Uma Judiciosa Combinação de Medo e Esperança
1 de Fevereiro de 2010 por Zé NevesO João Rodrigues tem-nos alertado pacientemente para as virtuosidades da candidatura de Manuel Alegre. Em seu entender, aquela será uma batalha que valerá a pena travarmos, desde logo por uma razão que se desdobra: Manuel Alegre será o único candidato que permitirá a economia de uma dupla cajadada: a vitória sobre o candidato da direita, por um lado, e a afirmação de um mínimo de distanciamento crítico face ao centro, por outro lado. Este argumento do João – mas creio que as suas razões não distam das razões da direcção do BE e de alguns outros apoiantes de Alegre que se situam à esquerda do próprio Alegre – não é de somenos. Desde logo porque insinua um imperativo discutível, também caro ao Daniel: necessitaríamos, dirão ambos, se não de vitórias, pelo menos da possibilidade real de lutarmos por vitórias, pois de outro modo os nossos pés poderão ficar firmados numa outra terra que não esta. Eu, como já aqui escrevi noutras ocasiões, discordo desde logo do que o João e o Daniel entendem por vitória, por real e por mais uma série de outras coisas, incluindo esquerda e direita. Assim como discordo da facilidade com que, por vezes, sacam do argumento “os pés firmes na terra”. Além do imediato odor a chulé e a estrume (o segundo nem é assim tão mau, concedo), a imagem lembra-me demasiadas coisas ao mesmo tempo: o materialismo simplista criticado por Marx nas teses sobre Feuerbach, o mito chauvinista dos ossos dos mortos e enterrados na mãe-pátria irrigada pelo sangue dos seus idos filhos; e, last but not the least, embora deva confessar que me custa escrever isto, a ilusão ruralista-libertária de alguns soixante-huittards que queriam descobrir a praia sob a calçada (embora, em abono da verdade, tenha sido tudo muito mais interessante do que isto, já que se tratou de fazer a praia sobre a calçada). Mas, deixemos esta variação idiota cuja triplicidade não deixa de nos ajudar a situar Alegre em mais uma forma geométrica, além do seu quadrado e do rectângulo luso, e foquemos o essencial.
E o essencial, pelo menos deste meu post, é apontar a um dos efeitos perniciosos do alegrismo. O alegrismo vem instituir mais um cavaleiro da esperança. Com efeito, segundo o João, nestes tempos em que a esperança será um bem escasso, Alegre produzirá a esperança que permitirá à malta vencer o medo. Ora, quando aqui chegamos, o que ali atrás nos parecia discutível, mas ainda assim sensato – travar uma batalha que pode ser mobilizadora; vencer a direita com distanciamento crítico face ao centro –, começa a perder força de critério e a tornar-se melindroso. Em primeiro lugar, de que esperança estamos a falar? A pergunta faz sentido porque vemos que a investidura de Alegre como cavaleiro da esperança parece trazer consigo a invisibilidade da esperança que se poderá igualmente encontrar no seio da plebe. É isso que sucede quando o João diz que a esperança é um bem escasso e que o povo estará tolhido pelo medo, medo de quem tem medo de ser vítima da crise. E, assegurando-nos que isto não tem que ver com o medo de existir referido por José Gil, e de facto não tem, o que o João nos oferece nem por isso é animador: porque, ao contrário do que o João afirma, a esperança não é um bem assim tão escasso… Sabemos bem, e o João sabe melhor do que muitos de nós, que há esperança (mas também poderíamos aqui escrever racionalidade, moralidade, desejo, poder) sempre que há revolta, resistência, protesto. A ideia de que o pobre possa ser uma figura desesperada pode até revelar muita compaixão e, na melhor das hipóteses, acalentar gestos de solidariedade importantíssimos (importantes, desde logo, para a própria autonomia do pobre), mas igualmente destitui o pobre da capacidade e do poder de luta e de revolta. É o mesmo tipo de destituição que ocorre quando, em torno do desempregado, do precário, do imigrante ou da mulher, parte substancial dos sindicatos limita-se a um discurso de vitimização daqueles subalternos. Sei que a crítica deste discurso de vitimização é, não raras vezes, empreendida por quem, a partir de uma posição liberal e ou neoliberal, procura simplesmente dizer que, por obra e graça da liberdade do contrato, estaremos todos em condições iguais e que por isso não há nem deixa de haver vítimas. Mas sei também que o discurso da vitimização serve igualmente bem a quem se pretenda armar em cavaleiro da esperança dos outros, por esta via recusando a esses outros o poder de lutarem sem tutela contra a desigualdade que liberais e neoliberais não querem ver. E isto é válido para o vanduardismo marxista-leninista como para o vanguardismo social-democrata. Trata-se, então, de uma batalha complicada, que, porém, não revemos recusar, seja a nível de debates “reformistas” seja a nível de debates “revolucionários”. A questão passa por debates reformistas em que devemos defender claramente, alto e em bom som, que uma medida como o subsídio de desemprego ou o rendimento garantido não é piedade nem caridade nem assistência nem humanismo, mas um direito de quem recebe (e um direito que não é apenas ou simplesmente social, mas que é também económico-produtivo e de liberdade política). E passa por debates revolucionários em que a crítica cumpra uma dupla função: recusar o mundo que nos é servido, mas, igualmente, encontrar, além da evidência e da superfície desse mundo que recusamos ou consagramos, os antagonismos que fazem as dinâmicas (os devires, as mudanças, o que seja) de um mundo que é menos estático e petrificado do que nos parece à primeira vista.
Enfim, mais do que Alegre propriamente dito, o que me interessa é, obviamente, o João Rodrigues. Que não desespere, que há mais mundo além das presidenciais. Isto já vai longo e é claro que deixo para uma outra ocasião a frase – na verdade, todo um programa de… adornamento…, não leves a mal – do próprio João e segundo a qual Alegre faria uma combinação judiciosa (palavra que afinal sempre encontra utilidade) entre patriotismo, europeísmo e cosmopolitismo. Só espero que o João não esteja a falar do 5º Império, como referia o Alegre no outro dia. E não vale dizer que é só mais uma combinaçãozita judiciosa em articulação com o lançamento de uma 5ª Internacional.

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