Para onde vai o Bloco de Esquerda?

“Com a entrada de um socialista no governo, e com a continuação da dominação de classe, o governo burguês não se transforma num governo socialista, um socialista é que se transforma num ministro burguês.”

Rosa Luxemburgo


Tal como o Fórum Social Mundial o BE comemora o seu décimo aniversário. O tempo de efemérides, se outra virtude não tem, coloca a possibilidade de se fazerem os balanços que tantas vezes se deixam na gaveta.

As dúvidas que o Carlos Vidal levanta aqui, ou a confusão que o Tiago Mota Saraiva identifica aqui, são recorrentes na análise política do BE.

As mais recentes declarações públicas dos dirigentes políticos do BE são uma vez mais clarificadoras. O apoio “sem condições” a Sócrates Alegre e as mais recentes declarações de amor pelo capitalismo liberal da Escandinávia aqui e aqui, nas bocas de José Manuel Pureza, Daniel Oliveira e José Guilherme Gusmão, respectivamente, não deixam margem para dúvidas.

Em anexo, deixo a análise, actualizada, a esse tão badalado partido da praça, e os motivos que me levaram, em conjunto com outros militantes, a sair do partido que ajudei a dar os primeiros e os segundos passos, a partir do congresso em que este passou a correr para o colo do PS.

O rumo da marcha há muito que se podia ler nas entrelinhas, e quem continua no BE a pretexto de que daqui sairá uma nova força revolucionária, das duas, uma: ou é ingénuo ou está a mentir com quantos dentes tem na boca.

O espaço político que o BE organizou foi entre aqueles que não queriam nem o socialismo liberal do PS nem a ortodoxia do PCP. A traição às aspirações de um eleitorado que só quer poder para aniquilar o poder só tem um resultado: a dissidência. Mais cedo que tarde, à velocidade que caminha para o abismo oportunista, O BE vai ver esfumarem-se os votos que lhe deram visibilidade, tal qual aconteceu a todos os que comeram o engodo reformista ao longo do século XX.

O BE passou das esquinas da desobediência, onde tinha todo o interesse, para os corredores do poder, onde não interessa nada a quem realmente interessa.

“O BE nasceu e cresceu ajudado por uma conjuntura cujo calendário foi marcado por sucessivas sublevações populares um pouco por todo o mundo, com particular relevo na América Latina e no Médio Oriente. O novo e o velho imperialismo foram sacudidos com o nascimento do movimento antiglobalização, onde milhares de activistas marcharam em Colónia, em Seattle e em Génova, contra o FMI, a OMC e o G8. Seguiram-se sucessivas manifestações que originaram o movimento contra a nova etapa imperialista no Afeganistão e no Iraque, e nas ruas de Cabul e Bagdad eclodiu a resistência contra a cruzada ocidental pelo petróleo.

Na verdade, foram tantas as lutas, de França aos próprios EUA, que seria muito difícil enunciar todos os acontecimentos que marcaram esta última década e que proporcionaram o nascimento de fenómenos um pouco por todo lado. São exemplos o Partido da Esquerda na Alemanha ou o segundo fôlego da Refundação Comunista na Itália. Portugal teve o BE como expoente máximo.

Esta conjuntura foi aliada à forte contestação que as direcções tradicionais do movimento de massas, como o PCP em Portugal, estavam a ser alvo. Independentemente das características da direcção que se propôs como alternativa: os renovadores. A relação desta crise com o BE faz todo sentido uma vez que em política não há vácuo. O espaço perdido por uns é sempre ocupado por outros. Em nossa opinião, o BE foi uma expressão particular desta conjuntura. Factualmente, o BE nasce como uma força que emerge deste movimento e, em grande medida, faz parte da sua direcção. Este papel, essencialmente positivo, impôs-nos tomar partido e entrar neste projecto.

Não queremos com isto dizer que o BE nasceu por geração espontânea. Pelo contrário. É do conhecimento público que nasceu, com dia e hora marcada, pela vontade de três organizações: PSR, UDP e Política XXI, a que se juntou mais tarde o Ruptura FER. Estas organizações apostaram, desde o início, em conciliar um programa que conjugava campanhas em torno de eixos políticos, que iam ao encontro de vários problemas sentidos pelas pessoas no seu dia-a-dia, com um programa estratégico profundamente reformista, órfão de qualquer horizonte revolucionário. A lógica deste programa, quando se afirma, não podia ser outra senão assumir-se como legítimo herdeiro do programa do velho PS social-democrata, o do PS histórico. O problema aqui é muito simples: os limites do PS em relação ao seu programa não estão na retórica abandonada mas sim na utopia do reformismo, porque independentemente de ser novo ou velho, trata-se de se propor como administrador mais eficaz do estado burguês, ou seja, dos negócios comuns da burguesia.

