Nem teoria da conspiração nem simples coincidência

Não estamos reduzidos a uma escolha entre Sócrates e quem se opõe a Sócrates. Como não nos deixámos reduzir a uma escolha entre eleger Ferreira Leite e não eleger Ferreira Leite. Devemos combater sempre esta lógica dicotómica. Pagaremos caro se assim não for. Se não amanhã, depois. Todas as lógicas dicotómicas devem ser abandonadas por quem não se encontra satisfeito com o actual estado das coisas porque a lógica dicotómica é o actual estado das coisas. Foi ela que imperou quando nos disseram que deveríamos votar Sócrates para não ter Ferreira Leite. É ela que impera quando nos dizem que o que interessa, antes de tudo o resto, é minar o governo de Sócrates. Mais: isto é tão mais importante na medida em que as últimas eleições legislativas, com a percentagem de votos alcançada pelo PCP e pelo BE, contribuíram para desenhar uma linha de escape à dicotomia de sempre. Para quem privilegia a intervenção política no terreno político-institucional, que não é o meu caso, creio que a opção mais interessante será trabalhar no sentido da tripartição do campo político. É um excelente sinal que tanto BE como PCP se tenham mantido afastados da manifestação de amanhã. Era aliás bom que os partidos à esquerda do PS, no actual quadro de aproximação do PS à sua direita, como sucede com o orçamento de Estado, tivessem a capacidade de apresentar conjuntamente um sinal mínimo de alternativa ao actual estado de coisas. É certo que há falta de capacidade de diálogo entre PCP e BE (não me interessa agora explorar as culpas, assumo, até porque acho que no futuro as coisas só podem melhorar) mas temos tido a CGTP a articular, num plano mais abrangente do que a esfera partidária autoriza, pelo topo e pela base, a hipótese de uma linha política (não necessariamente governativa!) alternativa ao PS. A manifestação de amanhã é uma manifestação política e, como tal, é político saber com quem estamos ou deixamos de estar. A questão não está em invocar teorias da conspiração – como já foi erradamente feito – ou em julgar os actos de amanhã pelos benefícios que trará a outros depois de amanhã – como também já foi feito neste debate. Importa sim não perder de vista que o principal motivo pelo qual não se deve apoiar a manifestação de amanhã não é de ordem táctica: a questão central, para mim (mas acho que isto é válido para quem, neste blogue, não apoia a manifestação de amanhã), é a impossibilidade de defendermos a liberdade de expressão apoiando-nos num manifesto que se preocupa com a ameaça do Estado e nada diz acerca da ameaça dos privados. Admito, é claro, e respeito, opções diferentes. Mas vale a pena ter noção de que, ao incluirmo-nos em algo, estamos sempre a excluir outro tanto. A conversa sobre os que agem e os que não agem, os que afirmam e os que se limitam a negar, os práticos e os téoricos, é por isso oca, vazia, pobre. Quando se faz uma coisa, não se faz outra. Quando se diz que o problema é Sócrates, descarta-se o problema dos privados. Quando se fala de expressão sem falar da expressão que está para lá da língua (a limitação física à entrada de delegados sindicais em sede de empresas, por exemplo), descarta-se a segunda em prol da primeira. Quando se fala da liberdade sem falar da igualdade, descarta-se a segunda. Dir-me-ão que é só uma manifestação. Mas uma manifestação não é só uma manifestação. Muito menos para quem valoriza a manifestação enquanto momento do político por excelência. E eu, sinceramente, já tenho a minha agenda militante demasiado preenchida para ter tempo de ir às manifestações dos outros. Quanto muito, vou pedir ao maradona que me autografe o portátil. Fui.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

16 Responses to Nem teoria da conspiração nem simples coincidência

  1. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Neves,
    1. Era o que faltava que o BE e o PCP apoiassem uma manifestação de bloggers ou que esse fosse o critério da sua justeza.

    2. Pedir que a manifestação de amanhã condene a propriedade privada dos meios de todos os grande meios de comunicação é como pedir que todas as manifestações contra a guerra do Iraque condenassem o imperialismo americano. Justíssimas reivindicações, mas não para estas manifestações.

