Ardinas do Governo

Neste post, alguém lembrou de me dar oportunidade de fazer publicidade a um livro que tive o privilégio de editar com o Francisco Martins Rodrigues e de contar com o prefácio do José Mário Branco (com a preciosa ajuda da Ana Barradas). Não querendo frustrar o Noronha devo dizer que outros fizeram melhores sinopses a este panfleto mascarado de livro. Como sou um vaidoso empedernido deixo-os aqui, aqui e aqui.

A citação é feita de forma a cavalgar no mais recente debate sobre a liberdade de imprensa e não podia obviamente ficar sem resposta. Nos ardinas defendi, entre outras coisas mais polémicas, algo que acredito que o Noronha também defende. Nas redacções houve higienização dos que pensavam fora dos limites do pensamento único. Como consta no post em causa, só sobraram a “meia dúzia de consciências de esquerda para compor uma duvidosa imagem de pluralismo”. Porque é que esta conclusão está em contradição com uma manifestação contra Sócrates e os seus tiques censórios?

Apesar deste aproveitamento e desta denúncia, há que gabar uma clareza no post do Ricardo Noronha. A direita é uma patranha, cheira mal da boca e ainda por cima defende o contrário do que a esquerda em muitas matérias, em particular aquelas que dizem respeito aos trabalhadores e aos sindicatos. Que bom é ser brindado pela luz de tal perspicácia! Subscrevo e subscrevo. Duas vezes para que não sobrem dúvidas e ainda declaro por cima: NÃO GOSTO MESMO NADA DA DIREITA, SEJA A REPRESSIVA SEJA A LIBERAL.

Esclarecidas as dúvidas levantadas pelo RN vamos ao debate:

Alegam os refractários da manifestação de amanhã que “devemos ter cuidado com as companhias”. Não percebo. Toda essa gente foi estudante universitário, do Ricardo Noronha ao Miguel Cardina e claro, ao Daniel Oliveira. Fizeram vezes sem conta greves e manifestações com praxistas, católicos, caciques em ascensão, bebedolas, playboys, jovens do CDS, do PSD, do PS, reaccionários de todas as espécies e feitios. Defenderam a unidade desses sectores em nome de um bem comum. No caso, a defesa da universidade pública, universal, gratuita e de qualidade. Alguém pensava que eles estavam a ser honestos com o que diziam defender? Não tinham uma agenda escondida? Imagino, que pela mesma ordem de razão, defendam a unidade com os sectores antagónicos que queiram direitos para os homossexuais, o aborto livre e ainda a luta contra a globalização. Qual é então o vosso problema? Há gente na rua contra Sócrates e pela liberdade de expressão. Não têm nada a dizer-lhes? Vão deixar toda a propaganda entregue aos armados, aos insurgentes e aos blasfemos? É o velho problema do vácuo. Em política como na lavoura, o que não ocupamos com sementes é invadido por ervas daninhas.

Dizem que não alinham com o PSD e com o CDS e até sugerem que nos retratemos com eles. E porque defenderam que os votos da esquerda do regime (PCP e BE) salvaguardem os milhões do Alberto João Jardim? Vão estar contra cada voto da CDU e do BE, feito ao lado do CDS e do PSD contra o governo do PS? Como sairão dessa masmorra táctica?

Por fim, estão contra que se faça com quem não defende a tomada do palácio de inverno um abaixo-assinado contra a censura, mas já querem levar a representante dos sovietes aqueles que invadindo o palácio de inverno esperam o primeiro momento para expurgar a populaça.

Eu escolho bem com quem me deito, mas divido a mesa com (quase) qualquer um (ainda para mais se houver acordo no repasto). Entendem?

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