
Falta-nos uma crítica dos valores morais [onde eu coloco a “família”, a “vida”, mas também a “democracia” ou o “capital-parlamentarismo”], há que começar a pôr em questão o valor desses valores… E, para tanto, é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias que lhes deram crescimento, que lhes permitiram desenvolver-se e transmutar-se (a moral enquanto consequência, enquanto sintoma, máscara, tartufice, doença ou equívoco, mas também a moral enquanto causa, enquanto remédio, estimulante, limitação, veneno), um conhecimento como até hoje nunca existiu, nem chegou a ser desejado por ninguém. Tomou-se sempre o valor desses “valores” como coisa dada, como facto, como estando para além de toda a possibilidade de os pôr em questão. E até hoje nem de longe se colocou a menor dúvida, a menor hesitação, na atribuição de um valor mais elevado ao “bom” [a “democracia”, por exemplo] do que ao “mau” [a revolução, nos termos liberais em voga], mais elevado no sentido do progresso, da utilidade, da prosperidade relativos ao homem em geral (incluindo o futuro do homem). E se a verdade fosse o contrário? Como seria? Se no “bom” existisse também um sintoma de retrocesso, um perigo, algo como uma sedução, um veneno, um narcótico, algo que até certo ponto fizesse o presente viver à custa do futuro?
[trad. J. Miranda Justo: acrescentos meus em parêntesis rectos]
Enfim, será que ninguém pensou que qualquer processo revolucionário ou de emancipação social (como se lhe queira chamar) deverá passar por uma crítica dos “valores”? (Pela polémica do post referido, parece-me que não)
Ao Daniel Oliveira e seguidores isto não é exigido; primeiro, porque se ele não percebeu, não perceberá (agora é tarde); em segundo lugar, porque Oliveira coloca como limiar utópico, como diz repetidamente, o “modelo nórdico” (que é o modelo do BE): Mas, aos outros que não a estes, não será que é de começar a pensar? Nisto, concretamente?




Oh. Prof. Carlos Vidal, que imensa deriva! Da formulação kantiano-marxista (será de influência Habermas?!?) da sua 1a. critica de valores, o CV-polemista cai no “estaleiro” de Nietzsche, o sacrílego dos “equívocos perpétuos”, na admirável e densa formulação de Pierre Klossowski em ” Nietzsche e o Círculo Vicioso “. Estará em transe para o marxo-nihilismo? Quer abater a golpes de martelo o Materialismo Histórico? Porquê este frenesim, esta corrida em direcção a um velado processo que se pode chamar de mercantilização do juízo de valor, no que tudo isso envolve de efeitos negativos de dominação e de atentismo? E que tem a sua tradução teórica e filosófica num texto de Adorno sobre Mai 68 , onde sublinha que “é já quase impossível distinguir onde se encontram os proletários apesar das relações de produção se manterem inalteráveis”… Niet
Este post é uma consequência directa-linear do anterior, citado.
E é uma homenagem ao niilismo activo de Badiou.
(Ora, parece que o Nietzsche é uma Autoridade – repare: veja se alguém o ataca… Está por aqui, em golpes de martelo, mas aqui ninguém vem. É um descanso.)
deslocamentos internos ao sistema, que de positivo se torna negativo, degradando-se, depois, incompleto e à procura de figuras de substituição, não só as da democracia, como as da musica de wagner, o bigodes pretende denunciar não só o perfil dos valores, mas o lugar estratégico, onde se produzem. Sai uma dose de homem-criador do super-homem.
Emancipação total até tudo ir para o caraças.Quando eu estiver totalmente emancipado suicido-me…climax. Niilismo !!! e tretas existencialista, marxistas!? O importante é, apenas, cuidar do Outro, mas do mais próximo. Os paraísos são isso mesmo paraísos.Não são para os Homens. Tone?!!!
Ainda bem que não me exige, que eu ando com tanto que fazer. E ao onanismo dedico-me no recato do lar. Não que eu considere a privacidade um valor. São cá coisas minhas, só isso.
e uma ideia própria, há?
Caríssimo Vidal.
O que é isto!!? De que se queixa!!?? Traz o Nietzsche como se de uma revelação se tratasse!! Não se tem feito outra coisa desde então, relativismo, positivismo, formalismo…que mais quer(A confusão e incompreensão daquela outra cx. coment. demonstra-o!!??)
Mas não é o Niilismo o grande vencedor do nosso tempo!!??
A crítica que refere institucionalizou-se na teoria constitucional, incorporou-se geneticamente nas gentes de hoje(é mais que abundante, é latente).
O discurso recorrente dos valores é redundante, instrumental, sem significação para além da forma.
O Vidal declina a ponderação de valores (não os valores em si, estes serão em última instancia uma teoria do vazio, serão indiferentes) porque rejeita qualquer discurso legitimador.
O Vidal aponta vitórias como se derrotas fossem (o erro recorrente).
Um bem haja,
Uma breve declaração de interesses: Detesto Nietzsche. Acho Badiou ilegível . Acho Zizek perfeitamente idiota, apesar de grotesco e, como tal, divertido. Tenho vergonha de mim por me ter dado ao trabalho de aprender a soletrar estes nomes todos e sobretudo Sloterdijk Detesto Agamben e detesto Strauss. Rancière, o mesmo. Espero ter-me enganado a escrever algum deles. Detesto esquerda e direita. Odeio Schmitt.