Como é do conhecimento de todos, o BE cresceu nestes últimos 10 anos. Elegeu por três vezes uma bancada parlamentar que, actualmente, conta com 16 deputados. A isto acrescentamos vários autarcas e vários sindicalistas (hoje a grande maioria dos militantes activos é funcionário do partido). De resto, este facto é-nos permanentemente lembrado por Francisco Louçã, em nome da direcção do BE, nas suas assembleias. Mas Louçã e o BE esqueceram-se a certa altura de que há vida para além do parlamento. O abraço à face esquerda do programa da social-democracia faz o principal dirigente do BE reduzir os êxitos da organização ao número de parlamentares. Francisco Louçã podia vangloriar-se por muitas outras razões mas escolhe sempre esta. Sempre se desvalorizaram os encontros de trabalho que, um após outro, trariam novos activistas e ajudariam a dotar o BE de uma política de construção sindical, sendo a sua elevada frequência determinada pela dinâmica de uma força que constrói uma alternativa às direcções burocráticas como a da CGTP. Podia vangloriar-se da sua juventude e ter tido uma política para reforçar a sua organização, mas a dinâmica de outrora, marcada pela luta de resistência à política de privatização do ensino público, pela luta contra a guerra imperialista, pela luta contra a precariedade, pelos direitos dos LGBT ou pela despenalização das drogas, foi-se perdendo com o passar dos anos. Podia orgulhar-se do BE ser mantido centralmente pelas quotas dos militantes e não pelo dinheiro do parlamento, mas fez exactamente o contrário.

Para além do número de deputados e da suposta justeza das suas propostas parlamentares (bastante questionáveis, diga-se, em muitos casos) nenhuma outra variável pode ser invocada sem se constatar um amplo e claro recuo. Na verdade, a nossa grande diferença com a direcção do BE não está no balanço mas nos fundamentos. Alfonso Guerra, antigo dirigente do PSOE e vice-presidente do governo espanhol da era Gonzalez, disse que preferia 10 minutos de televisão a 10 mil militantes. Certamente que ele estaria de acordo com os critérios de balanço de Francisco Louçã num artigo intitulado “Sectarismo: um fantasma que ameaça a esquerda”[1]. Francisco Louçã defende que “a esquerda tem sido derrotada pela globalização realmente existente” e constata a derrota com “entusiasmo e sem nenhuma angústia”, porque é “nestes momentos de viragem que se fizeram novas ideias” para reconstruir a crise da esquerda. Francisco Louçã deixa algumas ideias essenciais neste texto, que servem para compreender o sentido estratégico do Bloco e também o que todos andámos a fazer, conscientes ou não, ao longo da última década.

O nosso grande problema, conclui-se do texto, é que a burguesia tem andado a fazer aquilo que sabe e que é da sua natureza: recuperar a taxa de lucro repousando os custos dessa recuperação nos ombros de quem trabalha. A nossa explicação para a derrota não é que a burguesia tem andado a fazer o que é da sua natureza. Não temos qualquer saudosismo keynesiano (oh! Se a burguesia fosse boazinha e não nos tratasse tão mal!). Um povo não tem o governo que merece como o proletariado não tem a direcção que defende os seus interesses. A classe trabalhadora e os seus aliados não agem sempre de acordo com os seus interesses porque não têm uma percepção clara destes. Que outra justificação pode ter o apoio de grande parte da classe operária europeia à tragédia da I Grande Guerra?

Também não nos refugiamos nos factores objectivos do tipo «não se decantou um partido organizado contra o capital porque as mobilizações não foram suficientemente fortes para isso». Uma explicação objectivista, na qual aliás sempre repousou a justificação política de todas as correntes reformistas do século XX.

