Anti-Social-Fascismo (R)?

Apesar de não pôr em causa a sinceridade das motivações de muitos dos que entendem que defender a liberdade de expressão passa pela subscrição do apelo à “Manifestação da Liberdade”, penso, como a Joana Lopes (ver link no post a seguir citado), que subscrevê-lo é – como tentei mostrar na caixa de comentários ao post Respeitinho do Tiago Mota Saraiva – um erro político grave para quem defende a extensão das liberdades democráticas e a democratização radical das instituições, distorce os princípios correspondentes aos dois objectivos. E que é esse o sentido político da inconsistência lógica dos considerandos do apelo. Acho que esta aliança, para quem defende a extensão das liberdades democráticas e a democratização radical das instituições, distorce os princípios correspondentes aos dois objectivos. E que é esse o sentido político da inconsistência lógica dos considerandos do apelo.

Se o governo Sócrates merece cair por muitas razões,  o apelo omite muitas das principais; e se esse silenciamento é o preço da unidade da acção, receio que seja o branqueamento antecipado de um próximo governo “de verdade”, e das suas previsíveis tentativas de berlusconização do regime por via presidencial ou “mista” (coligação da Presidência e forças político-partidárias eventualmente recombinadas), e de “limitação económica” agravada dos direitos sociais e liberdades.

Há na “lógica” e na “dinâmica” desta movimentação qualquer coisa que evoca em termos “estranhamente inquietantes” a doutrina da social-democracia definida “social-fascismo” como inimigo principal do período entre as duas guerras. Os protagonistas são outros, os contextos são diferentes (embora a “crise actual” tenha traços que fazem pensar na da época referida). Mas não me parece despropositado recomendar, no momento presente, aos que vêem na Manifestação da Liberdade um movimento que os democratas e anticapitalistas fariam bem em apoiar, a leitura do texto completo do João Bernardo do qual a seguir cito alguns excertos. Lido este, talvez não fosse também inútil uma releitura do comentário que o Viana ontem publicou, também na caixa do post Respeitinho.

Foi então [depois do IX Congresso do PC alemão, em 1924] que Zinoviev, à frente da III Internacional, decretou que a social-democracia constituía um «social-fascismo» e que todo o perigo do fascismo vinha dos partidos sociais-democratas. Classificar a social-democracia como «social-fascismo» foi a condição ideológica necessária para que os comunistas seguissem uma estratégia nacional-bolchevista. Estes dois duplos conceitos aberrantes justificavam-se mutuamente, e os partidos comunistas, ao mesmo tempo que tentavam ultrapassar a social-democracia pela esquerda, tentavam também ultrapassar o fascismo pela direita, proclamando-se eles como os verdadeiros nacionalistas. Esta orientação não se restringiu à Alemanha e aplicou-se a todo o mundo. Até nos Estados Unidos o minúsculo Partido Comunista combatia denodadamente, ou seja, à paulada na rua, o cordato Partido Socialista. Em França não foram poucos os comunistas a simpatizar com certas acções de rua das milícias fascistas, enquanto a direcção do Partido se recusava a qualquer unidade de acção com os socialistas. A actuação dos partidos comunistas facilitou a ascensão dos fascismos em todo o mundo, mas foi na Alemanha que teve consequências mais catastróficas.

Mais tarde:

À medida que os nazis se aproximavam do poder, os dirigentes comunistas descobriram que eles representavam uma forma de capitalismo mais avançada do que a social-democracia, e por conseguinte, em nome da dialéctica marxista e das leis do progresso social, que o radicalismo nazi devia ser apoiado contra o reformismo social-democrata. Este colossal erro de estratégia decorria de um erro, não menos impressionante, na avaliação da dinâmica do capitalismo. Num discurso pronunciado em Fevereiro de 1932 perante o comité central do seu partido, Ernst Thälmann declarou: «A nossa estratégia consiste em dirigir o principal ataque contra a social-democracia, sem com isto enfraquecer a luta contra o fascismo de Hitler; é precisamente ao dirigir o principal ataque contra a social-democracia que a nossa estratégia cria as condições prévias de uma efectiva oposição ao fascismo de Hitler. […] A aplicação prática desta estratégia na Alemanha exige que o principal ataque seja desferido contra a social-democracia. Com as suas sucursais esquerdistas, ela fornece os instrumentos mais perigosos aos inimigos da revolução. Ela constitui a principal base social da burguesia, é o factor mais activo da transformação fascista […] e, ao mesmo tempo, enquanto “ala moderada do fascismo”, ela sabe empregar as manobras mais enganadoras e mais perigosas de maneira a atrair as massas para a ditadura da burguesia e para os seus métodos fascistas».