Mas há algo no que escreve sobre o jargão dos “valores” que me fez lembrar de um modo muito concreto o “Tirania dos valores” dele . É a ideia mesmo de valor que Schmitt critica. As sociedades ocidentais modernas, ao erigirem determinados valores como “absolutos”, passam paradoxalmente a atribuir-lhes um preço .Acabam por quantificar a esfera moral – tudo passa a ser conversível -tal medida significa “mais igualdade” outra “menor liberdade” . Uma sociedade em que, por absurdo, a “emancipação” fosse o valor supremo comungaria ainda da mesma “tirania dos valores” – que tudo transformam em moeda de troca, em permuta.
A diferença mais interessante entre a posição de Schmitt e a sua, é que o perigo das sociedades axiologicamente regimentadas para Schmitt é precisamente o contrário: não o de uma “atenuação” de intensidade, de diminuição do campo de possibilidades da “vida elementar” mas o de uma intensificação do conflito: os nosso códigos de valores funcionam como “pontos de ataque” (Angriffspunkte) de outras sociedades: aumentam a fronteira do que é tido por intolerável no comportamento de outras sociedades axiologicamente ordenadas de forma diferente ( isto coincide com a crítica – historicamente repugnante – que ele faz à ideia de direitos humanos: conduz à desumanização do oponente ).
Não basta descontruir uma determinada hegemonia, no sentido gramsciano, de valores. A “inversão” dos valores, para Schmitt, é politicamente uma pura perda de tempo. É preciso abandonar a própria ideia de valor. Para que um grau de racionalidade mínimo possa reger os dissídios geopolíticos deve voltar-se à ideia de interesse nacional.
Era assim que acabava, se bem me lembro, o livro de Schmitt. E é assim também a sua crítica dos valores acaba – reconduz os motivos da defesa pública de determinada posição aos instintos e ao julgamento estético irredutível “porque gosto do que escreveu ” – e o que é isso mais do que uma defesa do interesse próprio como derradeiro e não-analisável motivo,isto é, o mesmo que Schmitt repropunha no plano das relações internacionais, com a sua apologia de um regresso ao “interesse nacional”?
Resumi mal coisas que provavelmente conhece muito melhor do que eu.
ah!
Nietzsche, Badiou… Olha que dois! Bem, quanto ao segundo, dá vontade de rir. Filósofo? Ah! Filósofo da moda. Pensamentos sem fundamento, portanto.
V. Melo: O Carl Schmitt é um ideólogo que ” colaborou ” com Adolf Hitler. Tentou arranjar a base juridica do Nazismo. E, como é evidente, tentou envolver o impoluto Nietzsche nas suas pérfidas jogadas. A sua arquitectura de valores é, pois, medonha e insustentável, diria mesmo, racista, xenófoba e anti-semítica, quase a 100 por cento. Badiou é um dos maiores pensadores da actualidade; e acredita na Revolução e no Amor, afectos e impulsos que estão sempre em dia, como todos deviamos saber. Niet
Caro Niet,
Resumir Carl Schmitt a isso, é fantástico. É como negar que Heidegger é um filósofo fundamental, chamar mau escritor a Céline e péssimo poeta a Ezra Pound. Recomendo-te um livro, que em boa hora o Figueira me ofereceu, The Enemy, an intelectual portrait of Carl Schmitt do Gopal Balakrishnan (outro tipo que V. Melo grafará bem).
NR de Almeida: Não me diga que acha pouco, meu caro! Até à hora da morte, C.Schmitt, delirava contra os Judeus e atreveu-se a deixar isso escrito no post-mortem Diário,” Glossarium”, onde enaltecia também as virtudes e qualidades do partido hitleriano. A teoria do afrontamento político de C. Schmitt foi relançada pelos Neo-Cons USA- Wolfowitz, Perle, Armitage e o clan Kristol- que manipularam GW Bush, à outrance. Badiou e Derrida, por exemplo, nunca embarcaram- como Zizek, Finkielkraut e Peter Sloterdijk – na promoção do anti-liberalismo prussiano de C. Schmitt. Niet
Caríssimo, há que separar o trigo do joio. O próprio Negri, autonomista, utiliza muita coisa sobre a ideia de soberania desse pensador maldito.
NR de Almeida: Há quem diga( e escreva…), que foram os neo-leninistas e associados- Bensaid, Balibar, Zizek -que, em mal de propostas teóricas, se decidiram a ” limpar ” a teoria política de C. Schmitt dos seus padrões nazistas mais evidentes. Isto depois dos ” think tanks ” norte-americanos de direita o terem ressuscitado. À suivre, portanto. Niet
Daniel Oliveira, onanismo? quê?
Não há mais nada na sua cabeça?
Caríssimo V. Melo!
Correctíssimo!!!
Viegas, João,
V. sabe que eu apago sempre os seus comentários. Mas leio-o sempre com o maior gosto. Mande sempre novidades. Não desista.