Aos jovens que gritavam «morte ao capitalismo» nas ruas de Génova e Davos, o BE, a Refundação Comunista e o PT disseram “vamos para Porto Alegre, gritar cidadania” – “Cidadãos de todo o mundo, uni-vos, e fazei-vos representar!”. E aquilo que afinal parecia uma pequena palavra – cidadania –, um sectarismo injustificável, revelou-se um gigante político. Do centro imperialista para a semi-periferia; das palavras de ordem anticapitalistas para a conciliação de classes. E a consequência de sermos todos cidadãos está aí. O BE já governou Lisboa com o PS, onde geriu passivos e despediu trabalhadores; está no mesmo partido europeu dos cidadãos que bombardeiam os cidadãos do Afeganistão e esquece que o programa da cidadania multicultural mais não é do que uma peneira para tapar a luta de classes. Não se deve por isso estranhar a campanha tíbia nas últimas presidenciais, onde o partido se dividiu por três candidaturas (Louçã, Soares e Alegre) quando veio a defesa das tropas da ONU para o Líbano pela boca do eurodeputado Miguel Portas. Este que viria a ser obrigado a retratar-se publicamente por ter defendido os activistas do Verde Eufémia nos trangénicos de Silves. E veio, pois claro, o famigerado acordo sem princípios para a Câmara Municipal de Lisboa onde se começaram a deitar no ninho do PS a preparar matrimónios futuros.

Nós não temos nenhum entusiasmo com a derrota. As derrotas desmoralizam os activistas mais honestos e abrem espaço à reacção. A derrota do movimento antiglobalização ajudou a invasão do Iraque em 2003. Não são as derrotas que nos fazem sair da crise. Só uma percepção correcta de “onde errámos” nos permite reconstruir a esquerda revolucionária. Quando aderimos ao Bloco de Esquerda caracterizámos que estávamos a aderir a uma ampla frente compatível com um espaço de construção revolucionário. Hoje o BE está inviabilizado como força progressista ao insistir em ser apêndice do Estado burguês. Ao abdicar da independência financeira e depender totalmente do parlamento para o seu funcionamento. Errou ao escolher o caminho da conciliação de classes como o seu. Ao escolher obsessivamente uma política de unidade com o Partido Socialista (referida aliás de modo muito explícito no texto citado de Francisco Louçã e nas últimas teses da Conferência da Política XXI). As teses da Política XXI e o artigo de Louçã têm uma coisa em comum: querem uma política forte de unidade na esquerda; recusam-na com a esquerda anticapitalista, recusam-na com o PC. Sobra quem? Em Portugal: o PS.

O maior drama da esquerda não foi o sectarismo mas o oportunismo que a conduziu ao isolamento. Ao isolamento da classe trabalhadora, ao isolamento da rua. Estar no parlamento, a fazer projectos de lei e moções que nada servem, é estar isolado da luta; dar tudo por 10 minutos na televisão e nada por 1 militante é estar isolado; ter 500 000 votos e não conseguir reunir em Lisboa mais que 50 pessoas contra a guerra do Iraque ou contra o Gueto de Gaza, a isso é que chamamos isolamento; ter governado Lisboa com o PS contra os trabalhadores e apoiar Manuel Alegre “sem condições” é ter chegado ao fim do túnel e não ter luz nenhuma.
Não ficaremos a fazer oposição de tribuna à hora marcada com o cravo na lapela, que debaixo dos holofotes vai falando com a faca nos dentes, mas aperta as mãos por baixo da mesa. Aos que ficam, e partilham das nossas convicções, um até breve, pois sabemos que nada melhor do que o tempo para nos voltarmos a encontrar e voltar novamente a fazer da política a arte do necessário e não as côdeas do possível.”

[1] LOUÇÃ, Francisco. «Sectarismo: um fantasma que ameaça a esquerda». Combate, edição 288, Verão de 2007.

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25 Responses to Para onde vai o Bloco de Esquerda?

  1. paulo diz:

    que deve a esquerda socialista fazer

    pegar em armas?

    por amorde deus….

  2. Paulinho diz:

    Voce saiu do bloco…agora não queira estar sempre a fazer pressão para que um certo sector saia do bloco…ja tem consciencia que se precipitou? OK, devia ter sido mais sensato…a caracterização que eu tenho do bloco hoje é a mesma que tinha há dez anos atrás…afinal quem mente ou é ingenuo parece ser o senhor…

  3. Renato Teixeira diz:

    Paulo, pegar em armas é o que todos fazem… da esquerda à direita, dependendo do contexto político. Aliás… o contexto só é importante para a esquerda, a direita nunca baixou os fuzis. Acha mal que os movimentos de libertação tenham pegado em armas? O que a esquerda socialista não deve fazer é ficar cada vez mais igual ao socialismo liberal. Isso parece-me uma evidência. As pessoas preferem o original à copia disfarçada.

