Diz o dito manifesto que o “primeiro-ministro de Portugal tem sérias dificuldades em lidar com a diferença de opinião”. Sim, é certo, mas não consta que outro qualquer primeiro-ministro tenha passado melhor com o facto. Quanto muito, podemos discutir o grau, mas mesmo isso… Ora, a partir daqui, se isto não implica que deixemos de combater a intolerância de um qualquer primeiro-ministro bem concreto e definido, aconselha porém a que não o façamos em nome de um outro primeiro-ministro qualquer, ou, pior ainda, de uma figura soberana como o actual Presidente da Junta. Apelar a um Presidente da República, que, mais a mais, no caso concreto e bem definido pelo ano corrente deste país, não dá mostras de ter mais jeitinho para matéria de liberdade de expressão do que o actual primeiro-ministro, não é uma solução muito entusiasmante… Enfim, o mais importante será isto: não discutiremos a liberdade sem discutir o problema da igualdade, porque expressão não é apenas coisa de palavra, faz-se com o corpo (a própria palavra, diz-se, faz-se muitas vezes com a língua) e o corpo é aquilo que, entre muitas outras coisas, vive sob trabalho e o trabalho assalariado que temos é a negação da liberdade de expressão. A partir daqui, dificilmente se poderá encontrar pontos comuns entre a esquerda e o campo liberal para uma agenda em torno da liberdade de expressão. O condicionamento da liberdade de expressão é o condicionamento da capacidade de criação – seja sob que regime for – e enganam-se aqueles que entendem que os famigerados valores pós-materiais são coisa que diz respeito apenas e só a um bando de intelectuais. Tudo é inseparável, a liberdade e a igualdade, o intelectual e o manual. E não há como etapizar tudo isto.
Com isto, é claro, corro o risco de me juntar ao coro principal de críticas, que dizem que, no fundo, no fundo, vem agora à superfície a prova provada de que os extremos se tocam e sempre se tocaram. Esta é, porém, uma crítica que não tem cabimento nem alimento, que procura apenas tolher a nossa capacidade de movimentação. Replica-se simplesmente a linguagem mastigada da “aliança negativa”. Por isso, queria também dizer que não devemos temer, por princípio, alianças objectivas de qualquer tipo. Porque quem as critica julga-se descobridor de uma objectividade que não deixa nunca de ser, na sua parte de leão, a reificação de um ponto de vista subjectivo. Um ponto de vista demasiado calculista ou excessivamente envergonhado – como me parece suceder por estes dias pelas bandas do Jugular…- para se assumir e dar o peito às balas ou, então, fazer meia-volta e zarpar. Ou seja, quanto a essas críticas, segundo as quais os homens e mulheres de esquerda (pareço o Alegre… chiça) que assinaram o dito abaixo-assinado teriam cometido uma qualquer traição ao espírito antifascista em nome de um interesse meramente táctico, não há muito a fazer, porque haverá sempre alguém demasiado preguiçoso que prefere atalhar caminho com teorias da conspiração que não passam da simples constatação de evidências.
Outra coisa, porém – e é por isso, e porque o assunto não me parece assim tão relevante, que não assino o dito cujo manifesto – serão alianças proto-subjectivas: é que um abaixo-assinado, não sendo um programa de governo, também não é pau-para-toda-a-obra. Já aqui foi chamado a debate o caso do referendo do aborto, em que ninguém destas bandas recusou ou recusaria um voto proveniente das bandas mais à direita. O que é verdade, pois sim. Mas um voto que se encontra com outro voto numa urna é uma coisa diferente de fazer política reunidos, como se fez na ocasião do referendo do aborto, reunindo-se machistas tolerantes e feministas radicais com base na ideia de que seria possível aferir um mínimo denominador comum. E eu continuo a lamentar que a campanha pelo Sim no referendo do aborto tenha sido um momento de retracção de um discurso feminista importante e suficientemente crítico do actual estado das coisas.
Enfim, de novo. Um tipo lê a lista de subscritores do manifesto e, com a excepção dos bons amigos deste blogue, arrepia-se um pouco. Dir-me-ão: uma vez colocada a coisa em cima da mesa, não há como contornar a dialéctica do sim ou sopas. Mas eu talvez fizesse um uso menos rígido da dialéctica…




Zé,
Sabemos bem quão recomendável o Cavaco é. Mas, a bem da verdade, menções com “o Presidente da República, a Assembleia da República e o poder judicial também não podem continuar a fingir que nada se passa” ou “Apelamos, por tudo isto, aos órgãos de soberania para que cumpram os deveres constitucionais que lhes foram confiados” não são propriamente apelos a um novo Berlusconi…
Que muitos dos signatários ficassem felizes da silva se o dito cujo demitisse agora o governo e “tomasse conta” do país, não me espanta. Mas também li coisas bizarras no programa do Bloco e não foi por isso que deixei de votar nele – anda por lá gente que também me assusta de morte. Hoje vejo o meu nome perto do do João Miranda e ouço coisas estranhas como um senhor da TSF a falar em algo que me soa a “bloco 5Dias”. Enfim, melhores dias virão. Mas não estou a ver razões para dormir melhor com o conforto da inacção; à falta de uma petição perfeita, subscrevi esta. E, estranhamente, ainda não me arrependi.