  2. Luis Rainha diz:

    «ao nos incluirmos em algo, estamos sempre a excluir outro tanto»? Não. Não me passa pela cabeça que combater Sócrates equivalha a descartar «o problema dos privados». Cada gesto nosso não tem de (nem poderia) ser global e totalizante: indo por aí, nunca faria nada de nada, pois não imagino a acção capaz de abarcar todos os horizontes dos nossos desejos de mudança. Nem o voto.
    Não devo falar de liberdade sem mencionar a igualdade? E a paz? E a camada de ozono?
    «Quando se faz uma coisa, não se faz outra.» Uma verdade de La Palisse que nada de sério implica: amanhã, das 13:30 às 14:30 pensarei na liberdade dos nossos media, logo a seguir, tratarei de ponderar a questão dos direitos dos animais, que também me tem andado a moer.

  3. Zé Neves diz:

    nuno, de acordo. mas convenhamos que não faríamos uma manifestação contra a guerra no iraque ao lado de quem está a fazer a guerra na bósnia, por exemplo.

    luís, a questão é que de liberdade toda a gente fala e essa é justamente a agenda daqueles que vão estar ao teu lado (não todos, certo). a agenda da liberdade como valor supremo em detrimento da igualdade. e eu não, como tu, não partihlo o conceito de liberdade deles (e historicamente, nalguns casos, até me arrepia).
    abraços e levem guarda-chuvas. se descobrirem que erraram, em lugar da auto-crítica, dêem-lhes com os ditos.
    abç e boa manif
    viva o benfica

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Zé,
    Fizemos a manifestação do Iraque ao lado de gente que defendia a invasão do Afeganistão, como te recordas.

    Abraço

  5. Niet diz:

    Os blogues foram decisivos para a vitória do Obama! Até o MM.Carrilho tem um Blogue! Os partidos lusitanos entraram no ano passado na blogosfera, directa ou indirectamente, de forma avassaladora…A Manif dos bloguers e das arrepiadas élites da Lapa/ Cascais demonstra a força política incontornável dos blogues em Portugal. Concordo quase a 100 por cento com o que escreveu o Zé Neves, que fez um brilhante e magnífico texto.Um dos melhores de sempre da sua lavra. Todos nós conspiramos, usando bons e maus sentimentos, ideias e afectos a que temos acesso…Como diz o M. Bakounine, ” nós acreditamos que o povo pode-se enganar muitas vezes, mas não há ninguém senão ele próprio que o pode corrigir; se o tentássemos corrigir isso só acarretaria um crescendo de erros e de mal”. A luta continua! Niet

  6. Pingback: cinco dias » Lógica dicotómica

  7. A. Trigueiro diz:

    Julgo que o Zé Neves diz aqui tudo o que era preciso dizer.

    Talvez fosse bom encerrar esta polémica entre todos os que querem , com o mesmo vigor, a derrota do socratismo e a luta contra a direita.

  8. miguelserraspereira diz:

    Bem esgalhado, camarada Zé Neves.
    Podias ter desenvolvido a questão da igualdade cuja reivindicação deve acompanhar a da liberdade para que esta não se torna uma palavra de ordem mistificadora.
    Eu explico, mas (desculpa lá) citando o que escrevi em resposta ao Nuno há cinco minutos, antes de ler o teu post:

    “O que a democracia requer é a conquista da igualdade na liberdade de expressão. Eu explico: tal como dizia um socialista “utópico” que o Castoriadis gostava de citar, a lei proíbe com igual rigor a ricos e pobres dormirem debaixo das pontes. Do mesmo modo, permite a todos criar um jornal ou publicação ou canal ou emissora – o que significa que a liberdade de expressão é mais de uns do que outros. Não vamos dizer que o seu reconhecimento nos termos actuais é vazio e inútil: foi uma conquista duríssima e ainda hoje o é (pense-se no combate a travar contra as igrejas e a censura religiosa que quer levantar de novo a cabeça em plena Europa). Mas teremos de lutar por torná-la igualitária, que mais não seja para a salvaguardarmos. O poder económico é uma forma de poder político tanto mais eficaz quanto não se assume como tal. São as suas prerrogativas – sem as quais, de resto, as manobras de Sócrates não seriam possíveis ou tão fáceis – que temos de atacar e pôr em evidência, em vez de as secundarizar.