    Paulinho, eu saí do Bloco e não me arrependo de o ter feito. Talvez se soubesse o que sei hoje teria saído com outro alarido. Pelo menos o alarido com que o construí. Diz que eu estou “sempre a fazer pressão para que um certo sector saia do bloco”, pode-me dizer onde mais leu essa pressão? Como disse a falta de alarido passa por ai também. Acredito que me reconhece o direito de “desconvencer” algumas das pessoas que convenci a ir para o BE. Acho que qualquer militante revolucionário que teima em permanecer no BE faz falta para reorganizar o movimento que corre por fora. Chamo evidentemente por eles e pela sua razão. E sei que tenho essa autoridade, desculpe-me a falta de humildade ou como diz de sensatez.

    Ao contrário do Paulinho a minha caracterização do BE não é hoje a mesma que tinha há 10 anos atrás. Nessa altura era um partido com um programa em disputa, hoje não. Na altura dava política para os que não queriam nem PS nem PCP, hoje dá política para o PS. Nesse tempo o BE estava nas ruas dia sim, dia não e lançava temas para a praça pública semana sim semana não. Hoje o BE fala da razoabilidade do orçamento de estado, de governabilidade e de apoiar candidatos do regime, que é isso que se fala quando se apoio o Alegre. Posso ter sido ingénuo e não ter tido a sua clarividência, mas acho que na verdade fez sentido os primeiros anos de BE.

    Não me arrependo nem de lá ter estado nem de lá ter saído. Acho que perdeu alguma coisa por fora… mas claro, pode ser ingenuidade.

  4. paulo diz:

    o que eu pergunto renato não é se que os movimentos de libertação devem pegar em armas é se em portugal se deve recorrer à luta armada
    é que isso significa que o voto popular por mais que nos desagrade não serve de nada e isso não é democrático

  5. viana diz:

    Renato, várias das críticas mencionadas no post estarão correctas, apesar de não sendo militante do BE, não as poder confirmar. Até compreendo a crítica central, contra a estratégia advogada pela direcção do BE para aceder ao poder. E é sobre esta que faço incidir uma pergunta óbvia: qual é a alternativa? No sistema político actual, qual é a alternativa? Dizer sempre não? Acha que a Esquerda revolucionária consegue por si só angariar os votos necessários para aceder ao governo no actual sistema político? Ou o que pretende é mudar o actual sistema político através duma “revolução de rua”? Para instaurar que outro sistema político? Repare, Renato, que também não concordo com este sistema político. Mas, ao contrário de si, acho que é passível mudá-lo, se houver uma pressão nessa direcção quer na rua quer no parlamento. Sempre foi essa, e continua a ser, por exemplo, a estratégia do PCP. Mas, por razões diversas, não conseguiu os seus intentos logo após o 25 de Abril, e depois a sociedade entrou em “contra-ciclo”. E entretanto o PCP “envelheceu” de mais do que uma maneira. Mas por exemplo, o Partido Republicano Português conseguiu os seus intentos, através da pressão simultânea na rua e no parlamento. O facto é que historicamente as revoluções (ie. tomadas do Poder de Estado), de Esquerda e de Direita, tanto têm origem entre os excluídos do “sistema” (como a russa em 1917), como entre os que nele participam tendo como objectivo último a sua superação. A diferença principal é que as segundas têm um maior potencial de sucesso, simplesmente porque as forças revolucionárias em questão ou conseguem capturar previamente os mecanismos de Poder do Estado (polícia e exército) ou adquirem uma legitimidade político-social que lhes permite reunir rapidamente um elevado número de apoiantes em períodos revolucionários.

    Como questão menor perguntava-lhe porque é que aderiu ao BE se

    “Estas organizações apostaram, desde o início, em conciliar um programa que conjugava campanhas em torno de eixos políticos, que iam ao encontro de vários problemas sentidos pelas pessoas no seu dia-a-dia, com um programa estratégico profundamente reformista, órfão de qualquer horizonte revolucionário.”

    Afinal saiu porque nada mudou no BE desde a sua fundação, ou porque o BE mudou desde então?…

  6. Renato Teixeira diz:

    Paulo, a luta armada tem o seu contexto. Hoje dá-se no Iraque, na Palestina, no Afeganistão… Todas por opção dos invasores: EUA e Israel. Em Portugal não há evidentemente contexto para isso. Já houve, e talvez volte a haver. A luta armada é tão pouco democrática como o voto. Ainda que a primeira produza regra geral resultados mais justos do que a segunda. O actual sistema democrático, baseado num voto muito pouco popular, é anti-democrático. Só as forças dotadas de grande envergadura financeira podem jogar. Ora, um jogo em que só alguns podem jogar não é um jogo democrático.