Caro Zé,
maré alta, sim, uma vez mais. Não vamos desistir de lutar contra o governo porque derrubá-lo também a direita quer, e nós não queremos “convergir objectivamente” com ela. Mas devemos lutar marcando a autonomia das nossas razões e da sua expressão ou manifestações. Numa plataforma até podemos não dizer tudo e limitarmo-nos às premissas comuns. Muito bem. Mas não creio que devamos subscrever coisas que contrariam aquilo que pensamos e queremos. Sob pena de nos manifestarmos contra aquilo que queremos, ao mesmo tempo que nos manifestamos contra o governo Sócrates – ou outro.
Abraço
miguel
Não concordo com este post. Sem Liberdade de Expressão não existe combate de ideias, nem de políticas.
A menos que tenha optado pelo tal pensamento “único” das ditaduras comunistas (…) Eu abomino-o. A Vida é de todas as côres. Essa é a lição de todos os Livres-Pensadores, dos grandes Homens.
Tudo o que me “cheira” a pensamento único, a não expressão livre do pensamento e de opinião, abomino.
Subscrevi a Petição e Apelo à Rua. De Todos. Os Democratas.
Sou professora. Filha e neta de lutadores pela instauração de um regime democrático em Portugal. Em termos políticos e sociais sempre me pautei pela defesa de ideais ditos do espectro político da esquerda.
Encetei, desde 2005, uma luta solitária e colectiva, de denúncia de um fascista e do seu gang.
Primeiro: o combate é pela Democracia.
Segundo: dentro da pluridade de opiniões dos cidadãos discutem-se, debatem-se, combatem-se ideias, fórmulas.
Bom post! Um conselho da minha banda: ” Para organizar uma força, não chega só unir os interesses, os sentimentos,o pensamento. É preciso unir as Vontades e os Caracteres. Os nossos inimigos organizam as suas forças com a potência do dinheiro e pela autoridade do Estado. Nós não podemos organizar as nossas senãopela convicção e a paixão!!! “.( M. Bakounine). Niet
“a sua prosa, que tenta justificar a todo o post a presença neste blogue (onde está claramente desenquadrado), chega a ser fascinante”.
Era isto que ia escrever em comentário ao post, até que vi a parte sectária do texto em que aborda a campanha do aborto.
A campanha do aborto foi uma vitória da modernidade, da esquerda progressista contra o conservadorismo católico bacoco deste país. Quem defendeu que a campanha pelo SIM deveria aproveitar os tempos de antena para malhar em ataques ao serviço nacional de saúde, assim como aqueles que lamentam não ter havido ” um discurso feminista importante e suficientemente crítico do actual estado das coisas” estavam todos completamente errados. Se esse tivesse sido o caminho do SIM ainda hoje as mulheres estavam a ser julgadas e humilhadas. Quem estava comprometido com a mudança do “actual estado das coisas” não arriscou a liberdade da mulher num discurso feminista mais “avançado” que apenas podia conduzir à derrota – e esse sim, foi o discurso e a prática feminista mais “avançada” que se podia ter tido.
E o país medieval que perseguia as mulheres, acabou por aprovar o casamento de pessoas do mesmo sexo passados cinco anos – ainda resultante da mudança cultural que a campanha do SIM imprimiu na sociedade portuguesa.
Outro caso completamente diferente é o desta ridícula manifestação que mais parece ter sido encomendada pela direcção laranja aos seus blogues satélites. Não vale a pena dar voltas ao texto Zé Neves: a maior parte daqueles que escrevem neste blogue, que não fazem outra coisa que não descobrir traços reformistas em toda a gente que é de esquerda (de facto, toda a energia neste blogue é canalizada a tentar “desmascarar” todos os que estão no mesmo campo político deste blogue), acabam com este apoio de mergulhar na absoluta incoerência e o Zé Neves, que é quem melhor pensa aqui, sente-se ligeiramente desconfortável. E tem razão.
Mas mais uma vez a retórica salvou-lhe o dia. É bem…
Liberdade com Todos, num Tea Party próximo de si.
O Burnay e o Vidal estão assegurados, a Palin não garantimos.
Caro Zé Neves,
Obrigado. Fico um bocado mais decançado. É que a ler aquele manifesto um tipo arrepia-se mesmo, e não é pouco.
Um abraço
Desculpem: “mais descansado”
“Enfim, o mais importante será isto: não discutiremos a liberdade sem discutir o problema da igualdade, porque expressão não é apenas coisa de palavra, faz-se com o corpo (a própria palavra, diz-se, faz-se muitas vezes com a língua) e o corpo é aquilo que, entre muitas outras coisas, vive sob trabalho e o trabalho assalariado que temos é a negação da liberdade de expressão.” É isso mesmo! É isso mesmo que a maior parte da esquerda vai deixar de dizer em frente ao parlamento por mero calculo politico e por sectarismo.
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