Por fim:

Assim, os comunistas unir-se-iam aos nacionais-socialistas para combater o fascismo! Esta aproximação culminou na votação conjunta dos deputados comunistas e dos deputados nazis destinada a derrubar o governo de von Papen, na sessão parlamentar de 12 de Setembro de 1932. […] Não faltaram então, na esquerda internacionalista, vozes a prevenir que o Partido Comunista estava apenas a ajudar o nacional-socialismo, mas se os avisos de Rosa Luxemburg, de Paul Levi, de Pfemfert, de Clara Zetkin e de tantos outros haviam sido inúteis, estes foram-no também.

[…]

Só o 7º Congresso da Internacional Comunista, em meados de 1935, inverteria esta orientação e iniciaria a fase das frentes comuns com a social-democracia. Mas para a Alemanha era tarde demais. O nacionalismo, neste caso ultranacionalismo, da III Internacional e especialmente do Partido Comunista alemão havia já liquidado a segunda maior organização comunista e destroçado completamente aquela que fora a vanguarda mais aguerrida do operariado mundial.

Ver o texto completo em Passa Palavra:  http://passapalavra.info/?p=5364#more-5364

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29 respostas a Anti-Social-Fascismo (R)?

  1. Tiago Mota Saraiva diz:

    msp, tem todo o direito em discordar do que bem entenda.
    Que o apelo podia ser mais incisivo, que a corrupção é genética ao capitalismo, que devíamos pegar em armas em vez de nos manifestarmos em frente do parlamento burguês… Tudo seria defensável.
    Mas as suas considerações remetem sempre para um interesse oculto ou uma catalogação histórica. Desta feita será porque sou social-fascista.
    Contudo não posso deixar de constatar que a sua participação neste blogue se resume à fiscalização/demarcação sobre o que os outros escrevem ou a anunciar os eventos para que é convidado.
    Que fique claro, apenas constato. Não tenho qualquer interesse em discutir o assunto.

  2. mas há alguma cabala nazi em andamento?

  3. António Viana diz:

    Eu vou, porque quero acreditar que nem tudo o que é cívico é político. Podem confundir-me com tudo o que queiram. Antes do 25 de Abril, houve sectores católicos e monárquicos que ajudaram as BR – foram chamados de traidores e comunistas pelo seu meio e de diletantes e decadentes pelos “camaradas”. Sermos associados a isto ou aquilo faz parte dos riscos de assumirmos uma posição, e não é dos mais leves.

    No Catcher in the Rye, há aqueles a que H.C chama “phonies” – com a sua roupa de marca e a sua conversa sobre esqui , e há os “flits” – com o cabelo comprido e a sua conversa sobre revolução. Eu sei que na quinta a manifestação vai estar cheia de phonies e de flits. Infelizmente, há momentos em que já nem isso é suficiente razão para se ficar em casa.

  4. miguelserraspereira diz:

    Não disse que o TMS é social-fascista – termo que não uso a não ser para citar os que o fazem ou fizeram. Considero o termo “social-fascista” tributário de concepções que não partilho . Faz ou fez parte do vocabulário do estalinismo (contra a “social-democracia”) e do maoísmo (contra os “revisionistas”).
    O que eu disse foi que me parece errado que quem quer defender liberdades democráticas e direitos sociais, eventualmente apostando na sua extensão e aprofundamento em termos de ruptura com a ordem estabelecida, o faça integrando-se na Manifestação da Liberdade. E é para quem julgo que considera a liberdade e a igualdade democráticas importantes e em nome delas combate este governo que falo. A esses tento mostrar que adoptar perante este governo e o regime certas formas de luta e certas plataformas de acção – comparáveis, salvaguardadas todas as proporções com as posições que levaram o PC na Alemanha de Weimar a proclamar a teoria pseudo-radical do “social-fascismo” – corre o risco de estar a comprometer os seus próprios objectivos. Os meus argumentos não são para os ideólogos da reacção fascista ou neo-liberal. Mas dirigem-se àqueles que tenham em comum alguns objectivos fundamentais que são também os meus.
    msp

