Para onde vai o Bloco de Esquerda?

“Com a entrada de um socialista no governo, e com a continuação da dominação de classe, o governo burguês não se transforma num governo socialista, um socialista é que se transforma num ministro burguês.”

Rosa Luxemburgo


Tal como o Fórum Social Mundial o BE comemora o seu décimo aniversário. O tempo de efemérides, se outra virtude não tem, coloca a possibilidade de se fazerem os balanços que tantas vezes se deixam na gaveta.

As dúvidas que o Carlos Vidal levanta aqui, ou a confusão que o Tiago Mota Saraiva identifica aqui, são recorrentes na análise política do BE.

As mais recentes declarações públicas dos dirigentes políticos do BE são uma vez mais clarificadoras. O apoio “sem condições” a Sócrates Alegre e as mais recentes declarações de amor pelo capitalismo liberal da Escandinávia aqui e aqui, nas bocas de José Manuel Pureza, Daniel Oliveira e José Guilherme Gusmão, respectivamente, não deixam margem para dúvidas.

Em anexo, deixo a análise, actualizada, a esse tão badalado partido da praça, e os motivos que me levaram, em conjunto com outros militantes, a sair do partido que ajudei a dar os primeiros e os segundos passos, a partir do congresso em que este passou a correr para o colo do PS.

O rumo da marcha há muito que se podia ler nas entrelinhas, e quem continua no BE a pretexto de que daqui sairá uma nova força revolucionária, das duas, uma: ou é ingénuo ou está a mentir com quantos dentes tem na boca.

O espaço político que o BE organizou foi entre aqueles que não queriam nem o socialismo liberal do PS nem a ortodoxia do PCP. A traição às aspirações de um eleitorado que só quer poder para aniquilar o poder só tem um resultado: a dissidência. Mais cedo que tarde, à velocidade que caminha para o abismo oportunista, O BE vai ver esfumarem-se os votos que lhe deram visibilidade, tal qual aconteceu a todos os que comeram o engodo reformista ao longo do século XX.

O BE passou das esquinas da desobediência, onde tinha todo o interesse, para os corredores do poder, onde não interessa nada a quem realmente interessa.

“O BE nasceu e cresceu ajudado por uma conjuntura cujo calendário foi marcado por sucessivas sublevações populares um pouco por todo o mundo, com particular relevo na América Latina e no Médio Oriente. O novo e o velho imperialismo foram sacudidos com o nascimento do movimento antiglobalização, onde milhares de activistas marcharam em Colónia, em Seattle e em Génova, contra o FMI, a OMC e o G8. Seguiram-se sucessivas manifestações que originaram o movimento contra a nova etapa imperialista no Afeganistão e no Iraque, e nas ruas de Cabul e Bagdad eclodiu a resistência contra a cruzada ocidental pelo petróleo.

Na verdade, foram tantas as lutas, de França aos próprios EUA, que seria muito difícil enunciar todos os acontecimentos que marcaram esta última década e que proporcionaram o nascimento de fenómenos um pouco por todo lado. São exemplos o Partido da Esquerda na Alemanha ou o segundo fôlego da Refundação Comunista na Itália. Portugal teve o BE como expoente máximo.

Esta conjuntura foi aliada à forte contestação que as direcções tradicionais do movimento de massas, como o PCP em Portugal, estavam a ser alvo. Independentemente das características da direcção que se propôs como alternativa: os renovadores. A relação desta crise com o BE faz todo sentido uma vez que em política não há vácuo. O espaço perdido por uns é sempre ocupado por outros. Em nossa opinião, o BE foi uma expressão particular desta conjuntura. Factualmente, o BE nasce como uma força que emerge deste movimento e, em grande medida, faz parte da sua direcção. Este papel, essencialmente positivo, impôs-nos tomar partido e entrar neste projecto.

