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As amigas são para as ocasiões

5 de Fevereiro de 2010 por Luis Rainha

Hoje em dia, já nem me admira cada nova conversa sobre as reais vendas do DN. Já não pergunto «mas isso chega para os sustentar?”; agora inquiro «mas por que raios é que alguém ainda lê isso?» De cada vez que lá vou, é certo pisar mais um monte de tralha embaraçosa.
Como esta prosa de Fernanda Câncio, agora apostada em provar que nada de mal se passa no reino dos media tugas. Atentem no demolidor exemplo aduzido pela jornalista: «Quando Henrique Monteiro, que recusou a publicação de uma crítica literária alegando “não se tratar de uma crítica mas de um ataque ao autor”, afirma que nunca viu nada de parecido com um director de jornal exprimir dúvidas a um cronista sobre o conteúdo de uma crónica quanto aos factos que imputa a outrem sem ser deles testemunha directa e considera isso “censura” estamos perante aquilo a que se chama double standard. Traduzindo: o que eu faço está sempre acima de suspeita, o que tu fazes é sempre suspeito.»
Isto é atirar areia para os olhos de quem lê aquela espécie de jornal. Henrique Monteiro teve toda a razão em não publicar a dita “crítica”, que incluía pérolas como «Para escrever um romance há que ser um “flâneur” e não um “poseur”»  ou «perder-se e não julgar-se, à partida, encontrado». Tratava-se não de exegese sobre um livro mas apenas de má-língua em versão parolo-poética; coisa indigna, por mais canastrão que fosse o autor visado. Evitar que tal porcaria fosse impressa foi um acto de higiene.
Falar aqui de censura ou comparar esta ocorrência ao disparate com que o JN se lembrou de oferecer o martírio a Mário Crespo, só mesmo por brincadeira. Ou por cálculo utilitário, claro.

Comentários

Comentário de Justiniano
Data: 5 de Fevereiro de 2010, 16:11

Excelente Rainha!

Comentário de David
Data: 5 de Fevereiro de 2010, 16:44

Será que, para Luís Rainha, os amigos também são para as ocasiões? Dos três casos que Fernanda Câncio cita, você só fala de um, talvez o mais “justificável”. E João Carreira Bom e Joaquim Vieira?

Comentário de Luis Rainha
Data: 5 de Fevereiro de 2010, 17:03

David,
Falo, singelamente, do único caso sobre o qual escrevi na altura. Aqui não me podem acusar de dar a volta à coisa, pois logo no momento defendi a eliminação daquela porcaria, apesar de embirrar solenemente com o Sousa Tavares.
Quanto aos casos Viera e Carreira Bom, julgo lembrar-me de bastante alarido em torno de ambos – se FC tem ideia oposta, um de nós está com a memória avariada.

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 5 de Fevereiro de 2010, 18:23

David,
Lendo as memórias do arquitecto Saraiva, o Joaquim Vieira foi “armadilhado” por este, e não por nenhuma pressão política. Durante o tempo que o Balsemão foi primeiro-ministro o Expresso manteve uma certa independência. Agora, experimente dizer mal do accionista e dos seus sócios, em qualquer órgão de comunicação social português, e vai ver o que lhe acontece. É uma situação intolerável, mas que só existe pq termos toda a comunicação social nas mãos dos grandes grupos e tornou-se impossível existirem grupos de jornalistas independentes do poder económico com meios de comunicação. Mas, o facto de o capitalismo ser injusto, não nos deve fazer cumplices de manobras do primeiro-ministro para “solucionar” jornalistas.

Comentário de David
Data: 5 de Fevereiro de 2010, 20:27

Luís e Nuno,
Em todo este “caso Crespo” só tenho uma dúvida: se as coisas se terão de facto passado assim — custa-me a crer que Sócrates fosse tão tolo que se exprimisse da forma relatada em alta voz no restaurante — ou se houve alguma “criatividade” por parte de Crespo. De resto, Sócrates faz apenas parte de uma já longa estratégia de controlo, ou tentativa de controlo, de órgãos de comunicação social por parte do PS, que vem desde o 25 de Abril, com Mário Soares como secretário-geral. As coisas nunca mudaram. Sempre que teve oportunidade, o PS tratou de colocar os seus homens de mão em jornais, rádios e televisões, “solucionando” os jornalistas que não lhe eram afectos com lugares na “prateleira”. E, já agora, também o PSD. Só que agora talvez esteja menos hábil… e o próprio Sócrates, com as suas “queixas”, justifica todas as suspeições.

Comentário de ana cristina leonardo
Data: 6 de Fevereiro de 2010, 1:53

David
custa-me a crer que Sócrates fosse tão tolo que se exprimisse da forma relatada em alta voz no restaurante

é o problema dos espertos: graças a deus a arrogância acaba (quase) sempre por lixá-los

Comentário de Luis Rainha
Data: 6 de Fevereiro de 2010, 2:09

Ana e David,

O homem, neste momento, sente-se capaz de tudo. Se já escapou incólume a tudo, incluindo a demolição do Jornal das sextas da TVI, porque haveria agora de mudar de estratégia?

