Porque espero que chova copiosamente na quinta-feira à tarde

Comecemos com um apontamento positivo, como diz o outro. A discussão à esquerda em torno da manifestação a favor da liberdade de expressão poderá vir a ter um efeito iluminador para o futuro: aqueles que foram classificados como sectários porque não apoiam Alegre são agora considerados como excessivamente unitários, e aqueles que eram considerados como demasiadamente unitários por apoiarem Alegre são agora acusados de atenderem mais ao acessório do que ao essencial. Boas novas, portanto, e talvez daqui para a frente possamos deixar para trás, de uma vez para sempre, palavras moles como unitarismo e sectarismo. Não digo que sejam palavras que devem ser atiradas de uma só vez para o caixote de lixo da História, mas convenhamos que, muitas vezes, são atalhos que não nos levam muito mais longe do que o ponto de início das discussões que começamos. Mas, antes de deitarmos aquele par de “ismos” para o caixote de lixo da história, talvez possamos ainda aproveitar o que ele nos tem para oferecer na análise do caso da manifestação dos bloggers.

É que em toda esta discussão tendemos a trabalhar com dois paradigmas que não se aplicarão ao caso. O primeiro é o paradigma do unitarismo/sectarismo pela base: seguindo este, tal como não rejeitamos estar ao lado de pessoas de direita numa manifestação contra a ministra da educação, não haverá motivo para deixarmos de estar ao lado de pessoas de direita na manifestação de amanhã. O segundo paradigma é o do unitarismo/sectarismo pelo topo: tal como nos recusamos a ir para o governo com a direita, não devemos ir parar a uma manifestação de que a direita é uma das promotoras. Ora, se é verdade que a manifestação de amanhã não é um acontecimento de “topo”, também não é simplesmente uma coisa da “base”. Dir-me-ão que é algo vindo de um lugar intermédio da vida política, que será a blogoesfera. Mas será este lugar inocente? É que é essa inocência que tem sido aparentada em jornais e televisões que dão conta da manifestação. Quando é dito que a manifestação de amanhã surge da blogoesfera, esta surge como aquele terreno desinteressado e espontâneo onde só existiram seres livres e autênticos com a candura intelectual do Henrique Raposo. E esta imagem deve ser combatida. O problema não é, note-se, uns caramelos de esquerda adornarem uma lista de subscritores composta por uns caramelos de direita. Ou vice-versa. Trata-se sim da diluição do conflito político-ideológico em torno da ideia de uma pátria ameaçada. Eu acho que Sócrates não merece tanto. E acho que a ideia de uma comunidade blogoesférica é qualquer coisa de muito pouco interessante e que deveríamos combater energicamente. Embora, diga-se, não seja deste blogue, nem das pessoas deste blogue que assinaram o tal manifesto, que essa ideia de comunidade recebe mais alento. Pelo contrário, se há blogue que atira pedras a torto e a direito (não deixando, por isso, de correr o risco de ser “recuperado” para o mainstream pelo seu/nosso exotismo – mas isto c’est la vie), é este aqui de onde nos escrevo. A comunidade blogoesférica, uma espécie de parlamento sem gravata nem regimento, se existe e se foi inventada por alguém foi por uma geração de nove ou dez bloggers (digo geração porque é assim que se gostam de ver) que reivindicou para a blogoesfera política um estilo próprio de acção, uma geração que passa a vida a dizer que é de esquerda como os partidos já não são e que é de direita como os partidos já não são e que, ainda assim, sendo mais ideologicamente “livre” e “frontal”, tem amigos de um e de outro lado da barricada. Ora, aqui chegados, o que é novo não é que malta de esquerda tenha amigos de direita ou vice-versa (embora eu ache que o número de casos deste género é manifestamente exagerado, tratando-se de uma espécie de culto do ecletismo e da heterodoxia que não me alegram particularmente). O que será novo nesta comunidade política de amizade blogoesférica é uma certa vontade em dizê-lo alto e em bom som, numa espécie de demarcação em relação à política dos partidos e seus dirigentes ou da rua e dos seus militantes. Mas, talvez eu esteja a ler mal as coisas e o meu receio seja que os meus amigos de esquerda me abandonem e passem a ir almoçar ao 31 da Armada. Que, aliás, disseram-me que mudou de dono e que agora é aquela senhora da televisão que é proprietária, o que não augura nada de bom em relação à manutenção da qualidade do entrecosto italiano.

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