Anti-Social-Fascismo (R)?

Apesar de não pôr em causa a sinceridade das motivações de muitos dos que entendem que defender a liberdade de expressão passa pela subscrição do apelo à “Manifestação da Liberdade”, penso, como a Joana Lopes (ver link no post a seguir citado), que subscrevê-lo é – como tentei mostrar na caixa de comentários ao post Respeitinho do Tiago Mota Saraiva – um erro político grave para quem defende a extensão das liberdades democráticas e a democratização radical das instituições, distorce os princípios correspondentes aos dois objectivos. E que é esse o sentido político da inconsistência lógica dos considerandos do apelo. Acho que esta aliança, para quem defende a extensão das liberdades democráticas e a democratização radical das instituições, distorce os princípios correspondentes aos dois objectivos. E que é esse o sentido político da inconsistência lógica dos considerandos do apelo.

Se o governo Sócrates merece cair por muitas razões,  o apelo omite muitas das principais; e se esse silenciamento é o preço da unidade da acção, receio que seja o branqueamento antecipado de um próximo governo “de verdade”, e das suas previsíveis tentativas de berlusconização do regime por via presidencial ou “mista” (coligação da Presidência e forças político-partidárias eventualmente recombinadas), e de “limitação económica” agravada dos direitos sociais e liberdades.

Há na “lógica” e na “dinâmica” desta movimentação qualquer coisa que evoca em termos “estranhamente inquietantes” a doutrina da social-democracia definida “social-fascismo” como inimigo principal do período entre as duas guerras. Os protagonistas são outros, os contextos são diferentes (embora a “crise actual” tenha traços que fazem pensar na da época referida). Mas não me parece despropositado recomendar, no momento presente, aos que vêem na Manifestação da Liberdade um movimento que os democratas e anticapitalistas fariam bem em apoiar, a leitura do texto completo do João Bernardo do qual a seguir cito alguns excertos. Lido este, talvez não fosse também inútil uma releitura do comentário que o Viana ontem publicou, também na caixa do post Respeitinho.

Foi então [depois do IX Congresso do PC alemão, em 1924] que Zinoviev, à frente da III Internacional, decretou que a social-democracia constituía um «social-fascismo» e que todo o perigo do fascismo vinha dos partidos sociais-democratas. Classificar a social-democracia como «social-fascismo» foi a condição ideológica necessária para que os comunistas seguissem uma estratégia nacional-bolchevista. Estes dois duplos conceitos aberrantes justificavam-se mutuamente, e os partidos comunistas, ao mesmo tempo que tentavam ultrapassar a social-democracia pela esquerda, tentavam também ultrapassar o fascismo pela direita, proclamando-se eles como os verdadeiros nacionalistas. Esta orientação não se restringiu à Alemanha e aplicou-se a todo o mundo. Até nos Estados Unidos o minúsculo Partido Comunista combatia denodadamente, ou seja, à paulada na rua, o cordato Partido Socialista. Em França não foram poucos os comunistas a simpatizar com certas acções de rua das milícias fascistas, enquanto a direcção do Partido se recusava a qualquer unidade de acção com os socialistas. A actuação dos partidos comunistas facilitou a ascensão dos fascismos em todo o mundo, mas foi na Alemanha que teve consequências mais catastróficas.

Mais tarde:

À medida que os nazis se aproximavam do poder, os dirigentes comunistas descobriram que eles representavam uma forma de capitalismo mais avançada do que a social-democracia, e por conseguinte, em nome da dialéctica marxista e das leis do progresso social, que o radicalismo nazi devia ser apoiado contra o reformismo social-democrata. Este colossal erro de estratégia decorria de um erro, não menos impressionante, na avaliação da dinâmica do capitalismo. Num discurso pronunciado em Fevereiro de 1932 perante o comité central do seu partido, Ernst Thälmann declarou: «A nossa estratégia consiste em dirigir o principal ataque contra a social-democracia, sem com isto enfraquecer a luta contra o fascismo de Hitler; é precisamente ao dirigir o principal ataque contra a social-democracia que a nossa estratégia cria as condições prévias de uma efectiva oposição ao fascismo de Hitler. […] A aplicação prática desta estratégia na Alemanha exige que o principal ataque seja desferido contra a social-democracia. Com as suas sucursais esquerdistas, ela fornece os instrumentos mais perigosos aos inimigos da revolução. Ela constitui a principal base social da burguesia, é o factor mais activo da transformação fascista […] e, ao mesmo tempo, enquanto “ala moderada do fascismo”, ela sabe empregar as manobras mais enganadoras e mais perigosas de maneira a atrair as massas para a ditadura da burguesia e para os seus métodos fascistas».

Por fim:

Assim, os comunistas unir-se-iam aos nacionais-socialistas para combater o fascismo! Esta aproximação culminou na votação conjunta dos deputados comunistas e dos deputados nazis destinada a derrubar o governo de von Papen, na sessão parlamentar de 12 de Setembro de 1932. […] Não faltaram então, na esquerda internacionalista, vozes a prevenir que o Partido Comunista estava apenas a ajudar o nacional-socialismo, mas se os avisos de Rosa Luxemburg, de Paul Levi, de Pfemfert, de Clara Zetkin e de tantos outros haviam sido inúteis, estes foram-no também.

[…]

Só o 7º Congresso da Internacional Comunista, em meados de 1935, inverteria esta orientação e iniciaria a fase das frentes comuns com a social-democracia. Mas para a Alemanha era tarde demais. O nacionalismo, neste caso ultranacionalismo, da III Internacional e especialmente do Partido Comunista alemão havia já liquidado a segunda maior organização comunista e destroçado completamente aquela que fora a vanguarda mais aguerrida do operariado mundial.

Ver o texto completo em Passa Palavra:  http://passapalavra.info/?p=5364#more-5364

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