  5. miguelserraspereira diz:

    Caro António Viana,
    verifico que de premissas comuns (pelo menos, em parte), tiramos conclusões diferentes. E receio que você, “para não ficar em casa”, possa estar a contribuir para males maiores. Transcrevo um comentário do Miguel Cardina, no Minoria Relativa, às minhas posições (Cf.http://minoriarelativa.blogspot.com/2010/02/sobre-o-manifesto-da-liberdade.html?ext-ref=comm-sub-email ):

    “Caro Miguel Serras Pereira,
    Tenho acompanhado as discussões também nas caixas de comentários. Gostei particularmente do que disse, bem como do comentário do Viana. Imaginar-me na rua, vestido de branco, com os adeptos do cavaquismo e os órfãos da direita organizada, a apelar à “liberdade” também me parece um caminhos que mais rapidamente leva a um “populismo de direita” do que a um aprofundamento da democracia.”

    Cordiais saudações democráticas

    msp

  6. Aniceto Azevedo diz:

    Não foi preciso muito.
    Eis então o novembrismo do Serras Pereira. Eis a infâmia.
    Como compatibilizar este pedaço de estúpida prosa, de verrina bacoca, com o Chico Martins de Anti-Dimitrov, por quem choraram lágrimas de crocodilo os hipócritas encartados? Como?
    O TMS já disse tudo sobre quem escreveu este post. E toda a gente já se fartou de perceber o que significa exactamente para esse senhor “a extensão das liberdades democráticas e a democratização radical das instituições”.
    Ui, que radical!

  7. Niet diz:

    ” As revoluções não são jogos de crianças, nem um debate académico onde só as vaidades se massacram, nem um concurso literário onde só se espalha a tinta. A Revolução é a guerra, e quem diz guerra diz destruição dos homens e das coisas “- M. Bakounine. A manobra hedionda do Manifesto- espécie de albergue espanhol – onde todos os cínicos, os corruptos e os serviçais de um macabro sistema se unem e barricam para se prepararem para o assalto final de um pólo vital do poder, a Comunicação, não pode nem deve enganar ninguém de boa-fé e de aprumo democrático. O recorte da manobra de envolvimento(s) lembra a acção desestabilizadora e criminosa da CIA no Chile, no Brasil, na Argentina nos anos 60, com as funestas e trágicas consequências que daí derivaram.Ao combate, pois! Niet

  8. Miguel,
    Assino por baixo o teu texto, como já devias calcular pelas conversas no Brumas. Acabo de lá publicar um texto que talvez ajude alguns a entender o que se entretiveram a adivinhar aqui quanto ao sentido de uma frase que escrevi ontem

  9. António Viana diz:

    Caro Miguel Serras Pereira:

    Não sou o Viana a que se refere Miguel Cardina.
    Em relação à sua invocação de Weimar, gostava de dizer isto. Concordo que o momento trágico da história da república foi aquele em que os dois principais partidos, perante sérias ameaças à Constituição e ao espírito da República, por tacticismo e por medo, não conseguiram assegurar um compromisso histórico. A diferença entre a sua posição e a minha é simplesmente esta: para mim, os dois partidos mais importantes da república não foram as ditas “forças progressistas”, o SPD e KDP. Foram antes as forças democráticas: o partido de Stresemann e os sociais democratas. Foi com o colapso da aliança entre sociais-democratas e liberais (- e centristas tb) durante a Grande Depressão que o fim de Weimar se anunciou. Na minha opinião, a república falhou em primeiro lugar porque a esquerda parlamentar não se soube entender com os liberais e com os Vernunftrepublikaner.
    Deveria fazer nesta altura o travelling para os acontecimentos de quinta, e dizer que esta leitura alternativa confere legitimidade às pessoas de esquerda que resolveram ir à manifestação. Mas acho que é ilicita a comparação: a sua possível justeza em termos “historico-políticos”, não a torna menos ridícula, tão só mais grotesca. Nunca usar o reductio ad hitlerum na discussão não seria um mau princípio – sobretudo quando se discute a história política desta aglomeração de sardinhas que chamamos Portugal.

