O João Rodrigues tem-nos alertado pacientemente para as virtuosidades da candidatura de Manuel Alegre. Em seu entender, aquela será uma batalha que valerá a pena travarmos, desde logo por uma razão que se desdobra: Manuel Alegre será o único candidato que permitirá a economia de uma dupla cajadada: a vitória sobre o candidato da direita, por um lado, e a afirmação de um mínimo de distanciamento crítico face ao centro, por outro lado. Este argumento do João – mas creio que as suas razões não distam das razões da direcção do BE e de alguns outros apoiantes de Alegre que se situam à esquerda do próprio Alegre – não é de somenos. Desde logo porque insinua um imperativo discutível, também caro ao Daniel: necessitaríamos, dirão ambos, se não de vitórias, pelo menos da possibilidade real de lutarmos por vitórias, pois de outro modo os nossos pés poderão ficar firmados numa outra terra que não esta. Eu, como já aqui escrevi noutras ocasiões, discordo desde logo do que o João e o Daniel entendem por vitória, por real e por mais uma série de outras coisas, incluindo esquerda e direita. Assim como discordo da facilidade com que, por vezes, sacam do argumento “os pés firmes na terra”. Além do imediato odor a chulé e a estrume (o segundo nem é assim tão mau, concedo), a imagem lembra-me demasiadas coisas ao mesmo tempo: o materialismo simplista criticado por Marx nas teses sobre Feuerbach, o mito chauvinista dos ossos dos mortos e enterrados na mãe-pátria irrigada pelo sangue dos seus idos filhos; e, last but not the least, embora deva confessar que me custa escrever isto, a ilusão ruralista-libertária de alguns soixante-huittards que queriam descobrir a praia sob a calçada (embora, em abono da verdade, tenha sido tudo muito mais interessante do que isto, já que se tratou de fazer a praia sobre a calçada). Mas, deixemos esta variação idiota cuja triplicidade não deixa de nos ajudar a situar Alegre em mais uma forma geométrica, além do seu quadrado e do rectângulo luso, e foquemos o essencial.
E o essencial, pelo menos deste meu post, é apontar a um dos efeitos perniciosos do alegrismo. O alegrismo vem instituir mais um cavaleiro da esperança. Com efeito, segundo o João, nestes tempos em que a esperança será um bem escasso, Alegre produzirá a esperança que permitirá à malta vencer o medo. Ora, quando aqui chegamos, o que ali atrás nos parecia discutível, mas ainda assim sensato – travar uma batalha que pode ser mobilizadora; vencer a direita com distanciamento crítico face ao centro –, começa a perder força de critério e a tornar-se melindroso. Em primeiro lugar, de que esperança estamos a falar? A pergunta faz sentido porque vemos que a investidura de Alegre como cavaleiro da esperança parece trazer consigo a invisibilidade da esperança que se poderá igualmente encontrar no seio da plebe. É isso que sucede quando o João diz que a esperança é um bem escasso e que o povo estará tolhido pelo medo, medo de quem tem medo de ser vítima da crise. E, assegurando-nos que isto não tem que ver com o medo de existir referido por José Gil, e de facto não tem, o que o João nos oferece nem por isso é animador: porque, ao contrário do que o João afirma, a esperança não é um bem assim tão escasso… Sabemos bem, e o João sabe melhor do que muitos de nós, que há esperança (mas também poderíamos aqui escrever racionalidade, moralidade, desejo, poder) sempre que há revolta, resistência, protesto. A ideia de que o pobre possa ser uma figura desesperada pode até revelar muita compaixão e, na melhor das hipóteses, acalentar gestos de solidariedade importantíssimos (importantes, desde logo, para a própria autonomia do pobre), mas igualmente destitui o pobre da capacidade e do poder de luta e de revolta. É o mesmo tipo de destituição que ocorre quando, em torno do desempregado, do precário, do imigrante ou da mulher, parte substancial dos sindicatos limita-se a um discurso de vitimização daqueles subalternos. Sei que a crítica deste discurso de vitimização é, não raras vezes, empreendida por quem, a partir de uma posição liberal e ou neoliberal, procura simplesmente dizer que, por obra e graça da liberdade do contrato, estaremos todos em condições iguais e que por isso não há nem deixa de haver vítimas. Mas sei também que o discurso da vitimização serve igualmente bem a quem se pretenda armar em cavaleiro da esperança dos outros, por esta via recusando a esses outros o poder de lutarem sem tutela contra a desigualdade que liberais e neoliberais não querem ver. E isto é válido para o vanduardismo marxista-leninista como para o vanguardismo social-democrata. Trata-se, então, de uma batalha complicada, que, porém, não revemos recusar, seja a nível de debates “reformistas” seja a nível de debates “revolucionários”. A questão passa por debates reformistas em que devemos defender claramente, alto e em bom som, que uma medida como o subsídio de desemprego ou o rendimento garantido não é piedade nem caridade nem assistência nem humanismo, mas um direito de quem recebe (e um direito que não é apenas ou simplesmente social, mas que é também económico-produtivo e de liberdade política). E passa por debates revolucionários em que a crítica cumpra uma dupla função: recusar o mundo que nos é servido, mas, igualmente, encontrar, além da evidência e da superfície desse mundo que recusamos ou consagramos, os antagonismos que fazem as dinâmicas (os devires, as mudanças, o que seja) de um mundo que é menos estático e petrificado do que nos parece à primeira vista.