  7. Renato Teixeira diz:

    Viana, não precisa ser militante do BE para perceber a trajectória do BE.

    Pergunta: “Qual é a alternativa”, e eu respondo-lhe com frontalidade. Nunca como hoje esteve tão claro onde se separam as águas. Entre os que confiam e organizam a luta política em torno do parlamentarismo, das instituições, e os que querem construir derrubar o regime. Se está claro, porque é que isso não adquire uma expressão organizativa? Seria pequena? Fosse. Mas produziria resultados concretos. O que têm feito os deputados do BE e do PCP nos últimos anos? Que conquista alcançaram? A única vitória da esquerda foi o referendo da legalização do aborto e mesmo nesse caso a vitória não passou pelo parlamento. Acho, como o Viana, que as organizações podem, a partir do parlamento, animar a luta social. Mas têm feito isso? O BE praticamente não tem expressão no movimento popular, e o PCP, tendo, quando tem 120 mil professores na rua fica satisfeito em negociar umas migalhas…

    Pergunta: O que se deve fazer neste contexto? E avança algumas sugestões: “Dizer sempre não? Acha que a Esquerda revolucionária consegue por si só angariar os votos necessários para aceder ao governo no actual sistema político?” Acho que se deve dizer sempre não sempre que achamos que não. La palice. A esquerda revolucionária não se deve preocupar obsessivamente com os votos, pois eles são uma representação distorcida da vontade popular. A esquerda revolucionária deve preocupar-se em lançar as bases do que é preciso para uma revolução. Isso significa andar a pregar todos os dias a luta armada? Evidentemente que não. Significa quebrar a hegemonia sindical do PCP, significa levar a luta política para a rua em busca de conquistas concretas e não de vitórias morais, significa trazer para o debate político os temas que colocam o regime entre a espada e a parede. Significa injectar na opinião pública a dissonância da qual o PCP e o BE se afastaram. Significa por fim procurar pontes entre a esquerda necessária e denunciar a esquerda do possível. Portanto sim, interessam revoluções de rua e mudar o actual sistema político.

    Tenho dúvidas se foi a contra-revolução que envelheceu o PCP ou se foi o PCP que envelheceu a revolução. Uma coisa é certa, apesar de nos últimos tempos ter cometido mais acertos tácticos do que o BE, sabemos há muitos anos ao que vem a direcção do PCP. Neste caso, como no BE, distingo bem as intenções entre os militantes de base e as direcções.
    A direcção do BE, como disse, procurou desde o primeiro dia “conciliar um programa que conjugava campanhas em torno de eixos políticos, que iam ao encontro de vários problemas sentidos pelas pessoas no seu dia-a-dia, com um programa estratégico profundamente reformista, órfão de qualquer horizonte revolucionário”. Agora nos primeiros anos as suas intenções poderiam ter sido contrariadas. Nem sempre as intenções das direcções se concretizam. A verdade é que a ala pragmática (para não dizer coisas mais feias) ganhou e blindou o partido. Saí, porque esse programa deixou de estar em disputa e o BE já não é o pólo agregador de quem quer o poder para destituir o poder reinante. Virou o albergue dos dissidentes que querem o poder pelo poder e não o conseguiram nem no PS nem no PCP. Que interesse tem estar nos Verdes do PS? É nisso que o BE se transformou e não era isso que o BE era quando levou para a rua o “começar de novo”, seu documento fundador.

    Começou de novo para fazer tudo à moda antiga.

  8. portela menos 1 diz:

    “a luta armada dá-se no Iraque .. no Afeganistão”

    esse conceito de luta armada inclui os atentado bombistas contra civis?

  9. Renato Teixeira diz:

    Portela menos 1, não, inclui cada soldado colonial abatido e cada mercenário fora de combate.

  10. O marreta diz:

    Camarada Renato:

    A tua análise sobre os desvios social-democratizantes do Bloco e sobre como o bloco vem ocupando o espaço da social-democracia “de esquerda” deixado vago e há muito abandonado pela deriva social-liberal do PS coincidem extraordinariamente com as análises que o Partido tem feito…

    Mais! a tua correctíssima análise do papel de cobertura “pela esquerda” que Alegre faz ao PS do Sócrates assemelha-se, ipsis verbis, à avaliação que dele faz o Partido…

    E assim, camarada, fica feito o convite: deixa as fraldas, larga as birras e junta-te à única força verdadeiramente consequente em Portugal: o Partido Comunista Português!