    AV

  10. Tiago Mota Saraiva diz:

    Joana Lopes, como se refere aos “alguns” que sou eu, permita-me que lhe diga que acho ainda mais lamentável o seu post de hoje. A altivez com que se refere aos pobres que se manifestam é confrangedora.
    Contudo, percebo a sua indignação contra “alguém” (neste caso não sei quem será) que usa uma canção do Zeca para combater este governo tendo em conta que não é essa a construção da história que a Joana e os seus “alguns” querem fazer.

  11. zé neves diz:

    tiago, repara que a tua crítica ao miguel, dizendo que a sua participação neste blogue se resume a demarcações e a anunciar eventos em que participa, é bastante semelhante à crítica que os ps fazem ao pcp: que só está na assembleia para dizer não e para fazer ouvir a sua cassete. não creio que seja esse o caso – tanto em relação ao miguel como em relação ao pcp – embora deva acrescentar que não veria nenhum problema se assim fosse. todas as afirmações são demarcações, mesmo se pela “positiva”. além de que, se há alguma coisa que eu critico em relação à intervenção do miguel neste blogue, é o seu diminuto protagonismo. que, por exemplo, faz com que ele muitas vezes coloque nas caixas de comentário, em discussão com tantos e tantas, muitos dos seus contributos mais precisos. é um excesso de horizontalismo (de comunismo) do miguel que se calhar não se compadece com o jogo espectacular que preside às lógicas do miguel. mas que semelha muito e bem.
    abç

  12. Manuel Resende diz:

    Miguel

    Sabes perfeitamente que estamos em oposição em muntas e variadas cousas. E uma das cousas que mais me chateia é não ter tempo de as debater contigo. Mas deixa-me dizer-te que neste caso não posso deixar de estar de acordo contigo.

    Beijos e abraços
    manel (resende)

  13. miguelserraspereira diz:

    Bem-Aparecido Manuel (Resende),
    de debate em debate, lá chegaremos ou avançaremos um bocado (sejamos modestos) para o que queremos os dois – e tantos outros.
    O teu apoio é reconfortante nesta altura. Dá uma espreitadela ao Brumas da Joana – acaba de publicar um post muito bom.
    Abraço conselhista

    O Tiago Mota Saraiva parece apostado em imitar os insultos que o Carlos Vidal tem vindo a endereçar à Joana Lopes. Lamentável, lamentável… A propósito de canções do Zeca, também eu me servi da evocação de uma na caixa de comentários ao post do Miguel Cardina no Minoria Relativa.

    António Viana,
    eu sei que você não é o Viana que citei aqui e noutros lugares – autor de um lúcido (em meu entender) comentário sobre a “Manifestação da Liberdade”.
    Mas você devia ler melhor o que eu escrevi. Mantenho tudo o que disse na resposta anterior. Não operei qualquer reductio ad hitlerum. Mas lá que uma berlusconização à portuguesa é um perigo real, promovido por este governo entre outras forças, lá isso é.

    Caro Niet,
    de acordo, mas convém ter presente que há muita gente a apoiar a “Manifestação da Liberdade” que o faz de boa-fé democrática. Neste momento é para esses que, antes do mais, devemos falar.
    Sei que concordarás comigo. Abraço libertário

    Cara Joana,
    subscrevo e aplaudo. Agradeço-te uma vez mais o post de ontem que disse o que era preciso no momento preciso e que me mobilizou e a outros para tomarmos publicamente posição contra a “Manifestação da Liberdade”.
    Abraço solidário

    msp

  14. Schomp diz:

    msp,

    A sua posição faz-me compreender melhor como foi possível o pc francês apelar à sabotagem contra os que lutavam pela liberdade na França de 1938 e 39.
    É simples, tão simples quanto apenas conseguir dizer «liberdades», tão plurais e tão nada.

