A minha autocrítica


Lamento profundamente ter-vos desiludido, camaradas. Aparecer assim, mancomunado com malta que da liberdade só conhece o direito  a explorar o trabalhador e a sujeitar os órgãos de comunicação à deriva utilitária do capitalismo – essa hidra sempre esfomeada por lucros e sedenta de hemoglobina dos trabalhadores… não sei o que me passou pela cabeça.
Imagine-se, receber um telefonema de um amigo a solicitar a adesão, ler a coisa e concordar. Assim sem mais nem menos, sem reflectir no tremendo erro político que cometia, sem sequer sujeitar a minha posição egoísta ao escrutínio dos camaradas, como fizeram no bravo colectivo Arrastão (com direito a uma declaração de voto vencido e tudo); em suma, desgracei-me. Entreguei-me, como estúpido cordeiro simbólico, à alcateia de lobos esfaimados, à codícia calculista dos esbirros da reacção.
E agora, lá está o meu nome no meio de crápulas que até se esquecem de algumas justas razões para derrubar Sócrates e que agora por certo me vão forçar ao silenciamento e ao branqueamento dos seus crimes. E até já me contaram que um desses crápulas direitistas, além de ser amigo do João Miranda, mantém privada de liberdade, na sua cave, uma mulher-a-dias bielorrussa.
Agora é tarde. Acordei feito cúmplice dos que querem berlusconizar Portugal, atirar com a culpa para cima dos homossexuais e transformar o rendimento social de inserção em crime. Oh, triste fado, o de ajudante involuntário de Cavaco! E tudo isto com a simples palavrita “Sim”, imprudentemente sussurrada a um falso amigo, empenhado na minha destruição e na aniquilação de todas as esperanças do movimento operário luso (a bem da verdade, na minha cegueira nunca me tinha apercebido de que isto dos blogues era coisa tão relevante e decisiva para o destino da revolução). Cometida a infâmia, só me resta emigrar em boa ordem e convenientemente cabisbaixo para a Sibéria ou outro destino igualmente cruel a que o meu colectivo (mal se recomponha e saia da lama fétida para onde as minhas acções irreflectidas o arrastaram) me queira sentenciar.

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