  11. Rui F diz:

    façam um partido novo…
    Contem com o meu apoio moral…apenas

  12. portela menos 1 diz:

    Comentário de Renato Teixeira
    Data: 2 de Fevereiro de 2010, 15:44

    espero que não inclua bombismo, com os colaterais efeitos nos civis.
    mas o que que se assiste é a bombismo, overall, e civis inocentes a morrer, não a acções armadas contra mercenários.

  13. paulo diz:

    o marreta vai para o paraiso da coria depois a malta fala

  14. viana diz:

    Renato, antes de mais obrigado pela resposta longa e cuidada. Vou-me concentrar nos pontos em que discordo de si. Em primeiro lugar, no início do seu comentário, o Renato contrapõe aqueles que se submetem a eleições para o parlamento, e que quando obtêm mandatos participam no processo parlamentar, com aqueles que pretendem substituir o actual regime (apesar de não me ser claro se tal engloba apenas a parte económico-social, ou também a componente política). No entanto, é possível estar “com um pé em cada lado”, como exemplifiquei com o Partido Republicano Português, há um século atrás. Aliás, mais à frente no seu comentário o Renato menciona essa possibilidade quando afirma “Acho (…) que as organizações podem, a partir do parlamento, animar a luta social”. Não há qualquer contradição em tal atitude, pois consiste apenas na exploração de mais de uma via para criar condições para a mudança. E, que, como expliquei no meu comentário anterior, acho que reúne mais possibilidades de sucesso do que a estratégia unicamente “de rua”. As minhas discordâncias com o BE residem não nesta estratégia dupla que tem seguido (apesar do Renato afirmar que ao longo do tempo o BE tem desenvestido na componente “de rua”, o que me é difícil apreciar), mas sim na aparente ausência duma estratégia clara de transformação do paradigma político-social. Ou seja, até concordo genericamente com a aparente estratégia dupla do BE (aliás similar à do PCP), mas custa-me vislumbrar o que o BE faria se realmente pudesse influenciar a estrutura político-social portuguesa. Creio que em parte isso se deve (tal como o PCP) ao medo de serem “acusados” de revolucionários. Note-se como Pacheco Pereira está constantemente a acusar o BE de ter uma agenda revolucionária escondida.

    Em seguida, o Renato afirma que não se importaria se o BE, ou outra organização, ao ter como objectivo declarado o derrube do regime, ficasse limitada no seu crescimento. Porque “produziria resultados concretos”. Como é que pode ter tanta certeza? Existem no panorama político português organizações que se propõem derrubar o regime, e não estão dispostas a “pactuar com o inimigo”, como o POUS ou o MRPP, só para falar em partidos politicos. Até tivemos umas Brigadas 25-de-Abril. Que resultados concretos conseguiram eles?… Sim, é verdade que PCP e BE não transformaram o regime português. Mas a sua existência permitiu uma resistência organizada, nas ruas e no parlamento, que levou a que a situação não estivesse agora muito pior. Acha realmente que estaríamos na mesma ou melhor sem eles? Ou gostava que estivessemos pior, porque isso potenciaria a mudança revolucionária? É adepto do “quanto-pior-melhor”? Acusa o PCP de ser tímido com 120 mil professores nas ruas. Mas, em primeiro lugar apenas uma minoria desses professores serão apoiantes do PCP, o que quer dizer que não estariam dispostos a serem “usados” para outros fins que não aqueles que se propuseram (e que não eram propriamente revolucionários). Por outro lado, era importante assegurar que não era criada uma rotura entre os professores e o resto da sociedade, que já os “olha um pouco de soslaio”.

    Finalmente, o Renato descreve uma possível estratégia de acção revolucionária:

    “A esquerda revolucionária não se deve preocupar obsessivamente com os votos, pois eles são uma representação distorcida da vontade popular.”