    A democratização efectiva do exercício do poder político e dessa sua vertente essencial que é a organização da economia seria a mais radical das revoluções. E a luta que a põe na ordem do dia, que a “age” na sua lógica e na sua dinâmica, deve ser já o critério político por excelência quando ajuizamos de propostas alternativas”.

    Abç

    Caro Niet,
    bem esgalhada também a citação do teu autor de cabeceira. Há uma da Rosa Luxemburgo muito semelhante, quando afirma que mais vale uma decisão errada da democracia operária (ou da base, da malta, em suma, já que cito de cor) do que a melhor verdade imposta pelo comité central (ou outra autoridade hierárquica competente).
    Abç

    msp

  9. miguelserraspereira diz:

    Zé Neves,
    um reparo, apesar de tudo.
    Tu escreves: “É um excelente sinal que tanto BE como PCP se tenham mantido afastados da manifestação de amanhã”.
    Mas não seria mais democrático que falassem? Tanto mais que é pouco crível que não tenham dado por nada…

    Reabç

    miguel

  10. viana diz:

    O post toca em pontos importantes da actual situação política.

    “Para quem privilegia a intervenção política no terreno político-institucional, que não é o meu caso, creio que a opção mais interessante será trabalhar no sentido da tripartição do campo político.”

    Acho que todas as oportunidades devem ser utilizadas para confrontar e mudar o sistema, sem preconceito. Uma estratégia inteligente deve ser abrangente, e jogar em diferentes terrenos em simultâneo. Dito isto, no terreno político-institucional o que o BE tem claramente tentado fazer é cindir o PS, originando uma reconfiguração do sistema na direcção tri-partida que o Zé Neves menciona. Note-se que a ala direita do PS também chegou a “sonhar” com uma re-configuração tri-partida do sistema, mas em vez do partido central ser minoritário, e potencial parceiro júnior numa coligação de governo dominada pela Esquerda ou Direita, como estaria a pensar o Zé Neves e deseja o BE, teríamos antes um PS hegemónico, a la PRI mexicano, “livre” para decidir aliar-se a “franjas” minoritárias ou à Esquerda e ou à Direita.

    “Era aliás bom que os partidos à esquerda do PS, no actual quadro de aproximação do PS à sua direita, como sucede com o orçamento de Estado, tivessem a capacidade de apresentar conjuntamente um sinal mínimo de alternativa ao actual estado de coisas (…) a CGTP a articular, num plano mais abrangente do que a esfera partidária autoriza, pelo topo e pela base, a hipótese de uma linha política (…) alternativa ao PS.”

    A situação política está a evoluir mais depressa do que eu estava à espera. Sempre acreditei que o PSD iria viabilizar o orçamento de estado para 2010, ainda com MFL a líder para fazer o frete. Mas não acreditava que a Direita pusesse a hipótese de derrubar Sócrates antes das eleições presidenciais no início de 2011, pois isso poderia colocar contra Cavaco a parte do Centrão que apoia Sócrates, abrindo a porta a uma ampla frente anti-Cavaco. Pareceu-em que o PSD e Cavaco quereriam um Sócrates cada vez mais enfraquecido pela crise económico-social, e só em 2011 dariam o golpe de misericordia. Já não estou tão certo. A súbita abundância de candidatos a líderes do PSD sugere que a estes cheira a sangue fresco. Parece-me agora possível, mas ainda improvável, que tenhamos novas eleições legislativas ainda este ano. Seria uma jogada de grande risco para Cavaco. Mas pode ser pressionado a tal, para evitar que PCP e BE cresçam ainda mais em eleições em 2011 como resultado do aprofundamento da crise sócio-económica durante 2010. Uma outra hipótese é após a demissão de Sócrates, surgir como líder do PS alguém como António Vitorino, com maior disponibilidade para a partilha de poder, aliando-se ao PSD num tecnocrático “governo de salvação nacional”. Seria claramente a solução ideal para Cavaco (que poderia contar com a ausência dum apoio do PS a Manuel Alegre) e para a “elite sócio-económica”, sempre com medo da instabilidade política (ainda por cima nesta altura, dado que faz aumentar os juros que tem de pagar pelas suas dívidas ao estrangeiro!), em particular ocorrer em simultâneo na rua. Para que interessa toda esta “análise política”? Para tentar demonstrar que o objectivo de derrubar Sócrates já foi efectivamente atingido. É apenas uma questão de tempo até acontecer formalmente. E que o objectivo da Esquerda deve ser agora posicionar-se para o que aí vem. E neste ponto volto ao extracto de texto deste post que coloquei acima: é urgente que BE e PCP, a Esqurda, não deixe que a Direita tome o controlo da agenda mediática e que seja a Direita a construir a narrativa que descreve o porquê e para quê Sócrates caiu. Era muito importante que antes que Sócrates caia formalmente, que tivesse lugar uma grande manifestação nacional, apoiada por PCP, BE, CGTP e outros sindicatos, contra o orçamento de estado para 2010 e as actuais políticas sócio-económicas. Para que centenas de milhares de pessoas possam afirmar a narrativa que interessa à Esquerda: Sócrates vai cair devido à crise económico-social que afecta uma grande parte dos portugueses; porque se rebaixa perante o Capital enquanto rebaixa quem trabalha; é preciso mais política e menos tecnocracia. Tudo coisas incómodas que a Direita tenta desesperadamente abafar.