  15. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Miguel,
    Já tinha lido esta teoria fantástica que foram os comunistas que colocaram os nazis no poder, escrita por uma historiadora do Jugular, que afirmava que as pessoas que não votavam sócrates colaboravam com os nazis. Nessa altura, o Zé Neves escreveu um post a denunciar a falta de honestidade intelectual da Irene Pimentel. Acho esse post muito actual.
    Vou-te dar um exemplo, estive com gente de direita na solidariedade com a luta do povo de Timor Leste. No dia em que houve a interrupção de trabalho, eu estava a trabalhar com o Luís Sá na Soeiro, e toda a gente saiu, coincidimos com as centenas de correctores da Bolsa de Lisboa. Nunca me cairam os parentes na lama por isso. Não tenho que defender um governo injusto e desonesto, pq a direita existe. Este é o tipo de chantagem que eu não aturo.
    Aqui fica uma passagem do post do Zé Neves, que se aplica, para mim, ao teu post:
    “A minha crítica à Irene Pimentel tinha justamente que ver com uma impertinente agitação do espantalho do salazarismo a propósito de Ferreira Leite, agitação que julguei ser feita pela Irene ali e ali. E se aí não é sugerido que Ferreira Leite é Salazar “revisitado”, peço desculpa, sou eu, com toda a certeza, que não fui rigoroso, mas sim precipitado. Entretanto, a Irene Pimentel, num tom crispado que talvez seja desnecessário manter tão em alta, diz que não faz comparações abusivas, mas não resiste a acrescentar que, se as fizesse, à sua cabeça subiria logo “a forma como o Partido Comunista Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder ao erigir os sociais democratas como “sociais fascistas”“. Em relação a isto, duas coisas. Em primeiro lugar, ou o que é devido não impede que a Irene faça comparações, e ela então faz; ou impede e então é melhor mesmo não fazer. Em segundo lugar, manifesto novamente a minha discordância em relação a este tipo de argumentação. Eu também tenho muitas críticas a fazer em relação à estratégia do Partido Comunista Alemão no final dos anos 20 e início dos anos 30 e podemos ficar aqui mil e uma horas a discutir a estratégia de “classe contra classe” e todas essas coisas. Mas eu não escreverei que o PC Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder. Este tipo de afirmação é simplista e remete o historiador para um papel eventualmente legítimo mas que recuso. Em lugar de compreender a complexidade do passado, de procurar reabrir o passado à desordem que o marca, de situar as inúmeras bifurcações e multiplicidades, o historiador e o intelectual surgem aqui como escritores da ordem, de raciocínio continuista, preocupados em estabelecer a continuidade das coisas para além de tudo o que remeta para a discontinuidade, dedicando-se a subsumir e sintetizar o que está disperso numa ordem que entende objectiva, natural ou divina. Nunca vê que é ele próprio, a sua legítima subjectividade, que está a falar quando se diz que os comunistas contribuiram para a chegada do nazismo. Segundo esta lógica, o que mais interessaria reter não seria o antagonismo entre comunistas e nazis (de que a Irene dá conta no seu post, aliás, ao referir que os comunistas alemães foram dos primeiros a ir parar a campos de concentração), mas sim um resultado final, que seria o triunfo de Hitler. O antagonismo não teria “valor” histórico de qualquer espécie; os vencidos são sempre vencidos e a sua história é sempre inútil??!? Por fim, há um aspecto um pouco mais desagradável, mas também menos relevante, no post da Irene Pimentel. Ela classifica os que criticam a sua crítica a Ferreira Leite de serem defensores de Ferreira Leite, vindos “curiosamente de partidos que eu julgaria opostos ao PSD”. Isto é caceteirismo ou, se preferirem, a dialéctica na sua versão mais empobrecedora. Recorda a forma de argumentar dos americanistas que diziam não podermos criticar a intervenção norte-americana no Iraque porque isso significava apoiarmos objectivamente Saddam Hussein; ou dos anti-americanistas que dizem não podermos criticar o regime iraniano porque isso significa apoiar objectivamente o imperialismo norte-americano. Já quanto à minha eventual filiação partidária, não sucede que seja como a Irene diz; ela, é claro, não teria que saber isso, mas poderia optar por não falar do que não sabe. O Simplex deveria parar de achar que toda a gente que critica o PS está ao serviço do KGB. Quem escreve no Simplex pode estar muito convencido da sua heterodoxia, dando-se ao luxo de classificar todos os outros como ortodoxos. Mas deveria compreender que a exaltação da heterodoxia impede a sobriedade que é sua condição. A continuar assim, o Simplex não é sensato nem radical. Redunda num simples caso de extremismo do centro.”