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 6 de Fevereiro de 2010, 20:38

Discordo bastante da tua interpretação do affaire Doris Graça Dias. Henrique Monteiro e o Expresso saíram bastante chamuscados dessa história em que o papel da crítica se viu comprometida pelos imperativos comerciais ligados à gestão da imagem de Sousa Tavares. Parece-me que na altura Osvaldo Silvestre tratou o acontecimento em termos que permanecem inatacáveis: “Do ponto de vista deontológico, ter-se permitido que MST lesse o texto antes da sua putativa publicação é mesmo algo que dispensa comentário.”
http://olamtagv.wordpress.com/2008/02/13/codigos-de-ma-conduta/
Nesse sentido, a Fernanda Câncio aponta com justiça a sonsice do director do Expresso. Que neste caso em concreto o director do JN tenha seguido precisamente o mesmo caminho não retira validade a essa apreciação.
O mesmo se diga relativamente ao caso do artigo do joão bonifácio sobre o beleneses, passado no «Público». De uma maneira geral, sempre que intuem prejuízos comerciais, os directores de jornais portugueses optam por não incomodar este ou aquele interesse, mesmo se em prejuízo da função que deveria desempenhar o jornalismo ou a crítica.

Comentário de Luis Rainha
Data: 7 de Fevereiro de 2010, 13:58

Discordo. Se eu fosse director de um qualquer jornal, nunca deixaria aquele asco em forma de prosa sair, mesmo sendo a propósito de uma criatura que abomino.
Comparar um caso destes com um outro em que uma crónica é vetada porque… não tem contraditório, ou lá o que foi, não pega. E o JN ter-se-á escusado a publicar o mail do Público, que era bastante mais esconso do que uma historieta, com testemunhas, sobre um almoço?
Quanto a isso dos privilégio do MST, consta que já era prática antiga em todos os jornais qu ele agracia com a sua proa.

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 7 de Fevereiro de 2010, 19:14

“Aquele asco em forma de prosa” era uma crítica literária perfeitamente legítima. As observações de Graça Dias eram, aliás, bastante certeiras: a literatura não é um campo para a consagração intelectual de jornalistas conhecidos, mas uma actividade que tem as suas exigências. A não ser que se queira ser um romancista medíocre e se esteja disponível para aceitar esse juízo por parte da crítica. Sousa Tavares veio ocupar um lugar no interior do campo literário que é, segundo Dóris Graça Dias, completamente incompreensível a não ser no quadro de uma degradação geral da actividade da crítica. Henrique Monteiro veio dar-lhe toda a razão.

Comentário de Luis Rainha
Data: 7 de Fevereiro de 2010, 20:18

“Crítica” já tenho aas minhas dúvidas. “Literária” e que não estou mesmo a ver como. A literatura é um campo para tudo; não há porteiros a determinar quem entra ou não, muito menos alguém que dá provas de nem saber escrever com um mínimo de compostura.
Essa “degradação geral da actividade da crítica” explica sim a publicação de qualquer prosa dessa senhora.
Repito o que escrevi na altura: aquilo era um longo e mal-amanhado insulto, escrito sem acerto, estilo ou sequer graça. Eu nunca teria permitido que tal porcaria surgisse numa secção de crítica literária dependente do meu voto.
Sentenciar que “É exactamente esta inversão de valores que faz de Rio das Flores uma obra menor” revela toda a mediocridade, a imbecilidade da nota crítica: o romance não era mau por ser mau, mas sim porque a vida de MST não seguira os trâmites que a tal senhora para ela prescrevia. Não sei se se consegue ser mais bronco do que isto.

Comentário de Luis Rainha
Data: 7 de Fevereiro de 2010, 20:20

E a parte do «é uma morna descrição de gestos pouco cinematográficos, um descritivo meio jornalístico» também merecia o quê? Publicação ou o exílio no caixote do lixo?
Logo na altura, expliquei bem como via a coisa: «nunca me passaria pela ideia publicar, nem sequer num blogue, um naco de prosa como a “Redacção” da professora Dóris; tresanda a inveja, frustração e vontade de dar nas vistas.» Que agora um fait divers destes seja usado como caução para relativizar a bacorada do JN, enfim…

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 8 de Fevereiro de 2010, 17:31