Não queremos com isto dizer que o BE nasceu por geração espontânea. Pelo contrário. É do conhecimento público que nasceu, com dia e hora marcada, pela vontade de três organizações: PSR, UDP e Política XXI, a que se juntou mais tarde o Ruptura FER. Estas organizações apostaram, desde o início, em conciliar um programa que conjugava campanhas em torno de eixos políticos, que iam ao encontro de vários problemas sentidos pelas pessoas no seu dia-a-dia, com um programa estratégico profundamente reformista, órfão de qualquer horizonte revolucionário. A lógica deste programa, quando se afirma, não podia ser outra senão assumir-se como legítimo herdeiro do programa do velho PS social-democrata, o do PS histórico. O problema aqui é muito simples: os limites do PS em relação ao seu programa não estão na retórica abandonada mas sim na utopia do reformismo, porque independentemente de ser novo ou velho, trata-se de se propor como administrador mais eficaz do estado burguês, ou seja, dos negócios comuns da burguesia.

Como é do conhecimento de todos, o BE cresceu nestes últimos 10 anos. Elegeu por três vezes uma bancada parlamentar que, actualmente, conta com 16 deputados. A isto acrescentamos vários autarcas e vários sindicalistas (hoje a grande maioria dos militantes activos é funcionário do partido). De resto, este facto é-nos permanentemente lembrado por Francisco Louçã, em nome da direcção do BE, nas suas assembleias. Mas Louçã e o BE esqueceram-se a certa altura de que há vida para além do parlamento. O abraço à face esquerda do programa da social-democracia faz o principal dirigente do BE reduzir os êxitos da organização ao número de parlamentares. Francisco Louçã podia vangloriar-se por muitas outras razões mas escolhe sempre esta. Sempre se desvalorizaram os encontros de trabalho que, um após outro, trariam novos activistas e ajudariam a dotar o BE de uma política de construção sindical, sendo a sua elevada frequência determinada pela dinâmica de uma força que constrói uma alternativa às direcções burocráticas como a da CGTP. Podia vangloriar-se da sua juventude e ter tido uma política para reforçar a sua organização, mas a dinâmica de outrora, marcada pela luta de resistência à política de privatização do ensino público, pela luta contra a guerra imperialista, pela luta contra a precariedade, pelos direitos dos LGBT ou pela despenalização das drogas, foi-se perdendo com o passar dos anos. Podia orgulhar-se do BE ser mantido centralmente pelas quotas dos militantes e não pelo dinheiro do parlamento, mas fez exactamente o contrário.

Para além do número de deputados e da suposta justeza das suas propostas parlamentares (bastante questionáveis, diga-se, em muitos casos) nenhuma outra variável pode ser invocada sem se constatar um amplo e claro recuo. Na verdade, a nossa grande diferença com a direcção do BE não está no balanço mas nos fundamentos. Alfonso Guerra, antigo dirigente do PSOE e vice-presidente do governo espanhol da era Gonzalez, disse que preferia 10 minutos de televisão a 10 mil militantes. Certamente que ele estaria de acordo com os critérios de balanço de Francisco Louçã num artigo intitulado “Sectarismo: um fantasma que ameaça a esquerda”[1]. Francisco Louçã defende que “a esquerda tem sido derrotada pela globalização realmente existente” e constata a derrota com “entusiasmo e sem nenhuma angústia”, porque é “nestes momentos de viragem que se fizeram novas ideias” para reconstruir a crise da esquerda. Francisco Louçã deixa algumas ideias essenciais neste texto, que servem para compreender o sentido estratégico do Bloco e também o que todos andámos a fazer, conscientes ou não, ao longo da última década.

O nosso grande problema, conclui-se do texto, é que a burguesia tem andado a fazer aquilo que sabe e que é da sua natureza: recuperar a taxa de lucro repousando os custos dessa recuperação nos ombros de quem trabalha. A nossa explicação para a derrota não é que a burguesia tem andado a fazer o que é da sua natureza. Não temos qualquer saudosismo keynesiano (oh! Se a burguesia fosse boazinha e não nos tratasse tão mal!). Um povo não tem o governo que merece como o proletariado não tem a direcção que defende os seus interesses. A classe trabalhadora e os seus aliados não agem sempre de acordo com os seus interesses porque não têm uma percepção clara destes. Que outra justificação pode ter o apoio de grande parte da classe operária europeia à tragédia da I Grande Guerra?