  16. Tiago Mota Saraiva diz:

    Zé, a minha constatação é factual não pretende ser um soundbite. Não sei o que entendes por comunismo horizontal, mas espero que não seja adormecido.

  17. Tiago Mota Saraiva diz:

    msp, tenho dúvidas que leia os meus comentários.

  18. B diz:

    Caro Miguel,
    Berlusconi em Portugal é difícil.
    O que entende por “berlusconização”?
    Afinal o homem fez fortuna fora da política, enquanto aqui continua a fórmula ancient régime de a fazer a partir de lugares do estado e empresas adjacentes. Quanto ao resto, reina aqui a gravidade aldeã, (ou culto da sua aparência) e o gosto arreigado dela, tudo pouco compatível com o “vitalismo” de Berlusconi.

  19. Pingback: Arrastão: Demagogia feita à maneira

  20. miguelserraspereira diz:

    TMS, você é que não lê bem os meus e julga que eu lhe estou a chamar “social-fascista” a despropósito.

    Caro Nuno,
    1. Eu não disse que foi o PC alemão que pôs os nazis no poder – nem o texto do João Bernardo o afirma. O texto em questão oferece uma análise que é a de muitos historiadores e também figuras históricas do socialismo. Vê o Daniel Guérin, por exemplo; os testemunhos de numerosos revolucionários que tiveram de se haver com a GPU e Gestapo; os escritos do próprio Trotski sobre o assunto. De resto, livros que conheces bem sobre a extrema-direita entre as duas guerras oferecem análises semelhantes no que se refere a outros países – por exemplo, a França.

    2. Podíamos e devíamos condenar a invasão do Iraque sem defender Saddam e não abdicando cada um das suas próprias bandeiras. Mas não devíamos convocar acções de rua por meio de considerandos que desvirtuassem as nossas posições ou confortassem o regime de Saddam.

    3. Se os continuadores do Simplex acham ainda que quem critica o PS e o governo Sócrates, está ao serviço do KGB ou do fascismo, sou um dos alvos da acusação. Nada na minha tomada de posição desculpa a este governo seja o que for. Nada condena as acções de rua em geral. Nada subestima a liberdade de expressão. Já me expliquei o suficiente sobre este ponto. E outros o fizeram também.

    4. A perspectiva de uma berlusconização à portuguesa não é uma fantasia nem uma boutade, como sublinhou a Joana Lopes. Os últimos governos de Sócrates abriram-lhe caminho. Uma recomposição das forças da direita, passando eventualmente por uma debandada de notáveis do PS (como aquela que vimos em França há bem pouco tempo) e por uma aglomeração populista em torno de uma figura “presidencial”, “acima dos partidos”, “competente” e “moralizadora”, está já em curso e sabe que, como um ideólogo da sua cartilha económica dizia, “a crise é uma oportunidade” (Milton Friedman) para vergar as camadas populares.
    A resposta a esta perspectiva passa pela reanimação da participação democrática e pela reafirmação em palavras e actos das alternativas que lhe convêm. O descontentamento não basta e, em si próprio e por si só, pode servir de combustível à reformulação musculada do poder de Estado e do funcionamento da economia que muitas centrais da opinião e organizadores colectivos das várias direitas reclamam de há já longa data.

    5. É por tudo isto que considero que é um erro político grave que quem quer defender “a liberdade do trabalho contra o capital” (como diz o Zé Neves), ou a dos cidadãos contra a do Estado, sendo as duas inversamente proporcionais (como dizia Marx), adira à chamada “Manifestação da Liberdade” e subscreva os termos em que ela é convocada.

    Abraço
    msp

  21. miguelserraspereira diz:

    Caro B
    eu falei de berlusconização à portuguesa ou do via original para um populismo de direita. Você já se esqueceu da tentativa – prematura e desajeitada – do Santana Lopes? Acha que qualquer coisa como ele, em revisto e actualizado, é de todo impossível? Ou um neo-autoritarismo austero, “cavaquista” ou “pós-cavaquista”?
    Saudações democráticas

    msp

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  23. Fuser diz:

    Eu vou à manif se for para partir tudo. Agora se for para ir e voltar para casa deixando tudo como dantes não contem comigo.