Enfim, mais do que Alegre propriamente dito, o que me interessa é, obviamente, o João Rodrigues. Que não desespere, que há mais mundo além das presidenciais. Isto já vai longo e é claro que deixo para uma outra ocasião a frase – na verdade, todo um programa de… adornamento…, não leves a mal – do próprio João e segundo a qual Alegre faria uma combinação judiciosa (palavra que afinal sempre encontra utilidade) entre patriotismo, europeísmo e cosmopolitismo. Só espero que o João não esteja a falar do 5º Império, como referia o Alegre no outro dia. E não vale dizer que é só mais uma combinaçãozita judiciosa em articulação com o lançamento de uma 5ª Internacional.




Este post levanta questões interessantes, que vão para além da candidatura de Manuel Alegre. Afirma o Zé Neves a dada altura “(…)há esperança(…)sempre que há revolta, resistência, protesto(…)”. Apesar de esperança e expectativa serem considerados sinónimos, eu diria que esperança é um termo frequentemente utilizado como significando uma expectativa positiva, i.e. “eu tenho esperança que possamos construir algo”. E parece-me que não só o João Rodrigues utiliza o termo esperança nesse sentido, como o Zé Neves o interpreta desse modo. E se é assim, então não acho que seja verdade que há (essa) esperança sempre que há revolta, resistência ou protesto. Muitos dos que se revoltam nem sequer têm expectativa (de mudar algo), fazendo-o por raiva, frequentemente porque lhes retiraram a… esperança dum futuro melhor. Não acho que o desespero gere necessariamente compaixão, ou cole uma imagem de vítima ao desesperado. Tal acontecerá apenas se este assumir um papel passivo e submisso perante a sua situação. O desesperado revoltado gera muito mais medo do que compaixão.
Chegado aqui, cito outra afirmação do Zé Neves: “(…)o discurso da vitimização serve igualmente bem a quem se pretenda armar em cavaleiro da esperança dos outros, por esta via recusando a esses outros o poder de lutarem sem tutela contra a desigualdade(…)”. Esta afirmação subtende que a revolta, a resistência, o protesto, pode ser realizada sem líderes. Que entendo como sendo aquelas pessoas que pelo seu discurso e prática são capazes de inspirar e mobilizar um colectivo para a acção. Não são, repito, não são, aspirantes a tiranetes, cujo capacidade de induzir o colectivo à acção assenta antes no medo que são capazes de induzir nos seus “seguidores”. Para o melhor e o pior, a mobilização colectiva necessita de líderes, no sentido que dei à palavra. É o resultado de sermos uma espécie eminentemente social. Isto não quer dizer que um líder, por o ser, esteja certo no que defende. E é por isso que a decisão final sobre a acção deve residir no colectivo, no processo democrático. O que, sei, não é fácil conseguir, após líderes terem sido “consagrados pela multidão”. Se as respostas fossem simples e de fácil implementação já vivíamos no “paraíso”…
Conjugando o que afirmei nos dois primeiros parágrafos, na minha opinião existe um problema quando não há líderes capazes de focar a revolta e dar esperança (no sentido positivo), numa situação de abundância de pessoas desesperadas e revoltadas. Note-se que esta “ausência” de líderes pode não quer dizer que eles não existem, mas apenas que eles não são “visíveis” (por exemplo, nos meios de comunicação de massa). Não existe possibilidade de revolução sem “populismo”, sem apelar aos anseios da maioria, inspirando-a e mobilizando-a. No entanto, o “populismo” tanto pode ser de Esquerda, baseado na esperança dum futuro melhor, como de Direita, assente no medo dum futuro tão terrível como o presente ou pior. As pessoas desesperadas e revoltadas partilham este medo, e são por isso facilmente “mobilizadas e inspiradas” pela extrema-direita (como vimos tantas vezes ocorrer ao longo da História). Para que tal não aconteça acho essencial a existência de líderes, de Esquerda, que lhes “demonstrem” que é possível ter esperança num futuro melhor. Não sei se Manuel Alegre é um tal líder. Parece sê-lo para muitos (onde não estou incluído) que lhe deram o seu voto nas últimas presidenciais.
