Ol-Iveira, o grande imã do purismo jornalístico
5 de Fevereiro de 2010 por Luis RainhaNuma prosa arroubada, assim com laivos de manifesto poético, o Daniel Oliveira declarou o seu desagrado pela publicação das escutas de Vara. «Hoje, o “Sol” não defende a liberdade de imprensa. Ofende-a», clama o profeta da imaculada conceição jornalística.
Por mim, se tudo aquilo corresponder à realidade, não tenho dúvidas: estamos face a uma situação em que o interesse público – conhecermos os meandros de um caso prestes a ser soterrado num qualquer arquivo judicial – sobrepuja em muito qualquer outro valor aqui em jogo, mesmo o direito à privacidade de Vara e dos seus colegas de negócios (note-se que o Sol garante não estarem estes elementos sujeitos a segredo de justiça).
Pegando numa frase recente do provedor do Diário do Regime, «Quando o interesse público manda violar a lei, o jornalista deve fazê-lo». Nem mais. Lendo-se aquelas transcrições, percebemos de imediato que o que está em causa não é admitirmos «a pata dos jornalistas nos nossos telefones»; não são os telefones do povo, trata-se apenas das chamadas de um suspeito. Não há nenhum programa geral de devassa – Vara era suspeito e, a ajuizar pelo que hoje se lê, com razão.
Não se trata aqui de futebolices. Este caso é significativo porque pode revelar até que ponto se instalou a sem-vergonhice ao mais alto nível. E dá-nos uma hipótese de sabermos se o sistema judicial português foi mesmo sequestrado pela corja. Ao pé disto, os direitos do prevaricador perdem relevância.
Big Brother? Andamos a precisar de reler o Orwell.

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