    Como é então possível aferir a vontade popular? Entrevistando as pessoas? Sondagens de opinião? Ou confiar no que o nosso preconceito acha que é a vontade popular?…

    “A esquerda revolucionária deve preocupar-se em lançar as bases do que é preciso para uma revolução. (…) Significa quebrar a hegemonia sindical do PCP, significa levar a luta política para a rua em busca de conquistas concretas e não de vitórias morais”

    Mas que conquistas concretas são possíveis, se para o Renato parece não haver verdadeiras conquistas que não aquelas que envolvem uma derrota total (porque não assentes em qualquer compromisso) do adversário? Parece-me que para o Renato tudo o que seja menos do que a revolução, consiste numa vitória “apenas” moral. Se assim não é, pode o Renato dar-me um exemplo do que seria uma conquista concreta, que não implique uma mudança de regime? E acha que esta é possível, sinceramente, nas condições sócio-económicas actuais, através duma revolução “de rua”?

    “(…)significa trazer para o debate político os temas que colocam o regime entre a espada e a parede. Significa injectar na opinião pública a dissonância da qual o PCP e o BE se afastaram.”

    Concordo absolutamente. É preciso mais populismo, mais enfrentamento das elites, de preferência feito de modo inteligente, sem que lhes dar espaço para reagirem. Aqui o BE tem ainda muito que aprender.

    “Significa por fim procurar pontes entre a esquerda necessária e denunciar a esquerda do possível.”

    Mas, Renato, a sua definição de esquerda necessária parece que cabe num armário 🙂 Quer construir pontes com quem pouco discorda de si? As pontes, mais curtas ou mais longas, conforme a necessidade, constroem-se com aqueles com quem discordamos, principalmente nos métodos, mas com quem partilhamos objectivos (suficientemente) comuns. Ora, o Renato não quer construir pontes com o BE, nem com o PCP, nem com os sectores mais à Esquerda do PS. Com quem então?…

  15. Renato Teixeira diz:

    Marreta, nenhum sectarismo me move contra o PCP. No dia em que tiver com esse partido acordos tácticos serei o primeiro a chegar-me à frente. De resto, passei boa parte do meu activismo estudantil a propor unidade com a JCP, unidade essa recusada ano após ano pela JCP de Coimbra.

    Rui F, sem dúvida uma boa proposta. Seria desejável que a actual clarificação política fosse capaz de produzir uma nova organização política. A ver vamos. Apenas com apoios morais é que não se consegue grande coisa. Nem partidos, nem frentes, nem nada.

    Portela menos 1, não diga asneiras. A resistência islâmica tem produzido resultados militares importantes, por mais que se discorde da sua agenda política. Assim o Iraque e o Afeganistão se transformaram em novos Vietnames de onde os EUA dificilmente sairão de cabeça erguida e a clamar vitoria.

    Paulo, nem Cúria nem Coreia. Vá você para Singapura a ver o que é bom no capitalismo radical.

    Viana, a resposta ao seu segundo comentário exige tempo que só terei ao serão. Até já.

  16. Rui F diz:

    Renato

    Você, é um espirito voluntarioso e muito mais comunista do que julga.
    Pense nisso…provavelmente não entra no PC porque não quer. Mas devia.

  17. Renato Teixeira diz:

    Viana,
    Não precisa de agradecer o cuidado da resposta. Faço-o sempre que o interlocutor interpela com inteligência e fraternidade (mesmo na dissonância).

    Não há polémica no primeiro ponto. Não tenho um desvio de cretinice anti-parlamentar. A crítica que faço ao BE, esta mais do que ao PCP, é que a sua actividade política praticamente se reduz a esse palco. O número de funcionários que os partidos mobilizam para esta ou aquela área diz bem das suas prioridades, pelo que desde o primeiro momento, e hoje de forma escandalosa, o BE sempre teve a esmagadora maioria dos seus profissionais ao serviço do trabalho parlamentar (que diga-se tem piorado a cada aumento da bancada).
    O BE não tem nem nunca teve uma agenda revolucionária. Alguns militantes no seu interior sim, mas ninguém na sua direcção.
    POUS, MRPP e companhia limitada são organismos praticamente defuntos. Quando professo a defesa de um partido que dê significado a essa agenda política é porque caracterizo que nenhum dos existentes o defende coerentemente.

    Não sou adepto do quanto pior melhor. E defendo que a luta revolucionária é também feita de reformas. Agora a discussão é sobre que reformas. O discurso do PCP e do BE é quase sempre defensivo. Não nos tirem isto ou aquilo. Contra o abuso. E por ai fora. Não há uma agenda de reformas ofensivas. Queremos isto e aquilo. Reformismo sem reformas nunca levaram a revolução nenhuma, antes desmoralizam tudo e todos os que estão na luta por mais do que um lugar ao sol da representatividade.