  11. Algarviu diz:

    Como diz o M. Bakounine, ” nós acreditamos que o povo pode-se enganar muitas vezes, mas não há ninguém senão ele próprio que o pode corrigir; se o tentássemos corrigir isso só acarretaria um crescendo de erros e de mal”. Niet

    Na impossibilidade de perguntar ao citado Bakounine, pergunto ao citador Niet:o que é o povo, aqui promovido a agente transformador, antropomorfizado e deificado? Acho que é uma questão conceptual básica, tão básica que é por aí que fica de fora o rabo do idealismo que emprenha os raciocínios de Miguel, Neves, Viana, Niet e quem os inspira. Para já não falar na ausência metódica dos conceitos de Tempo e Lugar que isso são bizarrias materialistas.

    PS. Miguel, a citação que faz de Rosa Luxemburgo ilustra muito bem o seu idealismo encapotado.

  12. Niet diz:

    Sr, Algarviu: A coisa era mais enquadrada e historicamente até se situa nos debates em torno da criação da AIT. Tem parcialmente razão. Deve é demonstrá-la na prática, claro.Faço-me entender, ou quer que lhe explique melhor? Tome a palavra e diga como é, ok? Bakounine vivia no meio dos saint-simoniens, dos positivistas, dos carbonários, dos blanquistas: tudo isso modela-lhe um pouco o pensamento superior revolucionário que criou. ” Sem nos importarmos das consequências práticas, queremos a verdade antes de tudo e nada mais . Acresce que, nós temos esse tipo de fé, que, apesar de de todas as aparências em contrário, apesar de todas as atemorizadas sugestões de uma prudência política e céptica, acreditamos que só a verdade pode criar o bem prático dos homens . A nossa fé nunca olha para tràz, olha sempre para a frente “. M. Bakounine. OC. VI, Págs.114-115. Niet

  13. Algarviu diz:

    Niet,

    “A nossa “fé”” , “criar o”bem”prático”. Categorias ontológicas notáveis.

  14. miguelserraspereira diz:

    Algarviu,
    nem “idealista” nem “encapotado”, azar o seu: não idealizo as intenções da Petição nem vou, com chuva ou sem ela, à “Manifestação da Liberdade”.

    msp

  15. Algarviu diz:

    Brilhante resposta, Miguel, brilhante resposta. Valha-lhe a belíssima tradução do D. Quixote.

  16. miguel serras pereira diz:

    Algarviu,
    obrigado pelo elogio profissional, antes do mais. Mas, se há pouco lhe respondi assim, é porque – sinceramente – não faço ideia de que razões o levam a chamar-me “idealista encapotado”. Se é por não ser marxista, já o disse várias vezes aqui, pelo que “encapotado” não serei. Mas não sei se idealismo, não o haverá mais em Marx do que em mim. Diga lá as suas razões, homem – se achar que vale a pena. Mas fale claro, que talvez a gente se entenda.
    Saudações republicanas

    msp

Os comentários estão fechados.