Não consigo responder melhor aos teus argumentos do que o fez Osvaldo Silvestre, na ligação acima:
“MST é, literariamente, uma criatura da promoção, como sabe todo aquele que já quase chocou com a sua versão em cartão à entrada de uma livraria. A sua legitimidade é a dos números – de páginas, de tiragem, de vendas, de lucros -, pelo que se compreende a avareza com que dispõe deles para uso de terceiros, sobretudo se críticos. De certa forma, a situação de MST dá a ver a impossibilidade de a crítica defrontar obras que, antes de existirem enquanto tais, são ocorrências singulares de um sistema de comunicação de massas e de circulação do capital. Esclareço que não acho que os romances de MST não sejam literatura. São-no, de facto – mas são má literatura (e péssima gramática, já agora). E não o são por serem arte de massas, já que esse é também o estatuto de um J. G. Ballard, seguramente um dos maiores escritores da actualidade. ”
Simplesmente, e esta é a única ressalva relativamente a isto, eu não acho a crítica de Dóris Graça Dias despropositada. É curioso que a pesquisar no google encontrei uma apreciação do Pedro Sales (http://zerodeconduta.blogs.sapo.pt/480589.html) semelhante à tua (http://5dias.net/2008/02/05/ruim-defunto-pessima-cera/).
Dizer que ela é movida pelo rancor parece-me semelhante ao tipo de argumentos que os defensores de Sócrates e de Pedro Passos Coelho costumam utilizar. Pouco me interessa o seu rancor se os seus argumentos fazem sentido. E estes fazem:
“Criar personagens não se basta por um acumular de lugares comuns, somando diferenças ilustrativas de tipos; há que não ser anacrónico na linguagem, nas exigências existenciais, nos enquadramentos territoriais. Se se pretende descrever uma mulher, convém olhar bem para elas, sob pena de se ser apenas grosseiro, quando se pretendia ser airoso. [...]
Tudo o que MST disser sobre a sua própria escrita, o seu romance histórico é gratuito. Que o escreveu a pedido de muitas famílias, que passou três anos muito duros, quase dois a documentar-se e um fechado em casa a escrever, sem viajar: nada disto interessa a um leitor; nada disto interessa à literatura. É exactamente esta inversão de valores que faz de Rio das Flores uma obra menor, tão igual a um qualquer exercício de menino de escola semi-deitado de lado sobre o papel, trincando a língua num esforço de saliva e olhos estrábicos confluindo no bico da caneta. “Bela Redacção!”: diz o professor, relativizando o esforço e a idade do garoto.
Mas MST não é um garoto e se quer usar o seu nome, devia exigir mais de si do que a simplicidade de uma obra pretensamente bem engendrada. Em literatura isso não existe. Se pretende fixar história, nada como perder três, seis, doze anos a estudar uma época, para a registar – em 100 páginas; se quer escrever um romance, nada como reflectir sobre o que é a literatura, ler muito, e bem, que é como quem diz: perder-se. E se nunca se conseguir encontrar para escrever, ninguém lho levará a mal!”
Continuo a achar que Fernanda Câncio tem razão quando desconfia do apreço de Henrique Monteiro pela liberdade de informação. Mesmo se é movida pelo rancor.

Comentário de Luis Rainha
Data: 8 de Fevereiro de 2010, 17:48

Pronto, concordamos em discordar :-)
Mas olha que essa “inversão de valores” é fabulosa: como disse o Sales, inversão mesmo é usar declarações a posteriori do autor para desqualificar a obra.
E aquilo do “se quer escrever um romance, nada como reflectir sobre o que é a literatura, ler muito, e bem, que é como quem diz: perder-se” é absolutamente ridículo, irrelevante e tonto. Continuo na minha, que aliás anunciei logo na altura: eu também nunca aprovaria aquele texto. E isso parece-me mas uma questão de higiene do que de censura.

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 8 de Fevereiro de 2010, 19:45

Mas precisamente, se se trata de um objecto literário com um tão óbvio prolongamento/enquadramento mediático, as entrevistas e declarações acerca do livro não podem estar completamente ausentes de um juízo crítico sobre o mesmo.
«Perder-se» é um pouco infeliz, mas de qualquer forma parece-me válido criticar a pretensão com que todo e qualquer jornalista mediano se dedica à escrita de romances que são apenas uma colecção de lugares comuns e de citações disfarçadas.
Repara que qualquer um pode dar uma margarida rebelo pinto qualquer, mas depois não deve ficar especialmente incomodado quando alguém o diz em voz alta. Há uma definição canónica da literatura que se arrisca a ser pedante, elitista e conservadora (no pior sentido da palavra)? Há. Mas neste caso esse risco é bem corrido.
De qualquer das formas coloca-se a questão de saber se um director de jornal deve assumir como tarefa recusar ou aprovar todo e cada texto. Se assim é, então a recusa do artigo de Crespo também pode ser defendida como uma questão de higiene.
Da parte que me toca considero apenas que os directores do JN e do Expresso e do DN e do SOl e do Público estão, todos eles, pouco à vontade para falar do assunto em causa.

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