    E deixem-se de merdas, querendo legitimar ou atacar este ou aquele acto com lições de história no passado e a realidade política da alemã pós guerra mundial. Isso não tem nada a ver. O perigo é Sócrates, mas é sobretudo o capital, esta sociedade de controlo que faz tirar aos pobres para dar aos ricos parecer uma coisa normal.

    É contra isso que nos devemos manifestar. Ah, mas não. A burguesia está é interessada em debater questiúnculas porque sabe que depois da manif vai comer um bife ou vai para casa e a empregada prepara o jantar.

  24. Que grande conversa ai vai sobre quem pôs Hitler no poder. E então não seria historicamente mais honesto dizer que o Tratado de Versalhes e a humilhação nacional que lhe estava associada (é bom esquecer que já em fase adiantada na década de 20 a França tomou o Sarre e ameaçou penhorá-lo para pagamento das indemnizações de guerra em atraso) bem como a crise económica que se abateu sobre a Alemanha com uma hiper-inflação nunca antes vista nem nunca mais repetida (aliás, deixou um trauma tão profundo na Alemanha que ainda hoje a teoria económica germânica em tempo de crise é sempre marcada pelo receio da inflação e nunca pelo da deflação como acontece nos USA) favoreceram decisivamente a tomada do poder por um partido, como a nazi, que aliava na sua doutrinação elementos socialistas e um nacionalismo com que a maior parte das pessoas claramente concordava? Em vez dessa discussão estéril sobre as responsabilidades do SPD e KDP na ascensão do nazismo não mais razoável olhar para as consequências do Tratado de Versalhes? Alguém nalgum país compreenderia uma derrota com as proporções da que a foi infligida à Alemanha depois de quatro anos de guerra sem que nunca um só soldado estrangeiro tivesse durante a guerra pisado solo alemão?
    Com toda a franqueza, a vossa conversa é uma conversa da década de trinta/quarenta do século passado. Está fora do prazo de validade…
    E se com ela se pretende defender a tese de que Sócrates não deve ser atacado pela esquerda em aliança com a direita ou que deve não deve ser atacado pala esquerda em aliança com a direita, para não favorecer ou para evitar uma solução política autoritária, eu direi apenas que isso (a solução política autoritária) vai depender mais de outros factores do que propriamente do posicionamento das forças políticas nacionais…
    JMCPinto

  25. Com toda a franqueza, a vossa conversa é uma conversa da década de trinta/quarenta do século passado. Está fora do prazo de validade…

    até que enfim!

  26. miguelserraspereira diz:

    Ana Cristina Leonardo

    “Quem não recorda o passado condena-se a repeti-lo” – e, acrescento eu, sob uma forma mutilada que é também mutilação (do) presente.

    Nunca deu por isso?

    msp

  27. Não adoro o passado
    não sou três vezes mestre
    não combinei nada com as furnas
    não é para isso que eu cá ando
    decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
    decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
    nenhuma nenhuma palavra está completa
    nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
    assim também eu nunca te direi o que sei
    a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

    Não digo como o outro: sei que não sei nada
    sei muito bem que soube sempre umas coisas
    que isso pesa
    que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
    acreditando ser ele o agente supremo
    do coração do mundo
    vaso de liberdade expurgada do menstruo
    rosa viva diante dos nossos olhos
    Ainda longe longe essa cidade futura
    onde «a poesia não mais ritmará a acção
    porque caminhará adiante dela»
    Os pregadores de morte vão acabar?
    Os segadores do amor vão acabar?
    A tortura dos olhos vai acabar?
    Passa-me então aquele canivete
    porque há imenso que começar a podar
    passa não me olhas como se olha um bruxo
    detentor do milagre da verdade
    a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
    nada está escrito afinal

  28. miguelserraspereira diz:

    Ana Cristina Leonardo

    É um dos grandes poemas do Cesariny – há anos soube-o de cor.
    Nem precisa de vir a propósito para ser bem aparecido aqui.
    Vejo que concorda, afinal, comigo e que aquilo dos prazos de validade foi um deslize.
    Bonne soirée

    msp

  29. não concordo nada (só com a parte do Cesariny). mas isso não me impede de lhe desejar também bonne soirée

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