  13. Julgo que Baptista-Bastos (que também publica as suas crónicas, às quartas-feiras, no “Sorumbático” ( http://sorumbatico.blogspot.com ), apreciaria que não retirassem o hífen do seu nome…

  14. miguelserraspereira diz:

    Caro C. Medina Ribeiro,
    tem toda a razão. As minhas desculpas ao “gralhado” e aos seus leitores, entre os quais me incluo.
    Obrigado também pelo link do Sorumbático.
    Cordialmente

    msp

  15. Tirarem-lhe o hífen era o mesmo que tirarem-lhe a casinha da Câmara, não?
    No entanto, posso garantir-lhe, sr. Medina, que o BI não contém qualquer hífen. E esta, hein?

  16. miguel serras pereira diz:

    Comentário ao Comentário de Pantaleão de Aveiro:

    Nojo aos cães.

    msp

  17. Comentário ao comentário de msp

    Isso mesmo. Um nojo. Sempre foste assim; tu e os aproveitadores de casinhas da Câmara. Será que também abichaste uma?

  18. miguel serras pereira diz:

    Comentário ao Comentário de Pantaleão de Aveiro- II:

    Moro no Palácio de S. Bento. Recompensa pelos muitos serviços prestados aos governos de Durão Barroso, Santana Lopes e Sócrates.

  19. miguelserraspereira diz:

    Comentário ao Comentário de Pantaleão de Aveiro- III:

    Descoberta tardia. Não se via logo?

  20. miguelserraspereira diz:

    Comentário ao Comentário de Pantaleão de Aveiro- IV:

    UUUUUFFF!

  21. Justiniano diz:

    Caríssimo MSP.
    Hoje, aqui chegados, em que a tal manif. já foi estória ou quase fenómeno, deixou de ser assunto ou substancia para assunto, esfumou-se para lá da Via láctea, que dizer do resto!!??

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