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Os progressos do atraso – contenção orçamental explicada às criancinhas

8 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

António Pereira, de 42 anos, calceteiro há 17, ganha 570 euros, tem uma horta com batatas, mas uma casa para pagar. E duas filhas, uma com oito anos outra com 14. Esta última é que é o problema. “Felizmente tem capacidades. Está no 9.º ano e daqui a três vai querer ir para a faculdade. Mas eu já lhe disse que, actualmente, não pode ir. Não tenho possibilidades”.

António tem seis irmãos. Trabalharam todos na agricultura, quando crianças. “Ela não sabe o que nós passámos”, diz ele. “Nós comíamos côdeas de pão. Elas agora é só Chocapic com leite. Que nós pelos filhos fazemos tudo. Nós fomos vividos na terra dos escravos. Elas foram vividas na terra das flores. Este é que é o meu maior problema. Porque a minha filha de hoje para amanhã vai dizer: “Eu não pude estudar, porque o meu pai foi um caralho”".

Mas ainda faltam três anos. “Até lá, as coisas podem mudar. Isto é uma luta. É por isso que estou aqui, com 500 quilómetros no papo, mais 500 para voltar. Também se a gente não luta…”

Reportagem de Paulo Moura para o Público, na manifestação da função pública realizada no passado dia 5.


Comentários

Comentário de António Figueira
Data: 8 de Fevereiro de 2010, 23:25

Obrigado por este post.

Comentário de renegade
Data: 9 de Fevereiro de 2010, 0:01

é não é? o mundinho dos blogues classe média ilustrada anda tão inebriado com as merdas de sao bento e belem que isto até parece vindo de outro planeta.

Comentário de Manuel Monteiro
Data: 9 de Fevereiro de 2010, 1:28

Pois é. Neste momento trabalhadores da Oliva(200) estão para ser despedidos, o mesmo no Casino Estoril. Milhares deles já foram para a rua e estão numa situação desesperada, alguns suicidam-se. Quando será que os meus irmãos operários acordam e, em vez de se suicidar e deixar humilhar não arrebentam com esta merda de uma vez para sempre? O que fazer? (Já perguntava o grande cachola do Lenine). Eu, que tenho pouca paciência para aturar estas chafurdices da burguesia apodrecida, preconizo uma táctica para a luta imediata: Em vez do nosso suicidio, vamos suicidar estes capitalistas que nos desgraçam (e não estou a falar em sentido figurado)
É que, sinceramente, não há pachorra para estes Sócrates, Crespos,Sol, escutas, ética, Jardins, cretinismo parlamentar dos partidos da esquerda do regime, comissões de inquérito, PGR, sucateiros e a puta que os pariu. No fim ficaremos mais desgraçados, mudarão as moscas mas a merda será a mesma. Ou por outras palavras: mudará alguma coisa para que tudo fique na mesma.
Já agora uma crítica aos intelectuais de esquerda, mesmo os mais radicais ( e de quem eu estou mais perto): deixem de olhar para o umbigo bloguista, deixem-se de grandes filosofias, deixem de culpar o Staline pelo que fez e não fez. Liguem-se mais aos calceteiros deste país, às suas lutas e lágrimas. Nem tudo se pode aprender nas universidades burgueses. A vida dos explorados é o grande campo onde teoria e prática nos podem esclarecer sobre o caminho da libertação da humanidade. Isto é: em vez de batermos punhetas com as patifarias do Sócrates ou da Manuela, vamos virar as nossas análises e preocupações para aqueles que são as vítimas deste sistema que está no seu estortor e dar força ao seu coveiro: os trabalhadores que hoje estão desorientados, mas que amanhã se levarão altivos para ajustar contas históricas.
Desculpem o desabafo, mas esta merda está a pedir uma volta.
Manuel Monteiro

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