Da justa resolução das contradições
9 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

O burburinho em torno do manifesto e manifestação contra Sócrates tem agitado a nossa tasca e outros estabelecimentos, compondo uma tragicomédia de proporções inéditas. Acolho com algum cepticismo as denúncias apaixonadas, mas tardias, do autoritarismo de Sócrates e da sua incapacidade de lidar com críticas. Foi precisamente esse um dos atributos que lhe mereceu mais elogios quando se tratou de reunir o consenso em torno das «reformas difíceis», contra os «interesses corporativos» e as «resistências à mudança». Nunca faltou apoio a Sócrates para «arrumar a casa», mesmo quando isso implicou uma ofensiva generalizada contra o movimento sindical e contra todos os que se atreveram a denunciar o aprofundamento das desigualdades sociais que acompanhava a sua proposta de «modernização». É verdade que não lhe foi então necessário «silenciar», «afastar» ou «perseguir» pessoas que escreviam nos jornais. Pela simples razão de que os jornais foram há muito higienizados contra esse tipo de opiniões, arcaicas e teimosas, tendo ficado apenas meia dúzia de consciências de esquerda para compor uma duvidosa imagem de pluralismo. Das limpezas de redacção e da caricatura de jornalismo que delas resulta, nem vale a pena aqui falar. Alguém sugeriu, a propósito desses factos insólitos, que os jornalistas se viam frequentemente chamados a desempenhar a função de «ardinas da mentira». Há por isso um excesso de crespação neste debate.
Foi só a partir do momento em que as reformas efectuadas – a austeridade que recaiu sobre os sectores da população que pagam todas as crises a pretexto das necessidades de contenção orçamental – fizeram balançar para a esquerda o sentido de voto do eleitorado, reforçando o PCP e o Bloco e levando o primeiro-ministro a reforçar o «conteúdo social» da sua intervenção pública, que as críticas propriamente políticas por parte da direita começaram a surgir. Palavras como «demagogia», «populismo», «despesismo» começaram então a ecoar e bastou um computador portátil em forma de tostadeira para que o espectro de Chávez se visse agitado na política doméstica.
Já havia, evidentemente, quem tivesse manifestado legítimas dúvidas acerca do carácter e idoneidade de Sócrates, por casos relacionados com a sua licenciatura e com a sua actividade profissional. Mas a denúncia insistente do seu autoritarismo só se começou expressar quando se tornou evidente que ele seria tão intransigente nas instituições como nas ruas, ou seja, que trataria as vozes críticas do campo conservador e liberal com o mesmo desprezo que revelara perante as vozes críticas à esquerda. O episódio da ida de agentes da PSP à delegação da FENPROF na Covilhã, a par do processo disciplinar na DREN a um militante do PSD, ilustram bem a diferença de estatuto conferida à liberdade de uns e de outros: a intimidação dos sindicatos e a consequente limitação do direito de manifestação mereceu uns parágrafos noticiosos, a anedota de Fernando Charrua veio revelar o potencial déspota que há dentro do primeiro-ministro.
No fundo, este coro do «eu acho absolutamente inacreditável», esta opinião pública respeitável que deseja marchar sobre S. Bento, nunca teve grande apreço pela liberdade de expressão de quem resiste aos processos de engenharia social em curso. A sua simpatia está toda reservada para quem se propõe levá-los a cabo com maior eficácia. Entre uma manifestação e uma anedota, nunca tiveram qualquer problema em definir prioridades.

Mário Crespo é a mais recente piada de mau gosto. Parece que a democracia se viu ameaçada pelo teor de uma conversa ao almoço, num Hotel do centro de Lisboa. Importa notar que até Manuel Godinho, apesar de poupadinho no que respeita a telemóveis, era mais discreto a tratar dos seus negócios. Prestável e empenhado em demonstrar a sua preocupação pelo bem estar de Sócrates, o director do J.N. apenas veio confirmar que não se deve menosprezar o papel do disparate na história.
O que explica este burburinho não é, portanto, uma indignação genuína perante limitações à liberdade de expressão e à saúde da democracia portuguesa. Essa pode ser a razão para a adesão de algumas pessoas, incluindo as que escrevem no 5 Dias. Mas não foi isso que originou este «movimento», tal como não foi isso que lhe deu a cobertura mediática de que ele goza. A animalidade política de Sócrates levou-o a identificar os seus principais inimigos, a ameaça que representam e os instrumentos de que se podem servir contra ele. Começou a atacá-los com método, ainda que com pouca competência, e eles contra-atacam com indignação, ainda que com pouca seriedade.
Está em curso uma guerra civil entre as duas facções que disputam o aparelho de Estado, conduzidas por pessoas muito pouco recomendáveis e que convém observar com atenção, por tudo o que tem de instrutivo, mas salvaguardando a distância necessária para evitar salpicos de lama. No que à democracia diz respeito não há nenhum lado a escolher. Todos querem o mesmo – um simulacro de democracia que reserva o poder para si e para os seus, obediência para todos os outros. O aparelho judicial e os órgãos de desinformação são o palco deste combate pouco épico, em que a democracia se vê asfixiada alternadamente, ora pela mão esquerda ora pela mão direita.
Se é de princípios que se está a falar, então é bom relembrar que a alternativa a Sócrates nas últimas legislativas gosta de fazer humor a propósito da suspensão da democracia e acha um abuso que os jornalistas escrevam as notícias como querem. Por princípio, parece-me indesejável participar numa manifestação dedicada à causa da liberdade, promovida por pessoas que consideravam Manuela Ferreira Leite a melhor solução para os problemas do país e que se dirigem explicitamente a Cavaco para que ele salve a pátria. É sabido que o homem do leme nunca revelou grandes preocupações com o tema e, no que diz respeito ao combate pela liberdade, chega tarde ao seu encontro com a história. Nenhum episódio de calhandrice será suficiente para fazer dele um democrata. A liberdade não vai passar por aqui. Cuidado com as más companhias.
Adenda: Entretanto, dei conta que estão «todos» pela liberdade. Não é o caso. Alguns ficaram fora da fronda contra Sócrates. Uma pequena aldeia irredutível resiste a esta estranha unanimidade e insiste em erguer a sua barricada numa posição mais sólida. A luta continua.


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