Quem Te Avisa…

Leio na caixa de comentários do post Demagogia feita à maneira do Rui Bebiano, no Arrastão, este aviso, que subscrevo, assinado por CristinaGS: “o real perigo é mesmo a chegada de um qualquer “messias” que queira pôr ordem nova na casa varrendo o chão com vassouras velhas .

Aproveito para recomendar a leitura do post do Rui Bebiano, bem como a de  Foi você que pediu liberdade? do José Castro Caldas no Ladrões de Bicicletas.  Convém ir acompanhando ao mesmo tempo as actualizações e comentários dos posts do Miguel Cardina e da Madalena Duarte no Minoria Relativa (http://minoriarelativa.blogspot.com/), e o mesmo vale para os posts da Joana Lopes no Entre as brumas da memória, recordando que foi ela quem primeiro levantou uma voz insuspeita de complacência perante o governo Sócrates contra a chamada ” Manifestação da Liberdade”.

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3 Responses to Quem Te Avisa…

  1. Niet diz:

    MS Pereira: Continuo a tentar dar exemplos da luta contra a dominação, a exploração , que configuram a lógica da existência do Estado: ” Que todos os partidos propriamente políticos, mesmo os mais avançados e os mais populares se preocupem muito com questões pessoais, é coisa corriqueira e natural. A política, mesmo a mais revolucionária, tem por objecto a conquista dos poderes do Estado, e quem diz Estado, diz dominação e competição de dominadores, cada indíviduo mais ” activo ” impacienta-se com o desejo de governar as massas, o rebanho humano, sem dúvida para a maior felicidade dele , e acaba quase sempre por o tosquiar, quer em prol da sua ambição e da sua vaidade, quer em prol da sua cobiça. Isso são factos imemoriais e renovar-se-ão sempre com uma lógica fatal, enquanto existirem Estados. É por isso que nós, socialistas revolucionários, queremos forçosamente a abolição do Estado . O socialismo da A. Internacional dos Trabalhadores quer a emancipação do proletariado; o que, entre outras coisas, significa que quer acabar com a dominação dos tutores, directores, benfeitores, iniciadores, reveladores, politiqueiros, inteligências doutrinária, sábios com patentes, profetas e apóstolos, ou, para resumir tudo numa só palavra, os exploradores das massas. Quer pôr fim a todas as direcções e influências oficiais “. OC.2. Carta ao redactor do ” Gazzettino Rosa. 1872. Niet

  2. manuel j. neto diz:

    Caro Miguel Serras Pereira,

    confesso que neste caso estou muito longe de conseguir perceber a sua posição (tenho discordado frequentemente com os seus comentários mas nunca ao ponto de não os conseguir compreender). E isto é particularmente grave tendo em conta que o caso é, do meu ponto de vista, muito, mas mesmo muito importante mesmo. O seu discurso habitual (e, talvez mais relevante e sintomático ainda, o que é triste, as suas afinidades electivas amplamente sublnhadas neste e noutros comentários seus), como o daqueles que cita, tende a valorizar dimensões da adesão táctica em matéria política, a exaltar o valor da tolerância e a fazer a apologia de uma horizontalidade ética, levada ao limite da a-historicidade. Neste caso, no entanto, a sua posição dirige-se no sentido mais contrário deste e satisfaz-se em apresentar como único argumento a exlcusão da hipótese de contaminação política e moral, recusando-se a participar num evento que é também apoiado pela direita. Depois acusa ainda a esquerda participativa (como o Arrastão aliás) de usar esta opção pela auto-exclusão como arma de arremesso político quando o que vejo é exactamente o contrário – e ainda para mais usando à sua facção o exacto mesmo argumento que normalmente criticam na esquerda à qual não “pertencem” – e à qual costumam dar o nome de sectarismo e a intolência.
    Já o vi mais sereno e ultimamente desagrada-me o tom com que intervem (como me desagrada o tom, diferentes, de Carlos Vidal ou de Renato Teixeira), para além de achar que, por exemplo a atendo-me a este assunto, aquela “ilustração” histórica do social-fascismo é extremamente desadequada, mas enfim. Neste caso, no entanto, é a substância da sua posição – que me espanta vinda de uma alma lúcida (do Arrastão confesso que já não me espanto com nada). José Gil fez hoje o melhor comentário da situação, que citarei de memória: trata-se de um AFUNDAMENTO moral e ético, do reconhecimento de uma falência de principio no sistema democrático, da sinalização de uma incapacidade de aprendizagem acerca do que é e significa viver em democracia, de um afastamento irreversível e inexorável do governo em relação ao povo – e portanto uma traição ao fundamento primordial do sistema. É de um caso de corrupção generalizada, caleidoscópica e intromissiva que estamos a falar, e não de uma escolha entre opções políticas, de esquerda ou de direita, de um apodrecimento lento, de um caos de auto-governação exclusiva organizada em bandos de saque e pilahgem, uma desordem a-moral paralisante e degradante. E isto não é legivel ou situavel à luz da representação simbólica e da ordem da linguagem entre opções políticas nem é esta manifestação uma declaração de apoio à hipótese A ou B (insinuação que gostava de o ter visto criticar), como todos vocês (o MST e os seus eleitos), queram fazer crer, escudando-se em argumentos que, confesso, me parecem hoje e parecerão muito mais opacos (difusos, obscuros) do que me pareceram no passado. Estamos perante um caso que é apenas um sintoma do que já existe e virá ainda com mais intensidade e deixa-me perplexo que não o reconheça de tal forma que o faça sentir-se obrigado a pelo menos não hostilizar um evento destes (no qual, diga-se de passagem, não participarei porque nunca me manifesto, por princípio), por mais que ele integre em si (e integram sempre) interesses obscuros e desvirtuados em relação à sua luta particular. A manifestação é, no meu caso, a ressonãncia pública do meu incomodo e repugnancia em relação ao espectáculo destes tempos e quer apenas fazer eco de um desejo de um ambiente mais respirável, de uma decência qualquer – algo que sei que motiva, por exemplo, e asalvaguardando as distâncias, muitos intelectuais de direita em Itália no seu combate a Berlusconi – e sentir-se-ia MST ou Joana Lopes (e que dizer de Daniel Oliveira?) capaz de se juntar ao coro dessas vozes? e às vozes que se manifestam contra Chávez, distâncias salvaguardadas de novo mas já que estamos em roda livre, oligarquias empresariais incluidas, contra o seu projecto totalitário e contra-democrático? que combates, então, reclamam a unidade da luta?
    É reconfortante, no entanto, notar que, pelo menos, não alinhou na comparação com o assunto Alegre para criticar e marcar fronteiras em relação a essa esquerda que não considera necessária ao seu projecto de auto-emancipação. Será certamente porque esse é um argumento, muito simplesmente, estúpido. Não percebo só porque dele não se demarca, quando tantas vezes se tem demarcado pela negativa. Seria bom, para sabermos só com quem falamos.
    Cumprimentos.

  3. miguel serras pereira diz:

    Caro Manuel J. Neto,
    de acordo quanto ao “afundamento” – em desacordo radical quanto à “neutralidade” política e não-conflitual da sua natureza. Remeto-o aqui para o post do Ricardo Noronha, Da justa resolução das contradições, publicado aqui no 5dias, ontem. E para os comentários a esse post do A. Trigueiros, do Viana e Manuel Resende.
    Em meu entender, os objectivos da “Manifestação da Liberdade” não são a defesa da liberdade de expressão (o Viana explicou-o muito bem há dias, num comentário ao post do Zé Neves), nem a democratização do regime. Os considerandos da Petição apontam para uma musculação da ordem política (em que incluo a organização económica) e não para a extensão da cidadania activa. Evocam irresistivelmente a ideia da “suspensão da democracia” para pôr ordem na casa. Sim, não se pergunta a quem adere a uma manifestação ou a uma acção de luta quais os seus antecedentes políticos – dão-se-lhe as boas-vindas. Mas convém que só vamos a manifestações que expressem uma vontade política que seja a nossa e que lutemos por um dado objectivo ao lado dos que o querem também, e não daqueles que o negam.
    Saudações republicanas

    msp

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