E se Sócrates afinal é um génio?
3 de Fevereiro de 2010 por Luis RainhaAnda por aí muito maldizente a propagar a insidiosa tese da ligeira burrice de Sócrates. Que é apenas um palonço ambicioso e atrevido ao ponto da inconsciência, a que desgraças várias no PS abriram portas inesperadas, para nossa continuada miséria. Mas, se calhar, estamos a menosprezar a criatura, o que é sempre manobra arriscada.
Suspeito agora disto pelo recente contraponto entre Teixeira dos Santos e o primeiro ministro, a propósito do défice. Enquanto um admitia ter-se enganado, o segundo garantia que, afinal, tinha sido tudo de propósito. Ora uma dissonância destas não se pode ficar a dever apenas a displicência, incompetência ou imbecilidade. Tem de haver algo mais profundo.
Será que a ideia é apenas baralhar os eleitores, dando a cada um uma paleta de explicações, de onde ele pode escolher a menos desagradável? De caminho, ainda afasta o odioso de um possível engano para as costas do ministro, surgindo ele, Sócrates, como o visionário que lobriga estratégias e rumos onde os meros humanos apenas pressentem erros, enganos e perdições. Mais: ele passa a corporizar o Grande Homem, a figura trans-humana que vence crises internacionais, sofre uma oposição intragável e até supera as contrariedades oriundas dos mais próximos.
Assim se explicariam anomalias como o maluco do jamé, o desvairado dos corninhos, a ministra arvorada em inimiga dos professores, etc., etc. Mesmo a corrente parvoíce starring Mário Crespo serve para mais um acto de vitimização: “estão a ver como eu já nem posso almoçar em paz, sem ser perseguido pela inquisição dos meus oponentes?”
Ainda acabo em admirador do fulano.

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