Existe outra questão de grande importância que o João Rodrigues aflora no seu artigo no i, em particular nesta passagem “(…)O famoso centro depende sempre da configuração do debate político, da forma como os assuntos da vida colectiva são abordados e debatidos. Isto tem a ver com hegemonia ideológica e com as palavras que esta autoriza. Tão importante como ter o apoio do BE, do PCP e do PS (…) é forjar as palavras certas, as que redefinem o centro do debate(…)”, mas a que o Zé Neves não parece dar muita atenção. A avaliação que alguém faz duma ideia que outro lhe transmite não resulta apenas, nem sequer principalmente, duma avaliação “racional” dos méritos e desméritos dessa ideia. Essa avaliação assenta antes de mais numa comparação da ideia com o seu preconceito ideológico (ou idea-lógico), o qual é em grande parte resultado do caldo social e cultural em que se insere. Em particular, como seres sociais que somos, mais cooperantes que competitivos (apesar do que o neo-liberalismo quer fazer crer), temos tendência para aceitar o que percebido como o consenso social. O qual hoje em dia é em (muito) grande parte construído pelos meios de comunicação de massa. O problema a que o João Rodrigues alude é que o aparente consenso político-social, o centro do debate político, é uma construção artificial, no sentido em que foi deliberadamente construído pela acção dos “think-tanks” neo-conservadores com o beneplácito dos donos dos media. A própria linguagem utilizada no discurso político é uma construção, pensada de modo a vestir medidas neo-conservadoras com as roupagens do senso comum e preconceito cultural. Em nenhum sítio tal é mais evidente do que nos EUA. É preciso romper este controlo da Direita sobre o discurso político-social. É verdade que a contestação a esse discurso existe, mas é percepcionado como vindo dos “extremos”, que estão contra o “consenso”, e portanto existem limites à sua “penetração” social. A “elevação” a presidente de alguém que tem um discurso partilhado (mesmo que parcialmente) com a Esquerda radical, ou “extremista”, poderá funcionar como uma legitimização social desse discurso, efectivamente “puxando” o centro do debate político-social “mais para a Esquerda”. E tornando mais próximo o dia em que teremos uma verdadeira maioria sociológica de Esquerda (que neste momento é bastante menos do que a soma dos votos no PCP, BE e PS) em Portugal. Que é o que queremos, ou não?…
Caro Zé Neves,
maré alta!
Acho que tocas questões que seria da maior importância ver no centro de um debate alargado. E no intuito de ajudar a lançá-lo escrevi o que podes ler em baixo, prolongando e reformulando um pouco, por conta e risco próprios, alguns aspectos da tua intervenção – ao mesmo tempo que mobilizando para o efeito o comentário do Viana.
Abraço deste teu leal camarada
miguel
Caro Viana,
este seu comentário à excelente intervenção do Zé Neves, no qual volto a reconhecer um núcleo duro de preocupações e posições de princípio que, independentemente da nossa querela semântica sobre o Estado, nos aproximam, levanta-me, apesar de tudo, certos problemas. Distribuo-os em dois feixes principais para facilitar a leitura.