Também não nos refugiamos nos factores objectivos do tipo «não se decantou um partido organizado contra o capital porque as mobilizações não foram suficientemente fortes para isso». Uma explicação objectivista, na qual aliás sempre repousou a justificação política de todas as correntes reformistas do século XX.

Aos jovens que gritavam «morte ao capitalismo» nas ruas de Génova e Davos, o BE, a Refundação Comunista e o PT disseram “vamos para Porto Alegre, gritar cidadania” – “Cidadãos de todo o mundo, uni-vos, e fazei-vos representar!”. E aquilo que afinal parecia uma pequena palavra – cidadania –, um sectarismo injustificável, revelou-se um gigante político. Do centro imperialista para a semi-periferia; das palavras de ordem anticapitalistas para a conciliação de classes. E a consequência de sermos todos cidadãos está aí. O BE já governou Lisboa com o PS, onde geriu passivos e despediu trabalhadores; está no mesmo partido europeu dos cidadãos que bombardeiam os cidadãos do Afeganistão e esquece que o programa da cidadania multicultural mais não é do que uma peneira para tapar a luta de classes. Não se deve por isso estranhar a campanha tíbia nas últimas presidenciais, onde o partido se dividiu por três candidaturas (Louçã, Soares e Alegre) quando veio a defesa das tropas da ONU para o Líbano pela boca do eurodeputado Miguel Portas. Este que viria a ser obrigado a retratar-se publicamente por ter defendido os activistas do Verde Eufémia nos trangénicos de Silves. E veio, pois claro, o famigerado acordo sem princípios para a Câmara Municipal de Lisboa onde se começaram a deitar no ninho do PS a preparar matrimónios futuros.

Nós não temos nenhum entusiasmo com a derrota. As derrotas desmoralizam os activistas mais honestos e abrem espaço à reacção. A derrota do movimento antiglobalização ajudou a invasão do Iraque em 2003. Não são as derrotas que nos fazem sair da crise. Só uma percepção correcta de “onde errámos” nos permite reconstruir a esquerda revolucionária. Quando aderimos ao Bloco de Esquerda caracterizámos que estávamos a aderir a uma ampla frente compatível com um espaço de construção revolucionário. Hoje o BE está inviabilizado como força progressista ao insistir em ser apêndice do Estado burguês. Ao abdicar da independência financeira e depender totalmente do parlamento para o seu funcionamento. Errou ao escolher o caminho da conciliação de classes como o seu. Ao escolher obsessivamente uma política de unidade com o Partido Socialista (referida aliás de modo muito explícito no texto citado de Francisco Louçã e nas últimas teses da Conferência da Política XXI). As teses da Política XXI e o artigo de Louçã têm uma coisa em comum: querem uma política forte de unidade na esquerda; recusam-na com a esquerda anticapitalista, recusam-na com o PC. Sobra quem? Em Portugal: o PS.

O maior drama da esquerda não foi o sectarismo mas o oportunismo que a conduziu ao isolamento. Ao isolamento da classe trabalhadora, ao isolamento da rua. Estar no parlamento, a fazer projectos de lei e moções que nada servem, é estar isolado da luta; dar tudo por 10 minutos na televisão e nada por 1 militante é estar isolado; ter 500 000 votos e não conseguir reunir em Lisboa mais que 50 pessoas contra a guerra do Iraque ou contra o Gueto de Gaza, a isso é que chamamos isolamento; ter governado Lisboa com o PS contra os trabalhadores e apoiar Manuel Alegre “sem condições” é ter chegado ao fim do túnel e não ter luz nenhuma.
Não ficaremos a fazer oposição de tribuna à hora marcada com o cravo na lapela, que debaixo dos holofotes vai falando com a faca nos dentes, mas aperta as mãos por baixo da mesa. Aos que ficam, e partilham das nossas convicções, um até breve, pois sabemos que nada melhor do que o tempo para nos voltarmos a encontrar e voltar novamente a fazer da política a arte do necessário e não as côdeas do possível.”

[1] LOUÇÃ, Francisco. «Sectarismo: um fantasma que ameaça a esquerda». Combate, edição 288, Verão de 2007.

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