Daniel Bensaïd, comunista herético


Artigo de Lowy, publicado no Esquerda.net

Daniel Bensaïd deixou-nos. É uma perda irreparável, não somente para nós, seus amigos, seus camaradas de luta, mas para a cultura revolucionária. Com a sua irreverência, o seu humor, a sua generosidade, a sua imaginação era um exemplo raro de intelectual militante, no sentido forte da expressão.

Lembro-me das nossas longas conversas, por vezes discussões, à volta duma mesa sobretudo no momento entre a sobremesa e o café, no «Charbon», o seu restaurante favorito. Não estávamos sempre de acordo, longe disso, mas como não gostar dele e admirar a sua extraordinária criatividade e, acima de tudo, o seu espírito de resistência para com e contra tudo, para infâmia da ordem estabelecida?
«Auguste Blanqui, comunista herético» era o título dum artigo que Daniel Bensaïd eu próprio redigimos juntos, em 2006 para um livro de socialistas do séc. 19 em França, organizado pelos nossos amigos Philippe Corcuff e Alain Maillard). Este conceito aplica-se perfeitamente ao seu próprio pensamento, obstinadamente fiel à causa dos oprimidos, mas alérgico a toda a ortodoxia.

Se os livros de Daniel se lêem com tanto prazer é porque foram escritos com a pluma aguçada dum verdadeiro escritor que tem o dom da fórmula: não uma fórmula que pode ser assassina, irónica, enraivecida ou poética mas que vai sempre a direito até ao fim. Este estilo literário, próprio do autor e inimitável, não é gratuito mas está ao serviço duma ideia, duma mensagem, dum apelo: não se vergar, não se resignar, não se reconciliar com os vencedores. A força da indignação atravessa, como um sopro inspirado, todos os seus escritos.

Fidelidade ao espectro do comunismo do qual dava uma bela definição: é o sorriso dos explorados que ouvem ao longe os tiros de espingarda dos insurgentes em Junho de 1848 – episódio contado por Tocqueville e reinterpretado por Toni Negri. O seu espírito sobreviverá ao triunfo da mundialização capitalista, da mesma maneira que o espírito do judaísmo à destruição do Templo e à expulsão de Espanha (gosto desta comparação insólita e um pouco provocadora). O comunismo do séc. 21 era para ele herdeiro das lutas do passado, da Comuna de Paris, da Revolução de Outubro, das ideias de Marx e de Lenine e dos grandes vencidos que foram Trotsky , Rosa Luxemburgo, Che Guevara. Mas também algo de novo, à ltura das apostas do presente: um eco-comunismo (termo que ele inventou) integrando centralmente o combate ecológico contra o capital.

Para Daniel, o espírito do comunismo era irredutível às suas contrafacções burocráticas. Se recusava com a última das energias a tentativa de Contra-Reforma liberal de dissolver o comunismo no estalinismo, não deixava de reconhecer que não se pode fazer a economia dum balanço crítico dos erros que desarmaram os revolucionários de Outubro face às provações da História, favorecendo a contra-revolução termidoriana: confusão entre povo, partido e estado, cegueira em relação ao perigo burocrático. É preciso retirar daí algumas lições históricas já esboçadas por Rosa Luxemburgo em 1918: importância da democracia socialista, do pluralismo democrático, da separação dos poderes, da autonomia dos movimentos sociais em relação ao estado.

Entre todas as contribuições de Daniel Bensaïd à renovação do marxismo, a mais importante, a meu ver, é a sua ruptura radical com o cientismo, o positivismo e os determinismo que tão profundamente impregnaram o marxismo «ortodoxo», nomeadamente em França. Auguste Blanqui é uma referência importante neste passo crítico. No artigo mencionado mais acima, recorda a polémica de Blanqui contra o positivismo, este pensamento de progresso em boa ordem, de progresso sem revolução, esta «doutrina execrável do fatalismo histórico» erigida em religião. Para Blanqui «a engrenagem das coisas humanas não é de forma alguma fatal como a do universo, é modificável a cada momento». Daniel Bensaïd comparava esta fórmula com a de Walter Benjamin: cada segundo é a porta estreita por onde pode surgir o Messias, quer dizer, a revolução, esta irrupção factual do possível no real.

A sua releitura de Marx, à luz de Blanqui, de Walter Benjamin e de Charles Péguy, condu-lo a conceber a história como uma sucessão de entroncamentos e de bifurcações, um campo de possíveis cuja saída é imprevisível. A luta de classes ocupa o lugar central. Mas o seu resultado é incerto e implica uma parte de contingência. Em «Le pari melancolique» (Fayard, 1997), talvez o seu mais belo livro retoma a fórmula de Pascal para afirmar que a acção emancipadora é um «trabalho para o incerto», implicando uma aposta sobre o futuro. Redescobrindo a interpretação marxista de Pascal por Lucien Goldmann, define o compromisso político como uma aposta arrazoada sobre o futuro histórico «com o risco de tudo perder e de se perder». A revolução cessa de ser portanto o produto necessário das leis da história ou das contradições económicas do capital para se tornar uma hipótese estratégica, um horizonte ético, «sem o qual a vontade renuncia, o espírito de resistência capitula, a fidelidade falha, a tradição se perde». Por consequência, como explica em «Fragments mécréants» (Lignes, 2005), o revolucionário é um homem de dúvida oposto ao homem de fé, um indivíduo que joga nas incertezas do século e que põe uma energia absoluta ao serviço de certezas relativas. Em suma, alguém que tenta, incansavelmente, praticar este imperativo exigido por Walter Benjamin no seu último escrito, as Teses «Sobre o conceito de história» (1940): passar a mão pela história ao arrepio.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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