    O caso dos professores é paradigmático. 120 mil professores na rua é mais de dois terços de uma classe. O que conseguiram? Obviamente que não se tratava de irem pregar a revolução para as portas de São Bento, mas tratava-se de um caderno reivindicativo que ficou demasiado aquém do potencial que tinha.
    A vontade popular afere-se pela luta política. Número de greves, ocupações, protestos. Afere-se também pelo voto, mas há outras metodologias de votos bem melhores do que o circo eleitoral burguês. Estou certo que as conhece.

    Há dezenas de conquistas concretas que abrem caminho a processos revolucionários. Nacionalização dos sectores estratégicos; fim das quotas para os emigrantes e que cada um que nasça em Portugal seja considerado português; aumento significativo (e não miserabilista) do salário mínimo nacional; imposto (que se veja) sobre as grandes fortunas; leis anti-monopolistas (no sector privado entenda-se) sérias; Ensino Publico para todos; e por ai fora… A conquista de qualquer uma delas não faz uma revolução, mas dá o ânimo necessário para que a maioria das pessoas interiorizem a ideia de que as coisas não são impossíveis de mudar.

    A minha definição de esquerda necessária não cabe num armário, e inclui obviamente a base do PCP e do BE, e até alguma do PS. Outros ainda estão no anonimato abstencionista, no voto em branco e no voto nulo. Agora para o serem, necessários, não poderão trazer na albarda o que tem destruído o movimento revolucionário ao longo de décadas e décadas: o oportunismo e o reformismo. Têm que largar o lastro que têm disso. Ao caminhar em direcção ao PS são essas forças políticas que se excluem do armário. Não eu. Cordialmente, RT.

  18. Renato Teixeira diz:

    Rui F, acredite que mesmo que me viesse a convencer (tarefa hercúlea) o PCP não me queria para seu militante. Ainda assim, grato pelo convite e pelo elogio de carácter.

  19. PortelaMenos1 diz:

    diz RT: “Portela menos 1, não diga asneiras”

    peço desculpa mas só posso ter sido influenciado por tanta parvoíce escrita por si.

  20. viana diz:

    Mas Renato, a grande maioria das conquistas concretas que enumera fazem parte dos programas políticos da CDU e BE. No caso da CDU, há décadas. Se não sairam do papel, pelo contrário foram-se tornando cada vez mais longínquas, não foi por culpa da CDU e BE. Por acaso votaram contra essas conquistas concretas no parlamento? Talvez podessem ter feito mais em termos de mobilização popular, mas duvido. Nem sempre a maioria das pessoas, seja porque razão fôr, está connosco. Não é culpa da CDU e BE que tal aconteça, que nunca tenham estado perto de poder “ditar condições” no âmbito do actual sistema político. Ou “na rua”. É uma saudável e necessária utopia pensar que uma nova organização de Esquerda conseguirá estar mais perto de conseguir as conquistas concretas que enumerou, do que alguma vez PCP e BE estiveram, mas receio (que bem gostaria de infundado) que não passe mesmo duma utopia. Não defendo mais do mesmo. Mas também não acho que seja preciso recomeçar tudo de novo. No final resume-se a uma questão de esperança, nos partidos de Esquerda existentes: o Renato já a perdeu, eu (ainda) não. Cumprimentos.

  21. Renato Teixeira diz:

    Uma coisa é fazerem parte do programa (muitas demandas foram caindo no esquecimento e outras nunca constaram), outra é os partidos desenvolverem estratégias combativas para as conquistarem. BE e PCP já defenderam coisas bem obtusas no parlamento. O primeiro desde o programa de Bolonha às tropas da ONU no Líbano, o segundo com abstenções perigosas em matéria de governabilidade e outras em matéria de civilidade. Mas o grande problema é a dinâmica que injectam no movimento social.
    Mas como diz… eu já perdi a esperança em qualquer dessas duas direcções políticas, o Viana não. Nesse particular estamos completamente de acordo. Atenção que perder a esperança numa determinada direcção política não é menosprezar a sua base militante e eleitoral. Espero que sobrevivam e sejam capazes de ajudar na reorganização da esquerda descamisada. Cumps.

  22. Renato Teixeira diz:

    Estarei sem internet na próxima semana pelo que retomarei este e os demais debate na próxima semana. Não interpretem mal, por essa razão, se os próximos comentários ficarem uns dias sem resposta. Saudações diárias.

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