1. Você escreve: “Chegado aqui, cito outra afirmação do Zé Neves: ‘(…)o discurso da vitimização serve igualmente bem a quem se pretenda armar em cavaleiro da esperança dos outros, por esta via recusando a esses outros o poder de lutarem sem tutela contra a desigualdade(…)’”. E objecta: Esta afirmação subtende que a revolta, a resistência, o protesto, pode ser realizada sem líderes. Que entendo como sendo aquelas pessoas que pelo seu discurso e prática são capazes de inspirar e mobilizar um colectivo para a acção. (…) [mas] Para o melhor e o pior, a mobilização colectiva necessita de líderes, no sentido que dei à palavra” – embora “a decisão final sobre a acção dev[a] residir no colectivo, no processo democrático”.
Pois bem, o que me parece – e ele me corrigirá, se for caso disso – é que o Zé Neves não negará o papel de líderes tal como você os define. Em todo o caso, eu não vejo oposição necessária entre o seu argumento e o dele. É verdade que talvez gostasse de ver mais explícita no seu texto a ideia, que pressuponho como sua, de que os líderes de que fala não beneficiarão estatutariamente de qualquer supremacia hierárquica, nem ocuparão qualquer lugar acima dos mecanismos democráticos de deliberação e decisão. Quer dizer que líder será aquele que entre iguais demonstra uma particular capacidade de proposta de iniciativas e goza por isso de uma atenção particular quando fala. O líder poderá e deverá não ser sempre o mesmo, e as suas iniciativas só serão validadas pela adesão dos seus iguais que manterão a todo o momento os mesmos direitos de proposta e contra-proposta, não delegando no líder a sua vontade e responsabilidade agente e governante. Assim, e creio que estaremos de acordo, mas gostaria de o ouvir, ao líder e à sua iniciativa, ou à liderança, não deverá corresponder qualquer qualidade ou quantidade de poder político especial na organização política da democracia e autonomia que visemos actualizar na nossa acção presente, e não apenas como “objectivo final”.
2. Na última parte do seu texto, leio também: “A avaliação que alguém faz duma ideia que outro lhe transmite não resulta apenas, nem sequer principalmente, duma avaliação “racional” dos méritos e desméritos dessa ideia. Essa avaliação assenta antes de mais numa comparação da ideia com o seu preconceito ideológico (ou idea-lógico), o qual é em grande parte resultado do caldo social e cultural em que se insere. Em particular, como seres sociais que somos, mais cooperantes que competitivos (apesar do que o neo-liberalismo quer fazer crer), temos tendência para aceitar o que percebido como o consenso social”. Ora, continua você: “É verdade que a contestação a esse discurso [o discurso dominante, neoliberal, etc.] existe, mas é percepcionado como vindo dos ‘extremos’, que estão contra o ‘consenso’, e portanto existem limites à sua ‘penetração’ social. A ‘elevação’ a presidente de alguém que tem um discurso partilhado (mesmo que parcialmente) com a Esquerda radical, ou ‘extremista’, poderá funcionar como uma legitimização social desse discurso, efectivamente ‘puxando’ o centro do debate político-social ‘mais para a Esquerda’”.
Aqui a minha questão é a de saber se um líder “elevado” a Chefe de Estado no quadro do regime actual não será mais um “chefe”, um “dirigente” e um “superior”, consagrado como “cavaleiro da esperança” pela nossa renúncia a uma participação igualitária e autónoma na extensão activa da cidadania governante, do que o tipo de líder que você me dá a ideia de ter em vista na primeira parte da sua intervenção.
Acresce que nem você, nem o Zé Neves, nem eu estamos interessados em vender as nossas ideias de democracia e autonomia às pessoas levando-as à certa, ou fazendo com que as pessoas as queiram imitar por serem as ideias dos entendidos, dos que sabem ou podem, dos “legítimos superiores” ou dos “competentes”. A nossa acção, que terá de partir efectivamente de uma interpelação das ideias e crenças que as pessoas alimentam, terá de apelar para as suas capacidades de examinarem essas ideias, identificarem as motivações a que respondem ou traduzem e as transformarem para as poderem assumir como suas no mesmo movimento em que comecem a pensar pela sua cabeça, e tendo em conta a existência das cabeças dos outros.
Por outras palavras, parece-me que devemos, não tentar essa quadratura do círculo que seria a via do conformismo para a autonomia e o auto-governo, mas trabalhar no sentido de descondicionar os reflexos inculcados pela dominação perante a “figura hierárquica” do “bom governante”, que governaria a nosso favor no quadro de uma divisão do trabalho político que precisamente exclui do governo a gente comum que os cidadãos comuns são.
