Contra a religião, marchar, marchar!

Obra de Fátima Spínola, 2009

Francamente, grande parte da minha simpatia para com a ofensiva francesa contra as burcas vem da antipatia para com as religiões organizadas.
Dias houve em que calculava ser bastante ignorar as superstições alheias, numa prática de tolerância e distanciamento. Hoje, parece-me cada vez mais urgente pegar este touro pelos cornos, antes que acordemos com uma chifrada nas costas.
É que a religião, que até poderia parecer coisa inofensiva se circunscrita às meninges e à vida dos apaniguados, tem vindo a assumir características de praga imparável, infectando os fiéis mas também os infelizes que eles conseguem apanhar à sua volta.
Os ogres muçulmanos que só se aquietarão quando o mundo infiel estiver reduzido a poças de sangue. Os fanáticos judeus que encontram no seu ADN resquícios de laços especiais com Deus, que lhes dão direito a espezinhar os vizinhos. Os palonços evangelistas que se julgam obrigados a propiciar uma segunda vinda de Cristo. O geronte do Vaticano que agora descobriu que reconhecer direitos aos homossexuais de alguma forma diminui os direitos da sua manada. Isto para nem mencionar aldrabices ainda mais óbvias, da Cientologia à IURD. Malta de todas estas denominações (e de mais umas quantas) que se acha no direito/dever de sobrepor as suas mitologias e superstições à ciência, ditando o que os filhos dos outros devem ou não aprender.
Toda esta tribo não se contenta com as suas orações, com as suas meditações, com as suas contemplações do divino. Não; eles imaginam-se incumbidos da missão de converter os demais, nem que seja à porrada e à força de decretos. E se a epidemia parece mais ameaçadora nos EUA ou em paragens pós-apocalípticas como o Iraque, há cada vez mais focos de infecção na nossa Europa.
É preciso dar-lhes luta, recusar o redil, impedi-los de usar a nossa tolerância para, a coberto da liberdade religiosa, cercear a liberdade dos outros.
O Papa vem a Portugal? Que paguem a excursão com a massa dos cofres de Fátima – essa abominação erguida sobre mentiras e cadáveres de crianças. Querem à viva força continuar a obrigar mulheres a esconder-se em mortalhas nas nossas ruas? Não. Criacionismo? Design inteligente? Bardamerda.
Acabou-se a tolerância. Vamos começar a dar luta a cada baboseira supersticiosa disfarçada de profunda verdade “espiritual”. Vamos fazê-los recuar, de café em café, de blogue em blogue, de jornal em jornal.
Se nos quiserem falar de deus, saquem primeiro de algum fiapo de prova da existência do dito – e não me lixem com a treta da mútua exclusão entre ciência e religião: se as divindades conseguem interagir com o nosso mundo físico, terão de o fazer de forma detectável e entendível.
Quando os católicos lançarem lá do alto do púlpito mais umas bocas sobre a nossa moral, relembremos-lhes a escandalosa protecção que padres pedófilos têm recebido da ICAR. Ou os milhões já trucidados em guerras entre superstições.
Acham os senhores católicos que andamos a usurpar o Natal deles e informam-nos disso com aqueles estandartes grenás horrorosos? Vamos já preparando uns panos ainda mais garridos reclamando o 25 de Dezembro para o seu dono original: Sol Invictus.
Exigências: deixem as cabeça dos nossos filhos em paz. Tirem as mãos das nossas leis, do erário público, da nossa liberdade. Querem capelães, isenções fiscais, sinecuras no sistema de ensino para padres? Não com o dinheiro dos meus impostos.
Mais: se esta gente não tem tolerância para com pessoas (bastando para tal que pensem ou vivam de forma diferente) porque deveremos usar paciência e paninhos quentes quando falamos das suas mitologias?
Elevemos a blasfémia a passatempo nacional. A heresia a hábito diário. A curiosidade desrespeitosa a dogma. Isto sem os proibir de nada. Os religiosos devem manter todos os direitos do mundo; menos o de implicarem com os meus direitos.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

56 Responses to Contra a religião, marchar, marchar!

  1. ezequiel diz:

    Caro Miguel

    Sim, estamos de acordo no essencial apesar de achar q não fui muito claro na apresentação dos meus argumentos.

    O que é problemático (reconheço este perigo evidentemente) na religião não é a sacralização per si mas a presunção de infalibilidade cognitiva (dogma: a impossibilidade de falsificar um fundamento) que habitualmente a acompanha. Esta é, sem dúvida, uma das maiores vulnerabilidades da religião (com a possível excepção do Judaísmo que exige a interrogação permanente e exaustiva dos fundamentos mais elementares, incluindo o da existência ou não existência de Deus) Neste particular, o Judaísmo é uma notável excepção.

