Liberdade, liberdade, liberdade, do trabalho contra o capital
9 de Fevereiro de 2010 por Zé NevesDiz o dito manifesto que o “primeiro-ministro de Portugal tem sérias dificuldades em lidar com a diferença de opinião”. Sim, é certo, mas não consta que outro qualquer primeiro-ministro tenha passado melhor com o facto. Quanto muito, podemos discutir o grau, mas mesmo isso… Ora, a partir daqui, se isto não implica que deixemos de combater a intolerância de um qualquer primeiro-ministro bem concreto e definido, aconselha porém a que não o façamos em nome de um outro primeiro-ministro qualquer, ou, pior ainda, de uma figura soberana como o actual Presidente da Junta. Apelar a um Presidente da República, que, mais a mais, no caso concreto e bem definido pelo ano corrente deste país, não dá mostras de ter mais jeitinho para matéria de liberdade de expressão do que o actual primeiro-ministro, não é uma solução muito entusiasmante… Enfim, o mais importante será isto: não discutiremos a liberdade sem discutir o problema da igualdade, porque expressão não é apenas coisa de palavra, faz-se com o corpo (a própria palavra, diz-se, faz-se muitas vezes com a língua) e o corpo é aquilo que, entre muitas outras coisas, vive sob trabalho e o trabalho assalariado que temos é a negação da liberdade de expressão. A partir daqui, dificilmente se poderá encontrar pontos comuns entre a esquerda e o campo liberal para uma agenda em torno da liberdade de expressão. O condicionamento da liberdade de expressão é o condicionamento da capacidade de criação – seja sob que regime for – e enganam-se aqueles que entendem que os famigerados valores pós-materiais são coisa que diz respeito apenas e só a um bando de intelectuais. Tudo é inseparável, a liberdade e a igualdade, o intelectual e o manual. E não há como etapizar tudo isto.
Com isto, é claro, corro o risco de me juntar ao coro principal de críticas, que dizem que, no fundo, no fundo, vem agora à superfície a prova provada de que os extremos se tocam e sempre se tocaram. Esta é, porém, uma crítica que não tem cabimento nem alimento, que procura apenas tolher a nossa capacidade de movimentação. Replica-se simplesmente a linguagem mastigada da “aliança negativa”. Por isso, queria também dizer que não devemos temer, por princípio, alianças objectivas de qualquer tipo. Porque quem as critica julga-se descobridor de uma objectividade que não deixa nunca de ser, na sua parte de leão, a reificação de um ponto de vista subjectivo. Um ponto de vista demasiado calculista ou excessivamente envergonhado – como me parece suceder por estes dias pelas bandas do Jugular…- para se assumir e dar o peito às balas ou, então, fazer meia-volta e zarpar. Ou seja, quanto a essas críticas, segundo as quais os homens e mulheres de esquerda (pareço o Alegre… chiça) que assinaram o dito abaixo-assinado teriam cometido uma qualquer traição ao espírito antifascista em nome de um interesse meramente táctico, não há muito a fazer, porque haverá sempre alguém demasiado preguiçoso que prefere atalhar caminho com teorias da conspiração que não passam da simples constatação de evidências.
Outra coisa, porém – e é por isso, e porque o assunto não me parece assim tão relevante, que não assino o dito cujo manifesto – serão alianças proto-subjectivas: é que um abaixo-assinado, não sendo um programa de governo, também não é pau-para-toda-a-obra. Já aqui foi chamado a debate o caso do referendo do aborto, em que ninguém destas bandas recusou ou recusaria um voto proveniente das bandas mais à direita. O que é verdade, pois sim. Mas um voto que se encontra com outro voto numa urna é uma coisa diferente de fazer política reunidos, como se fez na ocasião do referendo do aborto, reunindo-se machistas tolerantes e feministas radicais com base na ideia de que seria possível aferir um mínimo denominador comum. E eu continuo a lamentar que a campanha pelo Sim no referendo do aborto tenha sido um momento de retracção de um discurso feminista importante e suficientemente crítico do actual estado das coisas.
Enfim, de novo. Um tipo lê a lista de subscritores do manifesto e, com a excepção dos bons amigos deste blogue, arrepia-se um pouco. Dir-me-ão: uma vez colocada a coisa em cima da mesa, não há como contornar a dialéctica do sim ou sopas. Mas eu talvez fizesse um uso menos rígido da dialéctica…

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