Que me diz você? E, já agora, também, ao lado do Zé Neves (caso queira voltar à carga), quem ache algum interesse nestas questões.
Cordial abraço
msp
Caro miguel serras pereira,
Estou em total sintonia consigo com tudo o que diz.
Relativamente ao seu ponto 1, tive o cuidado de afirmar no meu comentário que “a decisão final sobre a acção deve residir no colectivo, no processo democrático”. O líder, tal como o defini, apenas inspira, não decide (ie. legisla), e muito menos manda (ie. executa). No entanto, exactamente porque os líderes não ocupam “um cargo”, não é possível assegurar que, como diz, “o líder (…) deverá não ser sempre o mesmo”. Tal depende somente da dinâmica interpessoal no seio do colectivo. Não é possível, nem deveria ser possível, à partida cercear a possibilidade de alguém se visto como líder. Devem, no entanto, existir mecanismos que impossibilitem a um líder transformar-se num tirano. Será, em princípio positivo, o aparecimento de vários líderes, de modo a que possa haver contraditório. O risco, claro, é que isso leve ao sectarismo e divisionismo. É um equilíbrio precário…
No que se refere ao seu ponto 2, como antes afirmei, concordo totalmente que o objectivo principal e final da política deve ser autonomizar as pessoas, nomeadamente o seu pensamento, libertando o seu raciocínio das amarras do caldo cultural e social em que crescem. Libertando-as do torpor, alienação e subjugação em que vivem. Mas… não é fácil. Como se descobriu quando do fim da escravatura, muitos dos escravos não queriam ser (completamente) livres, não sabiam o que fazer após serem libertados. Até é possível, que se lhes tivessem perguntado, uma maioria teria dito que quereria manter-se escrava. E muitos continuaram a fazer os mesmos trabalhos, praticamente nas mesmas condições deploráveis. Quer isto dizer que qualquer minoria auto-iluminada tem o “direito” de obrigar a maioria a agir contra a sua vontade, mesmo que me nome do se interesse? Não. A conclusão que tiro é antes que, se queremos convencer uma maioria das nossas ideias, em particular na situação actual, não podemos confiar apenas na sua “lógica interna”, na sua racionalidade aparente, temos também de ter em atenção o modo como são apresentadas, ou seja a narrativa linguística que lhes é associada, e a interacção dessas ideias com o preconceito pré-existente (e existe sempre, em maior ou menor grau – a racionalidade pura, sem postulados, é logicamente impossível). Será isto manipular as pessoas? Sim, é verdade. Mas todos nós o fazemos, sempre que interagimos com alguém. O que dizemos e o modo como o fazemos, mesmo que inconscientemente, tem sempre como objectivo ilicitar uma reacção específica do nosso interlocutor. A manipulação é parte intrínseca do processo de interacção social. Não é em si, negativa ou positiva. É-o consoante os fins para que é utilizada. Como disse no início, devemos educar as pessoas a serem mais cépticas, mais capazes de descontruir qualquer tentativa de manipulação (seja ele bem intencionada ou não), mais autónomas. Mas para que seja possível criar condições para que isso aconteça em larga escala, temos primeiro de convencer a maioria (sim, de “manipular” a maioria – estou a tentar ser completamente honesto) das pessoas que as nossas ideias, de mais autonomia, são do seu interesse. E para isso são necessários líderes, capazes de transmitir as nossas ideias de modo convincente (o que requer não só inteligência no discurso, de modo a rodear os preconceitos instalados, mas também um esforço paralelo de descontrução desses preconceitos).
Caro Viana,
sim, estamos de acordo em quase tudo, embora eu não chamasse “manipulação” e “manipular” a não ser a formas de interacção hierarquicamente assimétricas. Não chamaria “manipulação” à interpelação/solicitação da autonomia – pelo menos potencial – dos outros quando encaro com eles a transformação da nossa condição comum. Mas esta discussão pode ficar para outra altura, em que aproveitaremos talvez para rediscutir se devemos ou não chamar “Estado democrático” – como você defende e eu contesto – a um poder político do auto-governo igualitário e democrático ou “cidadania governante”.
Até lá, vamos falando aqui no 5dias ou noutros lados (sou facilmente contactável por e-mail), espero. Um abraço cordial
msp
caros viana e miguel,
estou aqui atafulhado com uma série de coisas, mas, assim que tiver tempo, voltarei aqui.
abç