    Ora, se entendermos que o maior perigo da sacralização (para a democracia) é a presunção da infalibilidade cognitiva e ética (é assim porque Deus “diz” que é =dogma) não será muito difícil percebermos que esta presunção, claramente anti-democrática, não provém exclusivamente das religiões. O Marxismo é igualmente dogmático. Não invoca Deus, mas invoca toda uma argumentação que assenta na presunção da infalibilidade do seu imaculado cientismo. Todas as ideologias seculares “procuram” a irrefutabilidade. E todas, sem excepção, procuram se impor. Não pretendo reduzir as razões seculares a meras crenças religiosas. Não é isso. O que eu pretendo dizer é que a sacralização (no sentido da procura pela infalibilidade) faz parte da política per si. Ou seja, a dessacralização da política não é sinónimo da eliminação do problema do dogma.

    Além disso, não concordo consigo quando afirma que a dessacralização da política é condição necessária para a responsabilização dos cidadãos. Todas as ideologias cultivam a crença (sim, a crença, dado que os seus postulados raramente são corroborados na sua totalidade pela experiência empírica) de que possuem verdades superiores insusceptíveis de falsificação (isto é, absolutas). Esta propensão dogmática é inerente ao próprio conceito e lógica estrutural da ideologia (ou seja, não deriva apenas do conceito religioso da verdade revelada) Penso que a problemática em causa é bastante mais complexa. O problema, a meu ver, está na construção ou postulação de verdades transcendentais, imunes à falsificação e fechadas à argumentação aberta. O nacionalismo, o marxismo e até o próprio liberalismo incluem muitos atributos que são claramente dogmáticos. Mas esta é outra discussão.

    Gostei muito de conversar consigo, Miguel.

    Melhores cumprimentos e obrigado pela atenção dispensada.

    ezequiel

  2. ezequiel diz:

    Caro Luís,

    só agora li o teu comentário, depois de ler o do Miguel.

    percebi o que querias dizer, julgo eu.

    concordo com tudo o que escreveste agora. só uma pequena nota: eu não sou religioso mas por vezes penso que o teu comportamento é deveras deplorável (estou a brincar).

    get it, mate?

    o fundamentalismo é outra história. eu nunca me sentaria na mesma mesa com estes senhores a deliberar seja o que for. o que eu estou a dizer é que há muitos fundamentalismos. só isso, caro Luís.

    O Judaísmo, por exemplo, proíbe os Judeus de tentarem converter seja quem à sua fé. Mais uma particularidade interessante.

    Miguel, já leste Levinas?? O conceito de entre-nous, apesar de ser um conceito-pratica que emana da verdade revelada, não tem rigorosamente nada de dogmático e, além disso, é perfeitamente compatível com o ideal participativo da democracia que celebras (com eloquência e perspicácia). É um conceito de responsabilização par excellence. Luís, a vida interior do Outro é sagrada. “Cada pessoa é um mundo.”(na Torah e no Corão também, julgo eu) Pensamento bonito. Talvez não possa ser apresentado numa assembleia deliberativa mas, porra, que se foda…é uma ideia sublime!! A religião tem muito a dizer sobre a natureza humana, meu caro. Todas as religiões são criações sublimes. Sinceramente, não gostaria de viver numa democracia sem religiosos apesar de ser mais ateu do que o Marx. Chama-lhe o fascínio pela alteridade do Outro, se te apetecer.

    abraço
    ezequiel

  3. Luis Bento diz:

    Salvé Rainha…

    Não sou bota de elástico, católico (com ou sem prática) nem professo outras religiões, mas, francamente, já me aborrece essa vossa sanha persecutória às religiões. Antero de Quental já se referiu (porventura com uma verve superior à sua) sobre a culpa da Igreja na decadência dos povos peninsulares. É engraçado que, ciclicamente, vêm uns senhores afirmar que todos os males da sociedade residem na Igreja. Pior. Acreditam nisso. Não lhe quer parecer que as pessoas têm direito a acreditar no que quiserem? Têm direito a acreditar num Deus, numa entidade sobrenatural, etc. O faciciossimo vem de quem quer calar as religiões.

  4. Luis Rainha diz:

    Não tenho a Igreja por responsável pela decadência de nada; será antes um sintoma da mesma. Todos têm direito a acreditar nos disparates que quiserem. Mas sem chatear o próximo, pf.

  5. miguelserraspereira diz:

    Caro Ezequiel,
    também eu gostei da discussão. Vamos lá ver se conversamos melhor um dia destes.
    Cordiais saudações

    msp

  6. caiado diz:

    Caro Luís.
    Tem toda a razão. Os líderes religiosos (com aspas) só têm dado mau nome aos textos (para mim só há um, a Bíblia) e enojado a Obra do Senhor.
    Saiba contudo que eles terão a conveniente paga. E paabéns pelo seu testemunho, com o qual, como crente em Deus e guardador do Sábado como seu sinal com o seu povo, estou de acordo.
    Deus é soberano suficiente para se ‘mostrar’ e intervir nas nossas miseráveis vidas, não precisa de ninguém a querer à força, como diz, dar testemunho de Si. Aliás dispensa.

Os comentários estão fechados.